Próxima Parada: um espaço para pensar o transporte que queremos construir

“Não pretendo apresentar respostas definitivas. Quero compartilhar experiências, levantar perguntas e mostrar projetos que já podem ser testados”

*André Heidrich Rodeghiero

Aceitar o convite para escrever esta coluna foi, antes de tudo, aceitar uma responsabilidade. Agradeço ao editor Antonio Ferro pela confiança e pela oportunidade de abrir, nas páginas da Revista AutoBus, um espaço para conversar sobre inovação, tecnologia e transformação no transporte brasileiro.

Minha relação com a mobilidade foi construída entre experiências profissionais, projetos, viagens e uma inquietação constante: por que algumas soluções avançam rapidamente em determinados mercados, enquanto outras demoram anos para chegar até nós? Ao longo da minha trajetória, atuei com inovação, transformação digital, novos negócios, experiência do cliente e parcerias estratégicas no transporte rodoviário de passageiros. Participei de iniciativas ligadas a sites e aplicativos, canais digitais de venda, totens de autoatendimento, internet via satélite, inteligência artificial, automação e novos conceitos para a experiência a bordo.

Esses projetos me ensinaram que inovar no transporte não significa apenas adquirir tecnologia. A inovação precisa resolver um problema real, conversar com a operação, ser compreendida pelas equipes e gerar valor para o passageiro e para o negócio. Muitas ideias promissoras fracassam porque não foram conectadas aos processos, às pessoas e à realidade econômica da empresa. Outras transformam a jornada do cliente porque nasceram de uma necessidade concreta.

Minha formação acompanha essa busca. Reuni certificações nacionais e internacionais, entre elas a Certificação Internacional em Inovação para o Transporte, realizada pelo Instituto de Transporte e Logística em parceria com a NOVA School of Business and Economics, em Lisboa. Mais do que acumular diplomas, procuro transformar conhecimento em aplicação prática, aproximando estratégia, tecnologia e execução.

Uma parte importante da minha formação aconteceu fora das salas de aula e dos escritórios. Sou um viajante por natureza. Já conheci cerca de 60 países e vivi fora do Brasil por quase uma década. Em cada viagem, adquiri o hábito de observar como as pessoas se deslocam, compram passagens, aguardam nos terminais, embarcam e se relacionam com os serviços. Ônibus, trens, aviões, metrôs, rodoviárias e aeroportos tornaram-se verdadeiros laboratórios de experiência.

Voltei ao Brasil com o propósito de aplicar essa bagagem multicultural ao nosso mercado. Não para copiar modelos estrangeiros, mas para compreender o que pode ser adaptado à realidade brasileira. Temos dimensões continentais, diferentes perfis de passageiros, desafios regulatórios e desigualdades de infraestrutura. Isso exige soluções próprias, sem deixar de observar e aprender com quem está fazendo diferente.

Foi por acreditar nessa troca que aceitei o convite de Antonio Ferro. Acredito que temos muito a acrescentar ao debate sobre como melhorar o transporte brasileiro. Esta coluna nasce para provocar, conectar referências e discutir caminhos possíveis. Falaremos sobre inteligência artificial, experiência do passageiro, novos modelos de negócio, terminais, canais digitais, veículos autônomos, eletrificação, design, conforto, dados e tudo aquilo que possa transformar a mobilidade.

Não pretendo apresentar respostas definitivas. Quero compartilhar experiências, levantar perguntas e mostrar projetos que já podem ser testados. A inovação não acontece apenas nos centros de pesquisa ou nas gigantes de tecnologia. Ela também nasce na garagem, na rodoviária, na conversa com um motorista, na reclamação de um passageiro e na coragem de uma empresa disposta a experimentar.

E é com uma experiência concreta que iniciaremos nossa próxima parada. Um projeto colaborativo entre uma operadora de transporte e uma fabricante de ônibus mostrou-me como diferentes competências podem se unir para repensar a experiência do passageiro. Esse collab não terminou na entrega de um conceito: despertou novas perguntas, ampliou minha visão e acabou me levando até a China em busca de tecnologias, parceiros e ideias capazes de acelerar a inovação no transporte rodoviário brasileiro.

Na próxima edição, conto como essa jornada começou e por que ela pode apontar novos caminhos para o futuro do ônibus.

André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional com passagens por diversos grupos de transporte, startups e marketplaces, conta também certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

Imagens – Acervo pessoal

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