Mãe, batalhadora e motorista de ônibus

A trajetória de uma profissional do volante no transporte coletivo urbano

Para Elisiane Siqueira Duarte ou simplesmente, Ane, desafios e obstáculos não representam problemas quando o sonho para se alcançar algo fala mais alto. Com 45 anos, essa gaúcha de Porto Xavier (pequena cidade próxima à fronteira com a Argentina) é mãe solo de quatro filhos, todos muito bem cuidados, diga-se de passagem.

Vivendo em Atibaia, há mais de 20 anos, hoje ela contempla um sonho de infância sufocado por muitos anos, que era de ser motorista profissional de veículos comerciais. Segundo ela, que sempre viveu para a família, o trabalho em outras áreas foi o gatilho para a concretização daquilo que almejava. “Fui faxineira por uns 10 anos, passei por uma separação conturbada onde fiquei sem teto, sem roupas, e com filhos menores para sustentar. Após a separação surgiu uma faxina em uma empresa de guincho, na qual eu passei a realizar os serviços e sempre observando o trabalho dos guincheiros (todos homens). Passei a ter interesse na profissão. Todos lá tinham muito carinho por mim e gostavam do meu trabalho de faxineira, sendo que eu sempre brincava ao dizer que iria me tornar uma guincheira”, disse Ane.

Com a vontade de experimentar essa nova profissão, ela usou de suas economias para tirar sua CNH capaz de conduzir veículos maiores. “Por mais que eu sentisse muito desejo, havia uma sensação de que talvez eu não conseguisse dominar um veículo de maior porte, pensando que poderia perder o dinheiro investido na CNH. Não desisti e fui em frente para poder, em fim tirar a dúvida dessa vontade tão grande que tinha  de mim”, afirmou.

Segundo seu relato, no primeiro dia de aula o instrutor fez perguntas de costume, entre elas se já havia dirigido veículo maior antes, respondendo que sempre teve vontade, mas que até então, só conduzia automóvel particular. “Tive vários pensamentos quanto a sentir medo, mas quando me posicionei no posto do motorista, aquilo tudo mudou. Foi nesse momento a decisão final pra mim, de que era aquilo mesmo que eu queria fazer. Tive muita alegria por estar ali”, observou Ane.

O próprio instrutor percebeu, rapidamente, que ela tinha total capacidade para dirigir esses veículos maiores, não sendo problema algum alcançar seu desejo da CNH profissional. “Após eu conquistar essa nova habilitação, o gerente da empresa de guinchos onde eu fazia as faxinas me ligou e perguntou se era verdade que eu estava trocando a minha CNH. Respondi que sim, mas com um sentimento angustiante de que tinha feito algo de errado com minhas limpezas. Puro engano. A gerente da empresa me disse que havia vaga no guincho, oferecendo-me uma oportunidade que agarrei muito feliz. Nem perguntei sobre o valor do salário, que aliás era compatível com o que ganhava mensalmente nas faxinas”, disse Ane.

De acordo com ela, após aprender o ofício, passou a guinchar veículos para a polícia municipal e o departamento público estadual. “Aprendi muito rápido e quando eu chegava para guinchar, os policiais me olhavam com aquele olhar de quem diz, é mulher, não vai dar conta, vai sobrar pra nós. Então eu fazia o meu trabalho, mostrando que eu era capaz. Sempre fui bem tratada, recebendo elogios, me tornando conhecida na área”.

Contudo, o maior sonho de Ane era ser motorista de ônibus. Para isso, decidiu fazer os cursos de capacitação distribuir currículos, fazendo vários testes em muitas operadoras, com olhares negativos e positivos quanto à sua vontade de poder conduzir. “Cheguei a ouvir de um treinador de uma das empresas que lugar de mulher é na cozinha e que eu não deveria estar ali. Frustrante, não é mesmo? Mas não desisti. Outra empresa de ônibus me chamou, depois que eu fiz um teste. Fui aceita e pensava que já ia trabalhar no ônibus. Ledo engano. Comecei como motorista de micro-ônibus, dirigindo, também, van. Mas não perdia a esperança de que eu iria dirigir o ônibus. Foram muitos os desafios, como os horários difíceis, somente conforto masculino, as motoristas mulheres dividiam o mesmo banheiro com os homens, o quarto de descanso dos motoristas homens tinha ar-condicionado e nós mulheres não tínhamos quarto. Muitos motivos para desistir”, lembrou.

