Enquanto no Brasil a propulsão a gás para o transporte coletivo de passageiros não toma impulso, na Argentina esse combustível vem ganhando, cada vez mais, espaço na mobilidade de pessoas e cargas. O país portenho conta com uma expressiva reserva de gás natural, denominada “Vaca Muerta”, fator que tem viabilizado o maior uso comercial em determinados setores da economia.
E quem sabe muito bem aproveitar essa oportunidade é a marca brasileira Agrale, que já tem uma grande participação no segmento do transporte coletivo de Buenos Aires, com quase nove mil chassis fornecidos para o sistema local. Até o final de 2026, 401 chassis com motorização a gás estarão entregues aos seus clientes e agora, uma nova encomenda foi realizada, alcançando 750 unidades. Edson Martins, diretor-comercial e de Marketing da Agrale S/A, disse que o governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires (CABA) estabeleceu que a partir de janeiro de 2027 todos os novos ônibus que circularão na por lá só poderão ser equipados com motor a gás ou elétrico, o que fortalece a tecnologia da marca no transporte local. “Desde 2018 estamos com nosso o chassi a gás no transporte de Buenos Aires, após uma solicitação de desenvolvimento do primeiro ônibus a rodar no transporte público da cidade. Após um longo processo de avaliação e trabalhando para que a evolução fosse contínua, em 2025 fornecemos as primeiras 50 unidades. Posso dizer que nosso produto alcançou um significativo sucesso operacional, resultando nessas novas grandes encomendas desde então”, disse.
O referido chassi é o MT 17.0, dotado do motor Motor Weichai WP7NG270E61, com potência de 265 cv e torque de 2.100 rpm, transmissão automática, suspensão pneumática full air e entrada baixa, configuração padrão utilizada no transporte de Buenos Aires há um bom tempo. A armazenagem do gás se dá por cilindros da Hexagon Agility, do tipo 4, considerado o mais avançado e que proporciona redução de peso do veículo. “Além dessas unidades com motorização traseira, iremos enviar mais 100 chassis com piso alto e motor localizado na dianteira, que serão utilizados em diversas frentes. Esses chassis serão enviados de nossa unidade localizada em Caxias do Sul, enquanto que o outro modelo é produzido em nossa planta que é localizada na cidade de Mercedes, localizada na Província de Buenos Aires”, destacou Martins.
De acordo com o executivo, a operação de ônibus a gás natural na Argentina se torna competitiva em virtude do baixo preço do combustível, o que estimula a maior presença comercial dessa tecnologia. “A viabilidade econômica tem sido um ponto favorável que impulsiona esse mercado no país vizinho. O custo do metro cúbico gás de Vaca Muerta é o diferencial que chama a atenção dos operadores ao investirem na renovação da frota com ônibus movidos por esse combustível”, explicou Martins.
Neste momento, o custo do metro cúbico do gás natural na Argentina é de R$ 2,40, sendo que para frotistas, esse valor tende a ser ainda menor, de 20% a 30%, tudo dependendo do volume contratado.

Em Buenos Aires, o gás natural tem grande valia, seja na descarbonização ou na viabilidade econômica
Se a Argentina tem investido no gás em seu processo de descarbonização e otimização operacional, qual é o panorama brasileiro nesse contexto? O diretor da Agrale disse que a massificação do uso do gás necessita do entendimento das distribuidoras em ganhar no volume disponibilizado e não na unidade. “Tenho visto o mercado se mobilizar para reduzir o valor do metro cúbico para incentivar a maior escala comercial. Isso tem sido um diferencial positivo para que possamos ter mais ônibus a gás em operação. Além disso, com a redução do preço do gás o ganho ao frotista em rentabilidade será visível em relação ao diesel. Lembrando que o diesel vem sofrendo interferências externas que acabam atuando negativamente em seu preço, fazendo com que o operador fique prejudicado. Com o gás, pode-se ter contratos mais seguros, previsíveis, que permitam conhecer o valor e reajustes a cada período pré-determinado. Nisso, o transportador poderá se planejar nesse contexto”, afirmou.
Martins se diz otimista quanto ao assunto no mercado brasileiro. Na Lat.Bus 2026, a Agrale esteve presente junto ao estande da Allison Transmissions, onde pode receber um público interessado pelo tema. “Recebemos muita gente em nosso estande no qual pudemos mostrar todo o nosso trabalho quanto a tecnologia que desenvolvemos. Acredito que haverá, a partir de 2027, o início do processo de massificação do uso do gás no transporte pesado nacional, pois tem maior viabilidade em termos logísticos e é mais econômico para todos os envolvidos que a opção pelos elétricos na descarbonização do transporte brasileiro de cargas e passageiros”, concluiu.

O maior operador do transporte coletivo da Argentina, o Grupo DOTA S/A, atua em dezenas de linhas na Região Metropolitana de Buenos Aires (AMBA). O grupo é proprietário da Megacar (representante da marca brasileira Agrale na Argentina) e controla a fabricante de carroçarias TodoBus, o que lhe permite gerenciar boa parte da própria frota. Tem mais de 4.500 chassis da marca em sua frota.
Recentemente, adquiriram a Carrocería La Favorita S.A., uma tradicional e histórica fabricante argentina de carroçarias para ônibus urbanos, fundada oficialmente em janeiro de 1985.
Imagens – Divulgação

















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