Estamos dispostos a alcançar o ônibus de qualidade?

Considerada a pergunta do milhão, o título deste texto destaca um painel realizado durante o Seminário Nacional da NTU, 2026, quanto ao transporte coletivo urbano operar veículos de qualidade em meio ao desastroso momento em que vive o modal

Dentre os quesitos e as considerações que envolvem a operação dos ônibus urbanos, a rapidez, a acessibilidade e a qualidade tecnológica são fatores fundamentais que determinam o sucesso na mobilidade coletiva. Contudo, a verdadeira qualidade do veículo não está apenas naquilo que o passageiro encontra dentre sua configuração, mas, principalmente, nas fases que acontecem antes, durante e depois da viagem.

No Seminário da NTU 2026, o painel “O ônibus que o Brasil quer em 2030: confortável, limpo e tecnológico – e o financiamento que tornará isso realidade”, abordou a qualidade tecnológica e outras deferências que tanto impactam a otimização do modal. Hoje, a evolução do ônibus urbano deixou de ser um diferencial, pois passou a ser uma necessidade.

Ruben Bisi, presidente da Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, fez uma projeção para o futuro no sentido de um amplo investimento quanto aos pilares fundamentais na concepção, operação e desempenho do veículo. Segundo ele, a acessibilidade, o conforto interno, as tecnologias assistivas e para os passageiros, a descarbonização, o ecodesign, a segurança e as fontes de financiamento são aspectos interligados em sua realidade no cenário urbano. “O setor nacional que produz os ônibus se encontra num momento especial em processos de descarbonização, digitalização, modernização industrial e novos produtos. Não há dúvida que podemos fazer esse ônibus, melhor, de última geração e com todos os atributos positivos. Além disso, estamos discutindo com o Governo Federal o projeto MOVER, que acelera essa transformação ao estabelecer requisitos relacionados a eficiência energética, reciclabilidade, desempenho estrutural, tecnologias assistivas e rastreabilidade da cadeia automotiva”, explicou.

Ruben Bisi

Porém, o executivo lembrou que para se alcançar isso, os custos não podem ser esquecidos, pois com ônibus cada vez mais modernos, há um aumento em seu preço e em sua valorização tecnológica. “Porém, quem paga por isso? O operador, por meio apenas da tarifa, não investe, pois não tem como arcar com isso. Dentre os muitos desafios, a redução do número de passageiros transportados e as restrições orçamentárias se destacam como pontos negativos que impactam negativamente na ideia do melhor ônibus”, lembrou Bisi.

Ele destacou que linhas de crédito do BNDES, Fundo Clima, o novo PAC, os financiamentos vindos de bancos regionais, créditos de carbono, financiamento baseado no bom desempenho e incentivos tributários podem ser recursos adequados para promover o ônibus do futuro. “As novas tecnologias aumentam o investimento inicial; a necessidade pela infraestrutura; a capacitação técnica; o capital de giro. Sem financiamento adequado a renovação desacelera; a idade média da frota aumenta; e os ganhos ambientais demoram a chegar. Por isso necessitamos de financiamento específico”, afirmou. “O ônibus de 2030 não será definido apenas pelo tipo de motor. Será definido pela capacidade do Brasil de integrar inovação, sustentabilidade, segurança, conforto e financiamento em uma política pública consistente”, salientou.

Niege Chaves

Niege Chaves, vice-presidente do Grupo MobiBrasil, participante do painel, destacou que não existe a qualidade aos cidadãos urbanos se o não houver financiamento ao transporte público. “A mobilidade urbana está atrelada ao desenvolvimento das cidades. Temos que pensar num patamar diferente em termos de transporte coletivo. Estamos vivendo um significativo avanço tecnológico, mas em termos de operação, ainda temos muito a melhorar para recuperar nossos clientes, que estão deixando de usar os ônibus. Políticas públicas equivocadas levaram os serviços de ônibus à uma situação insustentável, fazendo com que a competitividade esteja aquém perante outros modais de transporte que ganharam relevância nos últimos tempos”, disse.

