Próxima parada: A inovação pode estar na pintura dos seus veículos

*André Heidrich Rodeghiero Durante o SEST SENAT Summit 2026, uma frase ficou ecoando na minha cabeça. Em uma resposta ao público, Tay Dantas — ex-sócia e ex-diretora de Marca e Marketing de Produto do G4 Educação — chamou atenção para um ativo que as empresas de transporte já possuem, mas nem sempre enxergam como mídia: […]

*André Heidrich Rodeghiero

Durante o SEST SENAT Summit 2026, uma frase ficou ecoando na minha cabeça. Em uma resposta ao público, Tay Dantas — ex-sócia e ex-diretora de Marca e Marketing de Produto do G4 Educação — chamou atenção para um ativo que as empresas de transporte já possuem, mas nem sempre enxergam como mídia: seus próprios veículos. Temos verdadeiros outdoors ambulantes circulando todos os dias por rodovias, cidades e terminais — e talvez estejamos utilizando pouco esse espaço. Tay foi uma das palestrantes do Summit, tratando justamente de marca e transformação dos modelos de negócio.

Passei as semanas seguintes observando mais atentamente as frotas e pesquisando como o mercado vem tratando a identidade visual dos ônibus. Durante décadas, a pintura foi um dos principais elementos de reconhecimento das empresas rodoviárias brasileiras. Quem não se lembra dos “amarelinhos” da Itapemirim? O amarelo, adotado em 1967, tornou-se tão associado à empresa que passou a ser praticamente sinônimo da marca. Não era apenas pintura. Era branding em movimento.

A UTIL levou essa lógica ainda mais longe. Zebra, onça, girafa e outros layouts temáticos fizeram ônibus virarem peças reconhecíveis nas estradas. Eram veículos que despertavam curiosidade, fotografia e conversa — algo que hoje chamaríamos de engajamento orgânico de marca.

Nos últimos anos, porém, parte dessa ousadia visual parece ter cedido espaço à padronização. Vemos pinturas retrô, comemorativas ou releituras de identidades históricas, importantes para memória e posicionamento, mas ainda poucas propostas realmente diferentes pensadas para o futuro.

E é justamente aí que olhar para outros mercados ajuda. Na Busworld Southeast Ásia 2026, em Jacarta, um dos ônibus apresentados pela indonésia Laksana chamava atenção não apenas pela pintura, mas pelos elementos luminosos integrados ao desenho do veículo. Uma faixa de LED na parte superior da carroceria ajudava a destacar o ônibus e reforçava sua presença visual. Do outro lado do mundo, a iluminação já deixa de ser apenas funcional para fazer parte da linguagem estética e da identidade do veículo.

Na própria Lat.Bus, conversando com um designer especializado em ônibus, ouvi detalhes de conceitos que vêm sendo estudados para o mercado latino-americano. Ainda não posso revelar o que conversamos, mas uma coisa ficou clara: existe espaço para inovar muito mais na superfície de um veículo do que simplesmente trocar cores ou aumentar um logotipo.

O tema ganhou força com as iniciativas e projetos do arquiteto João de Deus Cardoso, no final da década de 1960

Ao mesmo tempo, outro movimento está acontecendo. A cor deixou de representar apenas a empresa e passou também a comunicar a categoria do produto. O premium está escurecendo. Preto, grafite, chumbo e dourado aparecem associados a serviços superiores. A pintura comemorativa dos 90 anos da Viação Garcia, por exemplo, utilizou preto/grafite e dourado para transmitir tradição e sofisticação.

Isso revela uma mudança interessante. Antigamente, cor era identidade da empresa inteira. Hoje, ela pode ser identidade da marca, indicador da categoria de serviço e ferramenta de posicionamento. Mas por que parar aí?

Um ônibus percorre milhares de quilômetros, entra em grandes capitais, pequenas cidades, rodoviárias e pontos turísticos. É um dos maiores ativos físicos de comunicação que uma empresa de transporte possui. Sua pintura pode lançar um produto, apoiar uma causa, criar uma parceria com outra marca, promover um destino turístico, diferenciar uma experiência premium ou simplesmente fazer alguém tirar o celular do bolso para fotografá-lo.

Talvez esteja justamente aí uma oportunidade pouco explorada. Inovação não precisa estar apenas no motor elétrico, na inteligência artificial, no aplicativo ou no sistema de vendas. Ela também pode estar naquilo que o passageiro enxerga antes mesmo de entrar no ônibus.

Se temos outdoors ambulantes cruzando o Brasil todos os dias, talvez a pergunta não seja quanto custa pintar um ônibus diferente.

A pergunta deveria ser: quanto vale ser lembrado?

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

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