Preservar a história e construir o futuro: o desafio das empresas familiares do transporte

Como uma empresa que construiu décadas de resultados pode preservar o que a tornou bem-sucedida e, ao mesmo tempo, questionar práticas que talvez já não respondam às exigências do cliente?

Por Luana Fleck, diretora da Viação Ouro e Prata

Esse é um dos paradoxos das empresas familiares. A história reúne conhecimento, confiança, identidade e relações construídas ao longo de gerações. Mas a continuidade do negócio depende também da capacidade de rever formas de gestão e de tomada de decisões, o uso de novas tecnologias e ao mesmo tempo se adaptar às mudanças que não param de acontecer.

No setor de transporte, essa discussão ganha uma dimensão particular. Além das transformações tecnológicas, as empresas convivem com exigências de regulamentação, aumento nos custos operacionais, de segurança, exigências dos clientes e novas formas de mobilidade e logística.

Essa realidade, também, aparece nos dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT). Na pesquisa sobre o transporte rodoviário interestadual de passageiros, divulgada em 2024, 93,3% das empresas pesquisadas tinham gestão familiar. Entre elas, 73,8% eram conduzidas pela segunda ou terceira geração.

Esse dado mostra que a continuidade entre gerações não é uma questão distante da realidade do setor. E traz uma pergunta que vai além da sucessão de cargos: como transmitir o conhecimento acumulado sem transformar a experiência do passado em resistência à mudança?

Uma trajetória bem-sucedida costuma consolidar práticas, processos e decisões que fizeram sentido em determinado momento da vida da empresa. Ao mesmo tempo, novas tecnologias, expectativas de clientes, formas de trabalho e condições de mercado exigem revisões constantes.

A inovação, nesse cenário, não precisa representar uma ruptura com a história. Pode significar justamente encontrar novas maneiras de sustentar os valores que sempre orientaram a empresa. O desafio está em distinguir o que faz parte da essência do negócio e valores da família acionista, daquilo que pode, e muitas vezes precisa, evoluir.

Em empresas familiares, as relações pessoais e as responsabilidades empresariais frequentemente se encontram. Por isso, a continuidade exige mais do que a escolha de quem ocupará uma posição de liderança. Exige clareza sobre papéis, na família, na empresa e na sociedade para criar critérios para a tomada de decisões e estabelecer espaços para que diferentes gerações possam contribuir.

A profissionalização não significa, necessariamente, afastar a família da gestão. Mas, sim estabelecer processos, atividades e responsabilidades, além de mecanismos que permitam a organização funcionar com consistência, independentemente de quem esteja à frente. Isso envolve governança, formação de lideranças, acompanhamento de performance e disposição para discutir temas difíceis antes que se tornem urgentes.

Fonte: Pesquisa CNT Perfil Empresarial, Transporte Rodoviário Interestadual de Passageiros (divulgada em 2024): https://diariodotransporte.com.br/2024/12/03/mais-de-93-das-empresas-de-transporte-rodoviario-interestadual-de-passageiros-tem-gestao-familiar-aponta-estudo-da-cnt/

Para quem tiver interesse em uma reflexão complementar sobre prioridades e escolhas, o e-book Jornada da Vida em Equilíbrio está disponível em: https://drive.google.com/file/d/1uYLJ5UEYpkAREbnDZ0BHaL6eDQ6El_FN/view

Imagens – Divulgação

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *