Acidentes reforçam alerta sobre transporte irregular na Semana Nacional do Trânsito

Como impedir que o passageiro fique exposto a operações clandestinas e inseguras

*Beatriz Lima

A Semana Nacional do Trânsito, de 18 a 25 de setembro, começou com um alerta que não pode passar despercebido. Em menos de uma semana, dois acidentes graves envolvendo ônibus deixaram mortos e dezenas de feridos e voltaram a colocar em discussão os riscos do transporte irregular de passageiros nas rodovias brasileiras.

Na madrugada do dia 20 passado, um ônibus que saiu de Ipatinga (MG) com destino a Aparecida (SP) caiu em uma ribanceira em Cruzeiro, no interior de São Paulo. Ao menos seis pessoas morreram e cerca de 40 ficaram feridas. As causas do acidente ainda estão sendo apuradas.

Poucos dias antes, na noite de terça-feira (15), outro acidente, na BR 116, no norte de Minas Gerais, matou seis pessoas e deixou dezenas de feridos. O ônibus fazia o trajeto entre São Paulo e a Bahia e, segundo informações divulgadas pela ANTT, não tinha licença de viagem emitida.

Em agosto, um acidente na BR 040, em Petrópolis (RJ), também havia chamado atenção para o problema. O tombamento de um ônibus deixou dez mortos e, segundo a ANTT, a viagem era irregular.

Não se trata de estabelecer, antes da conclusão das investigações, uma relação direta entre a irregularidade e a causa dos acidentes. Mas a sequência de ocorrências em um intervalo tão curto reforça a necessidade de olhar para as condições em que determinadas viagens são realizadas e para a importância de um sistema de transporte submetido a regras, fiscalização e responsabilidades.

O transporte rodoviário regular não é apenas um ônibus que sai de um ponto e chega a outro. Existe uma estrutura por trás de cada viagem. Empresas autorizadas precisam cumprir requisitos relacionados à operação, aos veículos, aos motoristas, à manutenção e à segurança dos passageiros. Há fiscalização e existem responsabilidades definidas para a empresa que presta o serviço.

É essa estrutura que muitas vezes não é percebida por quem está dentro do ônibus. Um veículo pode parecer igual aos demais, estar cheio de passageiros e fazer o mesmo trajeto de uma empresa regular. Para o consumidor, a diferença pode aparecer apenas no preço ou na maneira como a viagem foi contratada. Mas, segurança não é um item que possa ser identificado apenas olhando para o ônibus.

Os números da fiscalização ajudam a mostrar a dimensão do problema. Levantamento da ABRATI, com dados obtidos junto à ANTT, aponta que 3.525 veículos foram autuados em viagens irregulares entre janeiro e julho de 2026. O número já se aproxima das 3.767 autuações registradas em todo o ano de 2025. No mesmo período do ano passado, foram 1.891.

As autuações relacionadas ao transporte irregular representaram 42,1% do total de autos de infração considerados em 2026, contra 25,8% em 2025. O crescimento das ocorrências coloca uma questão importante para o debate sobre segurança nas estradas: como impedir que o passageiro seja exposto a operações que não oferecem as mesmas condições de controle e proteção existentes no transporte regular?

A resposta passa necessariamente pelo fortalecimento da fiscalização, mas também pela valorização de um modelo de transporte em que a segurança faz parte da própria operação. No setor regular, manutenção, qualificação dos profissionais, documentação, acompanhamento da viagem e atendimento ao passageiro não deveriam ser vistos como diferenciais. São parte das condições necessárias para que o serviço seja prestado.

Os acidentes recentes mostram ainda que o problema não termina quando ocorre uma colisão ou um tombamento. Para as famílias das vítimas, começam naquele momento outras dificuldades, relacionadas à assistência, à responsabilização e ao suporte necessário depois da tragédia.

Por isso, a discussão sobre transporte irregular precisa fazer parte da agenda de segurança viária. E a Semana Nacional do Trânsito oferece um momento oportuno para isso.

Segurança no transporte rodoviário não começa quando o motorista liga o ônibus. Começa antes, na escolha de quem está autorizado a realizar aquela viagem, nas condições em que o serviço é prestado e na fiscalização que garante o cumprimento das regras.

Em menos de sete dias, dois acidentes graves voltaram a lembrar que essa discussão não pode ser adiada. Para o passageiro, escolher uma operação regular não é apenas uma questão de preço ou conveniência. É também uma escolha relacionada à segurança.

*Beatriz Lima é jornalista há quase 30 anos no transporte rodoviário. Atualmente, é editora da Revista ABRATI, atuando, também, na comunicação de empresas como a Guanabara e Rodoviária do Rio S/A, Socicam, compartilhando insights sobre mobilidade e comunicação

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