*André Heidrich Rodeghiero
Depois de uma semana no Chile, vim para a Argentina e gostaria de compartilhar minha reflexão: precisamos olhar com atenção para os nossos vizinhos. Há experiências acontecendo aqui que podem contribuir para a forma como pensamos o transporte no Brasil. Eletrificação, parcerias industriais, integração e conveniência para o passageiro fazem parte dessa conversa.
Em Buenos Aires, os ônibus elétricos da Agrale são um bom exemplo. A marca brasileira participa do projeto TramBus com chassis desenvolvidos na Argentina, carrocerias da TodoBus e propulsão elétrica da britânica Equipmake. Essa combinação mostra como a cooperação entre empresas de diferentes países pode construir soluções para as necessidades da nossa região.
O projeto prevê 82 veículos, entre convencionais e articulados. Parte dessa transformação já pode ser acompanhada no piloto da linha 34, que conecta Liniers a Aeroparque. É importante distinguir os ônibus em teste da implantação completa do sistema. Ainda assim, colocar a tecnologia em operação permite aprender com o trânsito, os motoristas, a manutenção e os passageiros.
O TramBus também propõe uma discussão sobre o serviço. A futura linha T1 foi planejada para ligar Nueva Pompeya a Aeroparque, conectando bairros e outros meios de transporte. Para quem viaja, o valor está na combinação entre frequência, acesso e previsibilidade. Um veículo moderno precisa fazer parte de uma viagem que funcione do início ao fim.
No centro histórico, os micro-ônibus elétricos entre Plaza San Martín e Parque Lezama mostram outra aplicação. O serviço foi inaugurado com uma equipe de condução exclusivamente feminina. Veículos adequados ao espaço urbano, acessibilidade e oportunidades profissionais aparecem juntos. A inovação ganha força quando responde às características do lugar e das pessoas.

A transição energética argentina também passa pelo gás natural. A Agrale anunciou uma ampliação da parceria com a Hexagon Agility para equipar mais de 700 ônibus a GNC, como é chamado o nosso GNV por aqui. É uma tecnologia diferente da elétrica, com emissões no escapamento, que precisa ser avaliada conforme a operação, a infraestrutura e o custo total. O debate exige considerar as condições de cada mercado.
Outra mudança acontece no momento de pagar a passagem. A abertura de meios de pagamento no sistema SUBE vem permitindo, nas localidades atendidas, usar cartões bancários, celulares e QR. Para um visitante, isso pode significar embarcar sem precisar entender onde comprar ou recarregar um cartão específico. Facilitar esse primeiro contato também ajuda a tornar o transporte mais atraente.
Na longa distância, a Cata Internacional divulga internet via Starlink a bordo e oferece acompanhamento da viagem por GPS. São recursos que dialogam com expectativas atuais: manter contato, aproveitar o tempo e saber onde está o ônibus. A experiência começa antes do embarque e continua durante o percurso. Cada etapa oferece oportunidades para melhorar a relação com o cliente.
Esses exemplos reforçam uma convicção: buscar referências internacionais, também, significa acompanhar de perto a América Latina. Temos desafios compartilhados e empresas capazes de construir respostas em conjunto. Para o transporte brasileiro, vale observar o que funciona, entender os resultados e adaptar com critério. A próxima inovação pode nascer de uma parceria, de um pagamento mais simples ou de uma conexão melhor. E pode estar rodando ao nosso lado.
Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

















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