Cristina Albuquerque, CEO da Vecta Mobilidade, concorda com o avanço das técnicas construtivas do veículo e das inúmeras possibilidades conceituais. Mas, ela focou na visão estrutural das cidades, em como promover políticas públicas ligadas ao transporte e na regulamentação dos modais no sentido de haver um equilíbrio da oferta e do modelo de deslocamento das pessoas. “O incentivo aos automóveis, ao transporte por aplicativos e a desvalorização ao transporte coletivo tem sido a tônica nesse processo de mobilidade urbana. Como daremos previsibilidade ao passageiro se não conseguimos priorizar o transporte coletivo? Precisamos alinhar a modernização veicular com a otimização operacional, permitindo que o ônibus possa ser atrativo nas viagens e em termos financeiros”, observou.

Cristina Albuquerque

Dimas Barreira, diretor-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Ceará, concorda com o que foi falado acima e que o tema, tão debatido, atinge na maioria à convertidos ao transporte e que a sociedade, ainda, fica alheia ao que acontece no setor. “Vou ser mais enfático ao dizer que pelo lado social, o transporte coletivo é uma solução mundial com um alcance maior do que comunicamos. Além de ser um direito que dá acesso aos outros direitos das pessoas, ele é um agente de mobilidade social, para que as pessoas escapem da pobreza em direção à oferta de oportunidades de trabalho, estudo, cultura etc. Porém, ao não vermos tratamento especial à mobilidade urbana, estamos presenciando a diminuição da oferta de transporte coletivo, algo que desestimula o seu uso”, disse.

Segundo ele, os acessórios e componentes inovadores que podem modernizar o ônibus são complementares à aquela demanda que tanto faz falta na mobilidade das pessoas – a previsibilidade aliada a disponibilidade de serviços para que as pessoas possam chegar aos seus destinos. “Quando falamos em qualidade, é essencial ter ônibus moderno, oferta adequada de serviços frequentes e tarifas módicas, para todos. Reduzir frota e manter a mesma com alta idade média não traz benefício algum a quem mais precisa se locomover. Fortaleza tinha uma frota, em 2015, com idade média abaixo de 4 anos. Hoje, estamos atingindo 9 anos, com 1.200 ônibus, lembrando que há 11 anos tínhamos cerca de 1.900 ônibus operando. Precisamos garantir esse essencial, pois sem ela só vamos perfumar peixe podre”, afirmou Dimas.

Dimas Barreira

Todos concordam em afirmar que o transporte coletivo realizado pelo ônibus só será eficiente se houver prioridade ao mesmo, por meio de sistemas que corroborem com a fluidez do tráfego e com a acessibilidade de todos. “A gestão pública é a responsável por implantar condições específicas para a qualificação dos ônibus e de seus serviços. Temos que ter investimentos em infraestrutura que deem ao modal a velocidade, previsibilidade e que faça com que os passageiros fiquem o menos tempo possível esperando seu transporte. Sou otimista quanto a alcançarmos uma cidade planejada, mas sempre com o apoio dos governos”, concluiu Niege.

Nota deste editor – O ônibus pode ser melhorado em suas diversas configurações para continuar sendo um dos principais instrumentos de mobilidade sustentável nas cidades. Contudo, ele não pode ser visto, apenas, como um veículo que transporta as pessoas. Ele precisa reafirmar seu papel como serviço público essencial, cuja qualidade deve ser planejada, medida e entregue ao passageiro.

Não é apenas se é possível alcançar qualidade no ônibus urbano, mas se estamos dispostos a criar as condições para que ela aconteça. Governos, em suas diversas esferas, precisam encarar o modal como instrumento de política de Estado e não provisória, de quatro anos. Sem isso, continuaremos na mesma situação.

Imagens – Divulgação

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