Ane ficou decepcionada com a situação, sugerindo mudanças, porém a operadora irredutível se recusou a dar melhores condições de trabalho para o lado feminino. “Aquilo foi a gota d’água pra mim. Outras empresas já haviam me chamando e recusei porque já estava trabalhando. Lembro que faltava uma para eu realizar o teste, a que eu mais desejava. Então, enviei meu currículo e logo me chamaram para o teste. Fiquei surpreendida, pois esperava olhares negativos e foi o inverso, com o pessoal me deixando à vontade para as minhas avaliações. Me senti tão bem que até perguntei se a empresa passava treinamento aos funcionários de como tratar os outros funcionários. Após alguns dias, coincidentemente na data do meu aniversário, recebi a mensagem da transportadora, me chamando para trabalhar com eles”, disse.

Os primeiros passos na condução de um guincho. A abertura de portas para o sistema de transporte

Passando a conduzir o ônibus no transporte urbano, Ane aprendeu muita coisa, tendo que lidar com um cotidiano difícil e desafiador. “No dia a dia do trabalho urbano, os passageiros ficam surpreendidos quando me viam no cockpit, sendo que alguns faziam comentários positivos e outros negativos, mas que no final o resultado era sempre satisfatório”.

Atualmente, ela ressalta que não é fácil o dia a dia de um motorista, que tem muitas responsabilidades, necessita ter atenção no trânsito para evitar acidentes, precisa tratar bem as pessoas. “Nem sempre temos veículos confortáveis para dirigir, mas sempre estamos ali, dando o nosso melhor para que o passageiro se senta confortável e seguro. Estou sempre lendo, me informando, buscando aperfeiçoamento para poder transportar as pessoas de forma segura e fazer um trabalho eficaz. A operadora onde trabalho sempre disponibiliza aperfeiçoamento profissional. Lembro, também, que sou surpreendida, várias vezes, com elogios de passageiros que já acostumaram comigo na direção. Até me trazem presentes, lanches, gorjetas. Há críticas, mas que logo são substituídas pela confiança. Faço o meu trabalho com muito amor e dedicação e me orgulho de estar aqui representando a classe feminina. Não sou perfeita, tenho muito a aprender, e dou o meu melhor”, explicou.

O sonho realizado em ser motorista de ônibus

Quanto a tecnologia veicular (com componentes como transmissão automática e suspensão a ar), a profissional destacou que os recursos embarcados nos ônibus podem ajudar em muito no dia a dia operacional ao promoverem melhores condições de direção. “Trabalhamos com horário e o trânsito em si já tem seus pontos negativos. Assim, ter recursos tecnológicos torna a condução mais confortável, segura, confiante, desempenhado mais eficiência no trabalho, entregando um resultado melhor, além de cansar menos, nos deixar menos estressadas”, observou.

Ela revelou ter a vontade de experimentar outros tipos de ônibus, como os rodoviários, para viajar mais longe. Porém, neste momento, isso está fora dos planos, pois seus filhos, ainda, são muito pequenos e necessitam de sua presença. “Agora, estou tranquila e muito feliz na atual empresa. Entretanto, ainda almejo voos mais altos”, contou à revista AutoBus.

Ane deu um recado às mulheres quanto a realizar aquilo que quer, que deseja no setor de transportes. “Quero dizer para elas que não tenham medo, que vão atrás dos seus sonhos, não deixem os pensamentos negativos de outras pessoas influenciarem, surpreenda a eles e a você mesma mostrando sabe fazer. Hoje, temos alternativas, apoio, ajuda, inclusive, há cursos grátis disponíveis para mulheres e para as inscritas no CadÚnico, por meio dos programas do Sest Senat. Qualquer mulher pode dirigir, basta querer, seguir a sua intuição, ouvir o seu coração, colocar em prática e ser feliz. Você vai encontrar empresas que vão te decepcionar, mas, também, terá empresas que estão dispostas e preparadas para te receber e deixar você mostrar a eles do que você é capaz e reconhecer o seu trabalho”, destacou.

Imagens – Acervo pessoal

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