*André Heidrich Rodeghiero
Nesta semana, enquanto pesquisava sobre o futuro dos ônibus — suas cores, suas formas e o quanto o próprio design também pode ser inovação — acabei voltando quase 70 anos no tempo. A inspiração veio ao observar alguns conceitos ferroviários apresentados na InnoTrans, com linhas mais limpas, grandes áreas envidraçadas e uma tentativa evidente de fazer o transporte coletivo parecer, de fato, um produto do futuro.
Foi aí que encontrei o Viberti Golden Dolphin. Apresentado em 1956, no Salão de Genebra, o ônibus-conceito da italiana Viberti parece ter sido desenhado muito mais para 2056 do que para a Europa do pós-guerra.
A carroceria, extremamente aerodinâmica, utilizava materiais leves, grandes superfícies transparentes e janelas laterais com aproximadamente seis metros. O motorista ficava em posição central, diante de um enorme para-brisa panorâmico. Ainda hoje, olhando suas fotografias, é difícil acreditar que aquele projeto tenha quase sete décadas.
Mas, talvez a parte mais interessante estivesse dentro dele. A configuração mais luxuosa previa apenas 18 passageiros distribuídos em três fileiras de poltronas individuais. Em outras palavras: três poltronas lado a lado, separadas por dois corredores. E não eram simplesmente assentos individuais. Uma publicação técnica de 1956 descrevia poltronas ajustáveis e giratórias, com apoio para os pés, luz individual de leitura, mesa removível e até botão para chamar a tripulação.
Havia ainda cintos de segurança – inovação para a época -, ventilação individual e entretenimento – que era um rádio individual -. Na parte traseira, o Golden Dolphin contava com refrigerador, bar e estrutura para servir refeições durante a viagem. Para 1956, era praticamente uma cabine de primeira classe sobre rodas.
A ousadia também estava na mecânica. A Viberti projetou o veículo para receber uma turbina a gás Fiat de aproximadamente 400 cv e divulgava uma velocidade próxima dos 200 km/h. Existe, porém, uma ressalva histórica interessante: a revista Commercial Motor, em abril de 1956, registrava que o exemplar apresentado ainda não possuía essa motorização instalada e que a turbina estava prevista para o projeto. Mais do que um produto pronto para entrar na estrada, portanto, o Golden Dolphin era uma declaração de como a Viberti imaginava o futuro das viagens.

E é justamente nesse ponto que uma história de 1956 fica curiosamente próxima do transporte rodoviário brasileiro.
Em 2020, a Viação Ouro e Prata, em parceria com a Marcopolo, colocou em operação um ônibus Biosafe com uma configuração pouco convencional: três fileiras de poltronas individuais e dois corredores. Eram apenas 33 lugares e nenhum passageiro precisava dividir sua fileira com outra pessoa. O projeto surgiu durante a pandemia e tinha o distanciamento como uma de suas premissas, além de soluções de higienização por UV-C. Porém, retirado daquele contexto sanitário, havia ali outro atributo extremamente relevante para uma viagem rodoviária: privacidade.
Quase 65 anos separavam os dois ônibus, mas a disposição interna fazia praticamente a mesma provocação. Durante décadas, grande parte do desenvolvimento do ônibus rodoviário partiu de uma pergunta essencialmente econômica: quantos passageiros conseguimos transportar oferecendo determinado nível de conforto?

O Golden Dolphin inverteu essa lógica: se quiséssemos oferecer a melhor experiência possível, como desenharíamos o ônibus? Talvez, seja justamente essa a parte mais moderna daquele projeto. Não são os 200 km/h ou a turbina a gás. É a liberdade de questionar um formato que parecia estabelecido.
Poltronas individuais. Dois corredores. Visão panorâmica. Serviço de bordo. Espaço. Privacidade. E um desenho exterior pensado não apenas para transportar pessoas, mas também para despertar desejo.
O Golden Dolphin nunca chegou à produção em série. A Viberti chegou a estudar uma versão de 32 lugares, mas foi a configuração experimental de 18 passageiros que entrou para a história.
Talvez tenha sido caro demais. Talvez ousado demais. Ou simplesmente cedo demais. Mas, quase 70 anos depois, ele deixa uma pergunta interessante para o nosso setor: quando imaginamos o ônibus do futuro, estamos realmente criando algo novo — ou ainda tentando alcançar algumas das ideias que o Golden Dolphin já colocava diante de nós em 1956?
Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte
















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