*André Heidrich Rodeghiero
Estou desde a semana passada no Chile e uma iniciativa chamou minha atenção: conectar o Aeroporto de Santiago diretamente a cidades de outras regiões por ônibus. A proposta foi bem recebida por usuários, e empresários também sinalizaram positivamente. Esse encontro de interesses merece espaço na nossa discussão sobre inovação no transporte rodoviário.
A lógica é simples. Quem desembarca de um voo e ainda precisa chegar a outra cidade quer continuar a viagem com o mínimo de esforço. Ter de sair do aeroporto, buscar transporte até uma rodoviária e comprar outra passagem acrescenta etapas, custos e incertezas. Para quem está com malas, crianças ou chega em um horário pouco conveniente, cada conexão pesa.
Segundo a Meganoticias, a concessionária Nuevo Pudahuel abriu um processo para selecionar operadores de serviços diretos entre o aeroporto e localidades em um raio de até 300 quilômetros. Valparaíso, Viña del Mar, Rancagua, Quillota, San Felipe e Los Andes estão entre os destinos considerados. A operação poderá começar em março de 2027; as rotas ainda dependem das propostas e do resultado do processo.
O interesse empresarial ajuda a dimensionar a oportunidade: mais de dez operadores já demonstraram interesse, segundo a concessionária. Isso não significa participação ou operação confirmada, mas sinaliza atenção a uma demanda que pode gerar novos negócios. A notícia também ressalta que algumas empresas aguardam os detalhes do concurso antes de decidir.
Para mim, o ponto mais interessante é o que essa conexão representa. O ônibus pode ampliar o alcance de um aeroporto, levando passageiros a cidades que não recebem aquele voo. E o avião pode alimentar novas rotas rodoviárias. Há espaço para complementaridade, desde que o serviço seja pensado a partir do percurso completo do viajante.
Nós, do setor, costumamos organizar a oferta por modalidade: passagem aérea de um lado, rodoviária de outro, traslado em uma terceira contratação. O passageiro organiza sua necessidade pelo destino. Ele quer chegar a Viña del Mar, a uma reunião no interior ou à casa da família. A divisão entre os serviços deveria facilitar esse objetivo.

É aí que a inovação pode avançar além da abertura de uma linha. Imagino uma compra que apresente voo e ônibus na mesma jornada, com horários compatíveis, informação clara sobre o embarque e regras compreensíveis para a bagagem. A própria cobertura aponta a possibilidade futura de alianças entre empresas aéreas e terrestres para oferecer passagens integradas.
Esse próximo passo exigiria coordenação. Se o voo atrasar, como o passageiro seguirá viagem? Quanto tempo será necessário entre o desembarque e a saída do ônibus? Quem oferecerá atendimento quando houver um problema? Uma conexão só entrega conveniência quando as responsabilidades estão claras e o planejamento considera situações reais.

Também vejo oportunidades comerciais para as viações: alcançar quem chega pelo aeroporto, construir parcerias de distribuição e oferecer serviços adequados a esse público. Para avaliar a viabilidade, será preciso entender os horários dos voos, a demanda por destino, a frequência necessária e os custos da operação. A receptividade inicial é um sinal promissor; a execução definirá o resultado.
O caso chileno convida o Brasil a olhar com mais atenção para a conexão entre aeroportos e cidades próximas. Onde existe demanda suficiente? Quais deslocamentos poderiam ser simplificados? Como concessionárias, empresas aéreas, viações e plataformas digitais poderiam construir essa oferta juntas?
Inovar também é aproximar serviços que o passageiro já utiliza, mas precisa conectar sozinho. A iniciativa de Santiago mostra uma oportunidade de transformar essa dificuldade em conveniência para o usuário e em mercado para o empresário.
A próxima parada do transporte rodoviário pode começar justamente onde termina um voo. Estamos preparados para oferecer essa continuidade?
Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

















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