Próxima Parada: A América Latina, também, se conecta por terra

Não basta o ônibus atravessar a fronteira. A passagem, o pagamento, as regras e a experiência do passageiro também precisam atravessá-la

*André Heidrich Rodeghiero

Quando pensamos em integração latino-americana, quase sempre olhamos para os aeroportos. Novas rotas, companhias low cost e promoções internacionais parecem ser o símbolo mais visível de uma região cada vez mais conectada. Mas os acontecimentos das últimas semanas mostram que talvez exista outra rede ganhando importância: a rodoviária.

A Flybondi, companhia aérea argentina de baixo custo, teve a comercialização de passagens limitada no Brasil pela Anac. Depois de cancelar 79% dos voos registrados entre 1º e 27 de julho, a empresa teve suspensa também a venda de novos bilhetes entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro, última rota que ainda podia comercializar no país. Mais do que uma questão da aviação, o episódio mostra como operar internacionalmente exige regularidade, atendimento e capacidade de cumprir as regras de cada mercado.

Quase simultaneamente, no transporte rodoviário, vimos um movimento na direção oposta. Em julho, a Viação Garcia concretizou a aquisição da JBL Internacional e, pela primeira vez em sua história, entrou na operação internacional. Com isso, ligações entre cidades brasileiras e destinos como Buenos Aires e Santiago passaram a integrar o universo de uma das mais tradicionais empresas rodoviárias brasileiras.

E o momento não poderia ser mais simbólico. Em 14 de agosto, a ANTT aprovou a Resolução nº 6.087, novo marco regulatório do transporte rodoviário internacional de passageiros. A norma reorganiza as regras aplicáveis às operações internacionais e reforça a relação com o ATIT, acordo que reúne Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. Nos casos de conflito, os acordos internacionais continuam prevalecendo sobre a regulamentação nacional.

Talvez estejamos, portanto, diante de uma oportunidade maior do que simplesmente abrir novas linhas. Fazer um ônibus atravessar uma fronteira é relativamente fácil de visualizar. Mais difícil é fazer a passagem atravessar essa mesma fronteira comercialmente.

Um brasileiro deveria conseguir encontrar, comparar e comprar uma viagem operada na Argentina ou no Chile com a mesma facilidade com que compra Curitiba–São Paulo. Um argentino deveria conseguir comprar São Paulo–Buenos Aires utilizando uma plataforma, moeda, documentação e forma de pagamento que façam sentido para ele.

É justamente aí que a distribuição cross-border ganha importância.

Plataformas como Busbud já comercializam hoje viagens entre São Paulo e Buenos Aires, inclusive serviços da JBL, apresentando opções de diferentes operadores em uma mesma pesquisa. A Plataforma 10 conecta mais de 10 mil destinos entre Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai e oferece vendas internacionais entre esses mercados.

Em outra camada dessa cadeia estão empresas como a Distribusion, que conectam operadores de transporte terrestre a grandes canais globais de distribuição e varejistas online. É a lógica que a aviação conhece há décadas: o inventário deixa de pertencer exclusivamente ao canal próprio da transportadora e passa a estar disponível onde o passageiro deseja comprar.

Mas, cross-border não significa apenas colocar uma API no ar. Cada mercado possui documentos aceitos, moedas, meios de pagamento, regras para cancelamentos, atendimento ao consumidor e particularidades regulatórias. A própria Plataforma 10, por exemplo, adapta pagamentos e dados do passageiro ao mercado brasileiro, enquanto sua operação argentina trabalha com práticas e meios locais.

Esse talvez seja o próximo grande passo do transporte rodoviário latino-americano: deixar de pensar somente em linhas internacionais e começar a pensar em uma verdadeira rede internacional de mobilidade.

A aviação aprendeu há décadas a vender primeiro o destino. O passageiro procura Buenos Aires, Santiago ou Lima e, depois, decide companhia, horário e preço. O ônibus ainda tem enorme espaço para avançar nessa mesma lógica.

Com operadores brasileiros cruzando novas fronteiras, um marco regulatório sendo atualizado e plataformas capazes de distribuir inventário entre diferentes países, as peças começam a se encaixar.

A América Latina já tem as estradas. A próxima parada é fazer com que empresas, regras, pagamentos e canais de venda também consigam atravessar as fronteiras.

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

Imagens – Acervo pessoal

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