*Ricardo Alexandre Magalhães de Abreu
A proximidade de uma nova licitação para o transporte coletivo de Curitiba tem trazido novamente para o debate público inúmeras opiniões, críticas, acusações e discursos sobre o sistema que, há décadas, faz parte da história da nossa cidade.
Como colaborador do transporte coletivo, há muitos anos, acompanho esse debate com atenção, mas, também, com uma certa indignação. Digo isso em virtude de que algumas pessoas falam sobre o transporte coletivo sem conhecer, verdadeiramente, quem está por trás dele.
É muito fácil resumir toda uma história a discursos simplistas, criar rótulos e repetir frases como se todos os empresários fossem inimigos dos trabalhadores ou como se determinadas famílias que construíram empresas ao longo de décadas fossem simplesmente representantes de um modelo “feudal”, onde os colaboradores seriam tratados como escravos.
Sinceramente, esse tipo de generalização não contribui para um debate sério. Não estou dizendo que empresas são perfeitas. Nenhuma empresa é. Não estou dizendo que não existam problemas ou que não seja necessário evoluir. Pelo contrário: o transporte coletivo precisa evoluir constantemente, incorporar novas tecnologias, melhorar processos e oferecer cada vez mais qualidade para seus passageiros e melhores condições para seus trabalhadores.
Mas evoluir não significa apagar a história. E é justamente nesse ponto que acredito que muitas discussões sobre a nova licitação deixam de considerar um personagem fundamental: o trabalhador do transporte coletivo.
Fala-se muito em audiências públicas. Fala-se em participação popular. Fala-se em transparência. Fala-se em futuro. Mas, eu faço uma pergunta: em algum momento os trabalhadores que construíram diariamente esse sistema foram efetivamente ouvidos como parte fundamental dessa discussão?
Onde estão os operadores, os motoristas, os cobradores, os mecânicos, os eletricistas, os técnicos, os profissionais da limpeza, os administrativos, os supervisores, os gestores e tantos outros trabalhadores que acordam todos os dias para garantir que milhares de ônibus estejam em condições de transportar a população?
O processo de discussão pública da nova concessão contou com audiências e consulta pública, abertas para manifestações e contribuições dos interessados e da população.
Mas, como trabalhador do setor, acredito que existe uma reflexão importante: participação pública não deveria significar apenas abrir espaço para que qualquer pessoa se manifeste. Também, deveria ser uma busca, de forma ativa, por aqueles que têm conhecimento prático e vivem diariamente a realidade do sistema.
Os trabalhadores do transporte coletivo não são meros espectadores dessa história. Eles são parte dela. Aliás, talvez sejam uma das partes mais importantes. É impossível falar do legado do transporte coletivo de Curitiba sem falar das pessoas que, durante décadas, trabalharam para manter esse sistema funcionando.
Quando um ônibus sai da garagem nas primeiras horas da manhã, existe uma enorme cadeia de profissionais que trabalhou antes para que aquilo fosse possível. Assim, há a manutenção, a inspeção, o planejamento, o abastecimento, a limpeza, a operação, a gestão e há a tecnologia. Existe conhecimento acumulado ao longo de décadas e, principalmente, existem pessoas.
Por isso, quando se critica, indiscriminadamente, famílias empresárias que fazem parte da história do transporte coletivo, acredito que também é necessário olhar para outro lado dessa história. Empresas não são construídas apenas por seus proprietários.
Mas, também, não podemos negar que empresas sólidas, quando bem administradas ao longo de décadas, são capazes de gerar oportunidades, empregos, desenvolvimento profissional e estabilidade para milhares de famílias.
Famílias empresárias que atuam há gerações no setor ajudaram a construir empresas que, por sua vez, ajudaram a construir trajetórias profissionais. E essas trajetórias têm nomes.
São pais e mães que criaram seus filhos trabalhando no transporte coletivo. São trabalhadores que compraram suas casas. Que estudaram. Que formaram seus filhos. Que construíram suas carreiras. E que encontraram no transporte coletivo uma oportunidade de crescimento profissional.
Eu sou um exemplo de alguém que construiu uma vida profissional dentro desse setor e sei que existem milhares de histórias semelhantes.
Por isso, quando alguém tenta resumir toda uma realidade a expressões como “famílias feudais” ou quando tenta criar uma imagem de que os trabalhadores são simplesmente explorados como “escravos”, eu acredito que é necessário perguntar: essa pessoa conhece realmente a história de quem trabalha nessas empresas? Conhece as oportunidades de crescimento profissional? Conhece os trabalhadores que começaram em funções operacionais e hoje ocupam posições de liderança? Conhece os profissionais que construíram décadas de carreira dentro dessas organizações? Conhece as famílias que tiveram sua vida transformada pela oportunidade de um emprego digno?
Criticar é legítimo. Fiscalizar é necessário. Questionar é saudável para a democracia. Mas, generalizar é perigoso.
O debate sobre a nova concessão do transporte coletivo de Curitiba precisa ser muito maior do que, simplesmente, escolher mocinhos e vilões. Precisamos discutir tecnologia. Temos que discutir qualidade. Necessitamos discutir sustentabilidade e eletrificação. É preciso entender a experiência do passageiro. É essencial debater custos e eficiência. Temos que falar sobre as condições de trabalho. Precisamos discutir inovação.
E, principalmente, precisamos discutir o futuro sem desrespeitar aqueles que ajudaram a construir o presente. A nova concessão do transporte coletivo de Curitiba representa um momento importante para o futuro da mobilidade da cidade, incluindo mudanças estruturais, integração e investimentos previstos para a modernização e eletrificação da frota.
Mas, não podemos esquecer que nenhum projeto de futuro será bem-sucedido se ignorar o conhecimento acumulado por quem mantém o sistema funcionando todos os dias.
Tecnologia é fundamental. Ônibus elétricos são necessários. Novos modelos de gestão são determinantes. Contudo, no final de tudo, o transporte continuará sendo feito por pessoas.
E, talvez, esteja na hora de essas pessoas deixarem de ser lembradas, apenas, quando algo dá errado e passarem a ser reconhecidas como parte essencial do sucesso que Curitiba construiu ao longo de sua história.
Eu não escrevo estas palavras como representante colaborador de uma família empresária. Escrevo como trabalhador. Como alguém que conhece o transporte coletivo por dentro. Como alguém que acredita na evolução. Como alguém que acredita na inovação. E, como alguém que defende que o sistema precisa melhorar constantemente.
Acredito que não se constrói o futuro destruindo, desqualificando ou apagando a história de quem ajudou a construir o presente. O transporte coletivo de Curitiba não pertence a uma única empresa. Não pertence a uma única família. Não pertence a um único governo.
O maior patrimônio de qualquer sistema de transporte não está apenas nos ônibus, nas garagens ou na tecnologia. Está nas pessoas que fazem tudo isso funcionar, todos os dias.
Imagens – Acervo pessoal e reprodução

*Ricardo Alexandre Magalhães de Abreu é profissional com 30 anos de experiência no setor de transporte urbano, destacando-se na aplicação prática da gestão da qualidade, inovação e no cuidado centrado em pessoas. Atua como gerente de Manutenção na Auto Viação Redentor. É graduado em Engenharia Automotiva (UniSenai/FIEP), Bacharel em Sistemas de Informação e pós-graduado em Gestão da Qualidade (Universidade Positivo) e Gestão de Negócios (Fundação Dom Cabral)















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