Não é tão comum vermos ônibus urbano com transmissão automática pelas cidades brasileiras. A tecnologia, ainda, não ganhou o seu devido espaço, onde o protagonismo da caixa manual é conectado ao custo menor e a tradição operacional do setor de transporte.
Em uma jornada urbana, são inúmeras as acelerações, desacelerações e mudanças manuais de marchas, fatores comuns nos sistemas brasileiros. Porém, ao pensarmos em transmissão automática, há uma grande transformação em conceitos de condução, proporcionando ao motorista maior atenção no trânsito, nos passageiros e nas condições da via.
Se, ainda, é pequena a participação da tecnologia na frota de ônibus no Brasil, algumas iniciativas operacionais mostram uma visão diferenciada em como aproveitar todas as vantagens e facilidades. Jorge Carrer, diretor de vendas de ônibus da Volkswagen Caminhões e Ônibus, observou que no passado esse tipo de transmissão não teve o merecido sucesso e que, com o passar dos anos, com a evolução tecnológica, esse recurso evoluiu muito, fazendo com que a cultura comece a mudar. “Desde 2023 estamos oferecendo em nossos chassis com motorização dianteira a opção da transmissão automática da ZF, PowerLine, com oito marchas e que tem se saído muito bem no mercado em função das suas particularidades. Estamos fazendo um trabalho de formiguinha para colocar essa tecnologia no setor, com bons resultados”, destacou.
Ainda, segundo ele, o interesse pela transmissão tem alcançado novos segmentos, além do transporte urbano, podendo ser vista em serviços de fretamento. “Pela sinergia de negócios com a ZF, nós conseguimos casar atributos positivos, como um custo razoável de aquisição, a robustez necessária para a operação e a economia de combustível. O operador que escolher essa tecnologia irá pagar 4% a mais quando adquirir um novo ônibus. O TCO é muito beneficiado, pois a manutenção é reduzida e o índice médio de economia de combustível chega a 5%, além de diminuir uma situação crítica que é a falta de motoristas, incentivando os mesmos à uma condução mais confortável e segura. Para motoristas mulheres, essa facilidade é comprovada pela inexistência das trocas manuais”, explicou Carrer.
Grandes operadores já estão comprovando as vantagens do uso da transmissão, mostrando que é viável investir na aquisição de veículos com características mais simples, mas que podem contribuir com uma operação otimizada. O Grupo NSO, de São Paulo, com destacada atuação no transporte urbano e em serviços de fretamento, adquiriu três unidades do chassi Volksbus 17.260 para uma avaliação a respeito da tecnologia. Os resultados foram tão bons que na renovação seguinte ele adquiriu outras 100 unidades de chassis equipados com a transmissão automática.

Posto do motorista sem a alavanca das marchas. Evolução operacional com a tecnologia da transmissão automática
O diretor de Manutenção do Grupo NSO, Fernando Marques, disse que para uma decisão final sobre a compra, foi realizada uma análise detalhada antes do investimento, buscando referências práticas e feedbacks de desempenho operacional em outras empresas do setor que já utilizavam esse chassi e tipo de transmissão. “Quando colocamos para operar, o resultado foi imediato, a condução fica muito mais padronizada, sem aquela troca de marcha constante, que acaba forçando o motor no anda-e-para do trânsito, o consumo fica mais regular e a fadiga do motorista cai muito ao longo do dia”, explicou.
Quanto ao conforto ao motorista e passageiros, o recurso é um ponto positivo conquistado, ainda mais num ambiente desafiador que é a operação urbana. Segundo Marques, para o motorista, essa mudança é um divisor de águas na rotina de trabalho, pois além da saúde e ergonomia, tem o fator segurança viária, sem ter que se preocupar em trocar marcha o tempo todo. “O motorista foca totalmente na sinalização, nos retrovisores, na movimentação de pedestres, ciclistas e no embarque/desembarque de passageiros, o que ajuda a prevenir incidentes no trânsito. Já para a manutenção, a eletrônica garante trocas na rotação perfeita sem trancos, protegendo todo o trem de força. Eliminamos também a quebra ou desgaste precoce do kit de embreagem, o que significa menos ônibus parado na oficina, maior previsibilidade no consumo de combustível e uma operação mais rentável”, ressaltou.
Na visão do diretor do Grupo NSO, o trânsito das grandes cidades ficou muito mais severo, e o câmbio manual gera mais desgaste físico ao motorista e um custo alto de manutenção para empresa. “Além disso, hoje a busca por ergonomia e qualidade de trabalho é prioridade para reter bons profissionais. Em uma das empresas do Grupo NSO que temos a frota 100% automática, já está consolidado a tecnologia com nossos motoristas, um caminho sem volta”, revelou.
Perguntado sobre a tecnologia da transmissão automática ser um caminho sem volta, Marques salientou que sim, pois a medida que os veículos avançam em conectividade, inteligência de frota e descarbonização, o controle eletrônico do trem de força passa a ser indispensável para maximizar a eficiência, a segurança e a sustentabilidade do transporte público. “Para a operação do Grupo NSO e do setor de mobilidade urbana em grandes metrópoles, a automação da transmissão é amplamente considerada um caminho sem volta”, concluiu.
No Paraná, a empresa de fretamento, Rimatur Transportes, está satisfeita com o uso e a operação de ônibus com a referida transmissão. São 47 ônibus (37 em operação e 10 em produção) com chassis Volksbus 17.230 dotados da tecnologia, além da suspensão pneumática, para o favorecimento em termos de conforto nos serviços realizados.
Emerson Imbronizio, diretor da Rimatur Transportes, avaliou positivamente o uso da transmissão automática e seus benefícios ao proporcionar uma condução mais confortável e segura. “Dos 37 ônibus automáticos que temos na frota, todos são bem disputados pelos motoristas que optam pela tecnologia. É um fator determinante para que a jornada de trabalho seja melhor e para a retenção do profissional em nosso quadro, num momento de dificuldades quanto a termos motoristas disponíveis”, afirmou.

