*André Heidrich Rodeghiero
O SEST SENAT Summit 2026 mostrou a força de uma curadoria capaz de conectar o transporte às grandes transformações dos negócios. O trabalho conjunto do SEST SENAT e da HSM reuniu estratégia, liderança, tecnologia, inteligência artificial e novos modelos de gestão, sem perder de vista os desafios de quem opera diariamente um setor essencial para o país. Mais do que uma sequência de palestras, o evento construiu uma narrativa: o futuro do transporte dependerá da capacidade de aprender, adaptar-se e transformar conhecimento em execução.
Entre os destaques esteve Howard Yu, professor de Gestão e Inovação do IMD e líder do Center for Future Readiness. Doutor pela Harvard Business School, Yu estuda como empresas podem atravessar mudanças tecnológicas e continuar competitivas. Sua mensagem parte de uma constatação importante: nenhuma posição de liderança está garantida. Tecnologias podem ser copiadas, produtos superados e modelos de negócio perder relevância. Organizações preparadas para o futuro constroem competências antes que a transformação se torne uma emergência.
Em sua palestra, Howard Yu apresentou três princípios para que as empresas se preparem para o futuro. O último sintetiza uma das maiores oportunidades para o transporte rodoviário de passageiros: “be ridiculously easy to work with” — seja ridiculamente fácil de trabalhar, contratar, acessar e utilizar.
A frase parece simples, mas exige uma transformação profunda. Muitas empresas confundiram digitalização com transferir processos antigos para uma tela. Criaram aplicativos, sites e canais digitais, mas mantiveram cadastros extensos, etapas repetidas, regras pouco claras e sistemas que não conversam entre si. O passageiro não quer perceber a complexidade da operação. Ele quer pesquisar, comprar, alterar, embarcar e receber informações com rapidez e segurança.
Ser ridiculamente fácil significa eliminar atritos em toda a jornada: compra em poucos cliques, pagamento nos meios usados pelo cliente, troca de passagem sem migração de canal, informações em tempo real e um embarque no qual identidade, bilhete e autorização sejam validados de forma integrada. Significa também atendimento que reconheça o histórico do passageiro, pelo aplicativo, WhatsApp, telefone ou guichê.
A tecnologia já está disponível. Inteligência artificial pode prever demanda, apoiar horários extras, personalizar ofertas e responder dúvidas. Biometria pode reduzir conferências repetidas. Sistemas integrados podem reunir vendas, operação, embarque e relacionamento. Dados podem antecipar falhas e permitir comunicação proativa antes que o passageiro precise reclamar.
Mas, inovar não pode significar excluir. Tornar a experiência fácil, também, exige alternativas para idosos, turistas sem CPF, pessoas sem aplicativo, passageiros com deficiência e usuários com pouca familiaridade digital. A melhor transformação não obriga todos a seguir um único caminho: usa tecnologia para ampliar o acesso e simplificar diferentes jornadas.
Essa lógica também vale dentro das empresas. Processos simples reduzem erros, aceleram decisões e liberam motoristas, atendentes e gestores para atividades de maior valor.
O principal aprendizado talvez seja que o futuro não pertencerá à empresa com mais tecnologia, mas àquela que melhor transformar tecnologia em simplicidade. No transporte rodoviário, inovar será manter a complexidade nos bastidores para que, diante do passageiro, tudo funcione de maneira intuitiva, inclusiva e quase invisível. Ser “ridiculamente fácil” pode se tornar uma das maiores vantagens competitivas do setor, e isso tudo só vai acontecer quando juntarmos a tecnologia e um capital humano de qualidade para gerir essa transição.
Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte
















0 comentários