*Thalita Azevedo
Em novembro de 1973, em plena crise do petróleo, o governo holandês proibiu os carros particulares de circular aos domingos. As fotos da época são curiosas: famílias passeando de bicicleta pela rodovia, crianças de patins onde normalmente passavam caminhões. A medida durou poucas semanas, mas muita gente se lembra dela até hoje como a primeira vez em que viu a cidade sem motor.
A Europa acabou transformando essa lembrança em calendário. Desde 2002, entre 16 e 22 de setembro, acontece a Semana Europeia da Mobilidade, que termina justamente no Dia Sem Carro. Em 2025 foram mais de 2.700 cidades de 46 países. A Espanha costuma puxar a fila: no ano passado inscreveu 410 municípios, quase o dobro da Alemanha, que teve 207. Polônia, Turquia e Itália vieram logo depois, e Riga, na Letônia, levou o prêmio da edição.
O que chama atenção é que, por lá, a data raramente fica isolada. As cidades aproveitam a semana para testar coisas que pretendem manter, como fechar uma rua ao trânsito, abrir uma ciclofaixa provisória ou liberar a tarifa do transporte público. Quando dá certo, fica. O dia sem carro funciona quase como um ensaio.
Por aqui, a data passa despercebida
No Brasil o 22 de setembro, também, existe, mas pouca gente fica sabendo. E não é porque o problema seja pequeno. A cidade de São Paulo chegou a 10 milhões de veículos registrados neste ano, e a frota do país já passa de 120 milhões.
Tenho alguns palpites sobre por que a ideia não pega. O carro ainda carrega um peso simbólico enorme, de conquista e de segurança, e pedir para alguém deixá-lo na garagem soa quase como pedir que abra mão disso. Nossas cidades também cresceram espalhadas, com muita gente morando longe do trabalho, o que deixa o trajeto de ônibus longo e cansativo. Some a isso uma política que historicamente facilitou a compra de carro (o programa de descontos de 2023 é o exemplo mais recente) e o resultado fica fácil de prever. Sem uma alternativa boa, o convite para deixar o carro em casa por um dia não convence muita gente.

Uma vantagem que quase ninguém comenta
Um dado me surpreendeu quando fui pesquisar: um ônibus elétrico rodando no Brasil tende a ser mais limpo do que o mesmo modelo rodando em boa parte da Europa. O motivo está na tomada. O elétrico não emite CO₂ pelo escapamento, mas a energia que carrega a bateria vem de algum lugar, e aqui 86,8% da eletricidade gerada em 2025 veio de fontes renováveis, segundo o Balanço Energético Nacional da EPE. Em vários países europeus, carvão e gás ainda pesam bastante nessa conta.
São Paulo já está aproveitando isso. A capital tem hoje 1.759 ônibus elétricos, a maior frota do país. Fiz uma conta rápida para ter noção do tamanho da troca: um ônibus urbano a diesel que roda uns 70 mil quilômetros por ano gasta perto de 35 mil litros de combustível, o que equivale a algo em torno de 90 toneladas de CO₂. No elétrico, a emissão pelo escapamento é zero.
E o fretamento?
Quando se fala em mobilidade urbana, o fretamento costuma ficar de fora da conversa, o que é uma pena. Um ônibus fretado levando funcionários de casa para o trabalho pode substituir algo como 40 carros na mesma rota. Para quem está dentro dele, a mudança é pequena: em vez de dirigir no trânsito, a pessoa vai sentada, lendo, cochilando ou respondendo mensagens. Para a cidade, são dezenas de carros a menos no horário de pico. Se esse ônibus for elétrico, melhor ainda.
Para as empresas, também é uma forma concreta de reduzir as próprias emissões, bem mais palpável do que muita meta que aparece só no relatório anual.
Não acho que o Brasil precise copiar o modelo europeu ao pé da letra. Talvez, faça mais sentido pensar em como tornar o ônibus, público ou fretado, uma escolha atraente nos outros 364 dias do ano. O Dia Sem Carro serve para lembrar do assunto. A pergunta que fica é: o que acontece no dia 23?
Imagens – Acervo pessoal
Fontes
European Mobility Week, página da campanha (mobilityweek.eu): participação de 2025.
The International (theinternational.si), setembro de 2025: número de cidades por país.
Eurocities, março de 2026: Riga vence o prêmio European Mobility Week.
Prefeitura de São Paulo, setembro de 2026: frota de 1.759 ônibus elétricos.
Folha de S.Paulo, setembro de 2026: São Paulo atinge 10 milhões de veículos.
EPE, Balanço Energético Nacional 2026 (ano-base 2025): 86,8% de renováveis na matriz elétrica.
AutoData, fevereiro de 2025: frota brasileira de 123,9 milhões de veículos.
Estimativa de emissões do ônibus a diesel: cálculo próprio, com fator de 2,68 kg de CO₂ por litro.

*Thalita Azevedo é profissional do setor de mobilidade e atua no segmento de transporte de passageiros. Seu interesse pelo tema vai além da atividade profissional: como hobby, dedica-se a observar, estudar e compreender como funcionam os sistemas de mobilidade no Brasil e no mundo, acompanhando tendências, inovações e transformações no transporte coletivo















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