*André Heidrich Rodeghiero
Por décadas, quando imaginávamos um veículo autônomo, a imagem parecia pertencer ao futuro: ônibus circulando sozinhos e caminhões cruzando rodovias sem ninguém na cabine. Mas talvez o erro esteja em esperar pelo “veículo totalmente autônomo”. A direção autônoma não está chegando de uma vez. Ela avança por etapas, em rotas específicas e ambientes nos quais a tecnologia consegue reduzir a incerteza.
A ISO ajuda a colocar ordem nessa conversa. A classificação ISO/SAE divide a automação em seis níveis, do 0, sem automação, ao 5, em que o veículo poderia dirigir sozinho em qualquer condição. Hoje, porém, não existe um verdadeiro veículo nível 5 capaz de enfrentar qualquer estrada, clima e situação. O avanço mais concreto está no nível 4: alta automação dentro de um domínio operacional previamente definido, o chamado ODD — Operational Design Domain. Antes de ensinar o veículo a dirigir “em qualquer lugar”, a indústria está ensinando-o a dirigir muito bem em alguns lugares.
É isso que torna os ônibus um dos laboratórios mais interessantes dessa transformação. No Brasil, a Lume Robotics, em parceria com a VIX Logística, do Grupo Águia Branca, desenvolveu um ônibus autônomo para transporte interno de pessoas na ArcelorMittal Tubarão, no Espírito Santo. O ambiente é previamente mapeado e o veículo identifica obstáculos estáticos e dinâmicos sem intervenção humana. O caso mostra que essa tecnologia não está restrita à Califórnia ou à China: existe desenvolvimento brasileiro acontecendo agora.
Fora daqui o avanço já chega ao transporte público. Em Singapura, a WeRide colocou seu Robobus em operação sem agente de segurança a bordo no Resorts World Sentosa. Em 2026, a empresa e a Grab, também, iniciaram uma operação pública em Punggol. Na Europa, a Karsan desenvolveu o e-ATAK autônomo, um ônibus elétrico nível 4 testado em operações reais, inclusive em Paris.
Mas, talvez seja no transporte de cargas que a mudança avance ainda mais rápido. Caminhões percorrem longas distâncias e operam muitas horas. Nos Estados Unidos, a Aurora já opera caminhões sem ninguém no banco do motorista e entrou em fase de expansão comercial. Na Europa, a Scania testa caminhões autônomos em estradas abertas na Suécia dentro do conceito hub-to-hub: ligar centros logísticos por rotas conhecidas, com possibilidade de operação contínua.
Essa lógica talvez antecipe o que veremos no transporte de passageiros. O primeiro ônibus autônomo rodoviário não precisará “entender o Brasil inteiro”. Ele poderá começar entendendo perfeitamente um corredor: aeroporto–rodoviária, cidade–aeroporto, terminal–terminal ou um trecho altamente mapeado. Aos poucos, esses corredores podem se conectar.
E aqui está o ponto mais interessante: direção autônoma não significa simplesmente retirar o motorista. Significa transformar o veículo em uma plataforma tecnológica. Câmeras, radares e LiDAR percebem o ambiente; algoritmos processam os dados; inteligência artificial reconhece padrões; mapas e conectividade ajudam a posicionar o veículo; e sistemas redundantes precisam reagir quando algo foge do previsto. A ISO já possui normas específicas para segurança, testes e validação de sistemas automatizados aplicáveis também a caminhões e ônibus.
Talvez, portanto, a pergunta não seja mais se teremos ônibus e caminhões autônomos. Eles já existem e já transportam pessoas e cargas. A pergunta é outra: em quais rotas essa tecnologia será economicamente viável, sendo reguladas e operacionalmente mais segura que o modelo atual?
Quando encontrarmos essas primeiras rotas, a próxima parada talvez já não tenha ninguém segurando o volante.
Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte















0 comentários