*André Heidrich Rodeghiero
Há poucas semanas, no Chile, chamou minha atenção a proposta de ligar o Aeroporto de Santiago a cidades como Valparaíso, Viña del Mar e Rancagua por ônibus. Na coluna “A próxima conexão do ônibus pode estar no aeroporto”, argumentei que a inovação não estava simplesmente em abrir linhas, mas em eliminar etapas de uma viagem que o passageiro precisa organizar sozinho.
Agora, um estudo internacional ajuda a dimensionar essa oportunidade. Publicado em outubro, o NowNext Travel Report 2026–2027 -, da Omio em parceria com a YouGov, ouviu 8.505 adultos em seis países, incluindo o Brasil. Na amostra analisada de potenciais viajantes, 48% planejam ou consideram visitar múltiplos destinos nos próximos doze meses. E 43% desejam viajar com mais frequência.
O viajante não pensa, apenas, em origem e destino. Ele combina cidades, experiências e meios de transporte para aproveitar melhor tempo e orçamento. Entre os que já fizeram, planejam ou consideram viagens com várias paradas, 30% apontam o melhor uso de tempo e dinheiro como motivação; para 27%, o próprio deslocamento entre destinos pode fazer parte da experiência.
Há uma distinção importante: visitar várias cidades não significa necessariamente usar vários modais. Mas abre espaço para uma oferta capaz de conectar ônibus, avião, trem e transporte marítimo sem transformar cada etapa em um novo problema para o cliente.
O dado mais incômodo do relatório está justamente aí. Entre pessoas que fizeram viagens envolvendo múltiplas reservas, destinos ou conexões, 68% relatam ao menos uma dificuldade de planejamento ou gerenciamento. Acompanhar bilhetes em diferentes aplicativos, conciliar horários e lidar com imprevistos ainda dá mais trabalho do que deveria.
É aqui que volto a Santiago. A concessionária Nuevo Pudahuel abriu um processo para selecionar operadores que poderão ligar o aeroporto a cidades a até 300 quilômetros, com início projetado para março de 2027. A iniciativa, ainda, depende de seleção e definição das operações. Entretanto, ilustra uma mudança de mentalidade: o terminal deixa de ser apenas o fim de um voo e passa a ser um ponto de partida para uma rede regional de mobilidade.

Imagine comprar uma passagem aérea até Santiago e, na mesma jornada digital, escolher o ônibus para Viña del Mar, com horários compatíveis, instruções de embarque, regras de bagagem e alternativas diante de atrasos. A venda integrada é uma possibilidade, não uma realidade anunciada pelo projeto.
E por que não aplicar esse raciocínio ao Brasil? Quem desembarca em Porto Alegre e segue para a Serra Gaúcha, ou chega a São Paulo para visitar o interior, frequentemente precisa descobrir conexões, comparar plataformas e assumir sozinho os riscos de cada contratação. Isso representa atrito para o viajante e receita potencial não capturada pelas viações.
Os caminhos tecnológicos são conhecidos: distribuição por APIs e marketplaces, disponibilidade em tempo real, bilhetagem interoperável, pagamentos integrados e regras claras para remarcações. Mas tecnologia, isoladamente, não resolve. É preciso construir parcerias entre viações, aeroportos, companhias aéreas e plataformas, com responsabilidades definidas quando algo não sai como planejado.
A provocação, também, é comercial. Se a empresa de ônibus continuar enxergando apenas a passagem do seu trecho, outro agente poderá organizar a jornada, conquistar os dados do cliente e concentrar a relação comercial. Participar de uma rede multimodal não significa perder identidade; significa fazer parte de uma solução maior.
Durante muito tempo, inovar no transporte rodoviário foi sinônimo de colocar um veículo melhor na estrada. Isso continua importante. Mas os dados da Omio e o projeto de Santiago sugerem uma nova fronteira: tornar simples aquilo que hoje é fragmentado.
A próxima parada, talvez, não seja uma cidade. Seja a integração da viagem inteira.
Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

















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