*André Heidrich Rodeghiero
Viajar pela China é uma experiência fascinante para quem observa transporte, tecnologia e escala. Em muitos momentos, tudo parece funcionar de forma invisível: o bilhete está no celular, o documento se conecta à reserva, os portões reconhecem o passageiro, os pagamentos acontecem por aplicativos e a jornada flui com velocidade difícil de comparar.
Mas essa fluidez tem uma condição: ela funciona melhor para quem está integrado ao ecossistema local. Para o cidadão chinês, o documento nacional, aplicativos locais, pagamentos digitais e bilhete eletrônico criam uma experiência extremamente eficiente. No trem-bala, o passageiro compra a passagem, vincula sua identidade ao bilhete e utiliza canais automáticos para entrar na estação, acessar a plataforma e embarcar. Em poucos segundos, o sistema valida quem é aquela pessoa e se ela está autorizada a seguir viagem.
Para o estrangeiro, a experiência pode ser diferente. Mesmo quando a compra é digital, algumas etapas dependem do passaporte, de leitores específicos, de canais assistidos ou da ajuda de funcionários. A orientação oficial informa que, com bilhetes eletrônicos, o passageiro estrangeiro deve usar o passaporte ou documento de residência permanente nos equipamentos automáticos, ou se apresentar ao portão manual de inspeção. Ou seja: a tecnologia existe, mas nem todos passam por ela da mesma forma.
Essa talvez seja uma das maiores lições da viagem. Um sistema pode ser avançado e, ainda assim, criar barreiras para quem não se encaixa no perfil padrão do usuário.
No Brasil, essa reflexão é urgente. A digitalização do transporte rodoviário avançou muito. Estimativas de mercado indicam que as vendas on-line, que há dez anos representavam entre 5% e 10% da comercialização de passagens rodoviárias, hoje se aproximam de 40% do total. Outros levantamentos apontam, ainda em 2024, que entre 30% e 35% das compras já ocorrem on-line. Em empresas que eu gerenciava o digital, chegamos a 50% da venda à distância. Além disso, a procura digital segue crescendo em dois dígitos, impulsionada por aplicativos, marketplaces, sites próprios, WhatsApp, Pix e compra antecipada.

Esse avanço é positivo, mas não significa que todo passageiro esteja pronto para uma jornada 100% digital. Ainda precisamos incluir idosos, passageiros com gratuidade, beneficiários do Passe Livre e da ID Jovem, pessoas sem aplicativo, usuários com dificuldade digital, passageiros sem cartão, turistas estrangeiros sem CPF, barreira do idioma, pessoas com deficiência e clientes que precisam de atendimento humano. Em 2025, mais de 8 milhões de gratuidades foram concedidas no transporte interestadual regulado. Esse número mostra que inclusão não é exceção: é parte estrutural do sistema.
Digitalizar não significa transferir complexidade para o passageiro. Se o processo exige baixar aplicativo, criar cadastro, validar e-mail, informar CPF, entender regras, localizar QR Code e resolver sozinho uma divergência no embarque, talvez não estejamos simplificando a jornada. Estamos apenas mudando o lugar da fila.
A China mostra que a tecnologia pode transformar a escala em fluidez. Mas, também, mostra que o sistema precisa considerar quem fica fora da experiência ideal. No Brasil, o desafio não é escolher entre digital e presencial. É construir uma jornada híbrida, assistida quando necessário e automatizada sempre que possível.
O futuro do embarque rodoviário precisa combinar QR Code, documento digital, biometria, totens, atendimento humano e integração entre sistemas. O objetivo não é substituir pessoas por máquinas. É usar tecnologia para reduzir filas, evitar erros, dar autonomia ao passageiro e liberar equipes para resolver problemas reais.
A inovação só cumpre seu papel quando amplia o acesso. Se a digitalização melhora a vida de quem já sabe usar tecnologia, mas dificulta a viagem de quem precisa de apoio, ela ainda está incompleta.
A próxima parada do transporte brasileiro não é apenas ser mais digital. É mais simples para todos!
Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte.
















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