A Rimatur investiu em novos ônibus e no processo de modernização de sua frota por meio da tecnologia que favorece a condução mais confortável
Sobre o consumo, o operador disse que a média de cada veículo com a transmissão automática é semelhante ao do ônibus com a caixa manual. “Contudo, conseguimos reduzir o custo de manutenção, pois a tecnologia não conta com alguns componentes presentes na caixa manual, como a embreagem, por exemplo”, explicou Imbronizio.
Na visão do empresário, existe uma tendência da frota da Rimatur ser toda equipada com esse modelo de transmissão, no caso dos veículos com motorização dianteira. “Quando decidi experimentar a tecnologia, comprei os primeiros dois ônibus para fazer uma avaliação. Após esse período conseguimos comprovar toda a eficiência, com veículos que ultrapassaram os 200 mil quilômetros sem apresentarem nenhum problema. Eu vejo que a tecnologia tende a estar presente em nossa frota, de forma integral. Nessa mesma linha de raciocínio, já adquiri dois micro-ônibus Volare e duas vans Ford, todos com a transmissão automática”, concluiu Emerson.
O lado do desenvolvimento
A ZF destaca sua transmissão automática PowerLine pelo design robusto e compacto e por não requer hardware externo, o que ajuda a garantir uma integração perfeita. Além disso, ela foi desenvolvida para ajudar a reduzir o consumo de combustível e as emissões de CO₂.
Caio Silva, gerente Sênior da Linha de Produto de Tecnologias de Driveline para Veículos Comerciais da ZF América do Sul, disse que a respectiva transmissão é oriunda de um projeto para os automóveis, com uma evolução que reforça sua aplicação no segmento de veículos semipesados. “A PowerLine tem uma característica positiva que favorece a dirigibilidade, o conforto e a economia de combustível. Ela tem uma configuração com conversor de torque que atua com eficiência no arranque, não sendo mais utilizado depois, fato que proporciona o menor consumo de combustível. É uma caixa idealizada para chassis com 17 ou 18 toneladas de PBT”, disse.
Segundo ele, há boas referências da tecnologia em operações diversas, em serviços urbanos, de fretamento e até mesmo rodoviário. “Já temos mais de mil unidades comercializadas, sendo que a maioria está instalada em ônibus. Nós temos uma parceria muito boa com a Volkswagen, pois a fabricante conhece o know how da marca ZF. Outro detalhe é que a transmissão automática vem para modernizar os ônibus, permitindo eficiência operacional e melhores condições de segurança e de condução. Entendemos as necessidades de mercado quanto ao desempenho da caixa nas diversas aplicações, com ajustes às demandas da operação. Vejo com otimismo o segmento adotando em maior escala esse modelo de transmissão”, finalizou Caio.
Imagens – Divulgação

















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