*André Heidrich Rodeghiero
A Lat.Bus 2026 deixou uma mensagem clara: o transporte brasileiro já tem as tecnologias necessárias para um novo salto de eficiência, segurança e experiência do passageiro. A questão não é mais se essas soluções chegarão, mas como conectá-las e colocá-las em escala.
Na transição energética, o ônibus elétrico apareceu em diferentes configurações. A Mercedes-Benz apresentou o eCity e iniciou a comercialização do articulado eO500UA. A Scania levou o K 300 elétrico de 15 metros; a Volkswagen ampliou a família e-Volksbus; a Volvo mostrou soluções elétricas e compatíveis com B100; e a BYD apresentou o BC12HF de piso alto. Eletra, Caio e Mascarello ampliaram as alternativas nacionais, enquanto o Volare Attack 10 Híbrido combinou tração elétrica e geração de energia a etanol.
A inovação, porém, não estava apenas na propulsão. No rodoviário, o Marcopolo G8 Tech incorporou aerodinâmica desenvolvida com o ITA, câmera 360 graus, Black Box, monitoramento do motorista e supressão automática de incêndio – inovação que deu um destaque pois soluciona um grande problema do empresário! -. O Torino 2027 trouxe diagnóstico por aplicativo e soluções para reduzir o tempo de oficina. A Irizar, com o novo i6, reforçou a busca por menor peso e consumo. Avanços pouco visíveis ao passageiro, mas decisivos para manter o ônibus disponível e a operação rentável.
Ainda assim, a transformação mais profunda talvez estivesse fora dos veículos. A Goal apresentou o GoalBus, reunindo planejamento de linhas, escalas, veículos, motoristas e recargas elétricas. A Optibus mostrou a otimização de escalas com inteligência artificial, enquanto a Hitachi reforçou o monitoramento em tempo real e a integração multimodal.
No transporte intermunicipal e interestadual, vimos surgir uma nova camada de gestão. O Luna, da Praxio, o Totalbus, da RJ Consultores, o Impetus, apresentado pela Eucatur, a plataforma da estoniana Turnit e o S3, da holandesa Sqills, apontam para empresas orientadas por dados e capazes de integrar inventário, vendas, preços, operação e relacionamento com o passageiro.
Na jornada do cliente, TACOM e Autopass apresentaram biometria facial, Pix embarcado, bilhetagem em nuvem e integração de dados. A Luminator avançou na informação ao passageiro. É impossível não relacionar essas soluções ao que vimos na China. Na estação Shanghai South, documento, bilhete, reconhecimento facial, controle de acesso e embarque formam um fluxo contínuo. A tecnologia está em toda parte, mas quase desaparece da percepção de quem viaja.
Essa talvez seja a maior diferença entre os mercados. Na feira, encontramos excelentes tecnologias distribuídas em diferentes estandes. Na China e em outros mercados asiáticos, elas já funcionam juntas, como parte de uma única jornada.
Também aprendemos que digitalizar não significa necessariamente incluir. Na China, a experiência é fluida para quem possui documento, aplicativos e meios de pagamento locais. Para estrangeiros, idosos e pessoas fora desse ecossistema, a mesma tecnologia pode criar barreiras. O Brasil precisa buscar a eficiência asiática sem esquecer passageiros sem aplicativo, turistas sem CPF, pessoas com deficiência e usuários pouco familiarizados com o digital.
A Lat.Bus mostrou que as peças já estão sobre a mesa: veículos, energia, sistemas, inteligência artificial, biometria e dados. O próximo salto não virá de mais um equipamento isolado, mas da capacidade de integrar fornecedores, qualificar pessoas e transformar tecnologia em uma operação simples para empresas e passageiros.
O futuro do transporte brasileiro chegou aos estandes. A próxima parada é fazê-lo chegar às ruas.

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

















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