Editorial
*Antonio Ferro e Renato Siqueira
O transporte coletivo realizado pelos ônibus em médias e grandes é refém da falta de políticas que priorizem a operação do modal responsável pelo maior número de viagens realizadas diariamente. Isso significa menor produtividade das empresas, menor competitividade para as cidades e, para os passageiros, maior tempo em seus deslocamentos, reduzindo o acesso às oportunidades como, por exemplo, o lazer em família, educação e emprego.
Entra ano e sai ano, algumas datas comemorativas ressaltam a importância de uma cidade voltada para as pessoas, para a eficiência em seus deslocamentos e, também ao tema da sustentabilidade ambiental em consonância com a promoção da qualidade de vida.
Contudo, essa lembrança acontece de forma efêmera, logo sendo esquecida em meio às demandas emergenciais existentes, o que torna mais desafiador o alcance de uma mobilidade sustentável diante à uma agenda pública leniente.
Isso é comprovado pela Pesquisa Viver nas Cidades: Mobilidade Urbana, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) e pela Ipsos-Ipec, que revelou o tempo médio gasto diariamente nos deslocamentos de moradores em dez capitais brasileiras – 2 horas e 5 minutos. Já para quem utiliza o transporte coletivo como principal meio de locomoção passa, em média, 2 horas e 17 minutos por dia em trânsito, 30 minutos a mais de quem usa o transporte individual (levantamento feito nas dez principais capitais brasileiras).
A realidade continua mostrando a falta ou mesmo, a não aplicação de políticas públicas e planos contundentes que favoreçam o transporte público tal acontece com outros modais. Com o aumento da frota de motocicletas e veículos particulares em meio ao modelo de deslocamento coletivo, constantes congestionamentos, aumento da acidentalidade e a diminuição da velocidade resultam em mais tempo perdido pelo cidadão.
De acordo com informações da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), de janeiro até setembro deste ano, já foram emplacadas mais de 1.783.972 motocicletas, sendo que 65,8% desse volume negociado nos estados das regiões Sudeste e Nordeste.
Outro dado relevante é sobre o número de bicicletas produzidas no mesmo período. São mais de 272 mil (engloba bicicleta elétrica) com a distribuição de mais de 70% para as Regiões Sul e Sudeste.

Isso mostra que, viagens que antes eram realizadas pelos ônibus, hoje são realizadas por motos e bicicletas muito em função de políticas de incentivo, como o Programa Move Brasil, que facilita o acesso ao financiamento desse tipo de veículo em até 48 vezes e, também, pelo custo do transporte coletivo, que tem na tarifa a única fonte de custeio. Políticas, muitas delas populistas, causam efeito contrário ao que se busca em termos de mobilidade eficiente no cenário urbano.
Para as operadoras do transporte, as consequências dessas práticas governamentais equivocadas geram impactos negativos. A menor velocidade comercial significa maior custo da atividade, além de aumento no tempo para cumprir a viagem, exigindo mais ônibus e mais motoristas para manter a frequência. Isso acarreta maior consumo de combustível, o que no final das contas torna o transporte caro, ineficiente e nada amigável do ponto de vista ambiental.
Para o passageiro, o custo aparece de outra maneira, com horas não produtivas, maior desgaste e, em alguns casos, com necessidade de recorrer a outros modais para completar sua viagem. Lembrando que a velocidade comercial dos ônibus hoje está na casa dos 15 km/h (média Brasil), muito baixa se o intuito é alcançar ganhos e benefícios.
Gestores públicos e formadores de opinião precisam entender que o transporte coletivo urbano não é somente tarifa, idade média da frota, tecnologia veicular ou a quantidade de veículos em operação.
De que adianta ter um ônibus moderno, confortável, acessível, conectado e elétrico (como muitos querem) se o mesmo continua perdendo parte do valor preso no trânsito. Eficiência é a palavra essencial para se deixar de lado decisões que resulte em status governamental e passe a refletir uma mobilidade que preze para o futuro melhor tanto para as pessoas quanto para as cidades.
Ao disputar espaço com outros modais em um sistema saturado, a competitividade do ônibus fica aquém das demandas da mobilidade moderna. Sem a devida prioridade, com corredores, faixas exclusivas, sistemas semafóricos e planejamento, o modal vê, num ritmo acelerado, a perda de seus passageiros e a consequente desvalorização de seu papel na sociedade.
Podemos recuperar dinheiro, reconstruir uma carreira e até recomeçar uma história, mas o tempo perdido não retorna. Por isso, desperdiçá-lo no congestionamento significa, de certa maneira, dar de ombros para uma parte da própria existência.
Se, realmente, queremos uma mobilidade eficiente e um transporte coletivo digno e moderno, a gestão pública precisa assumir a responsabilidade em promover políticas consistentes, sem ser enganosa ou de curta duração, visando o custeio dos serviços, o financiamento para infraestrutura e a inovação tecnológica. Oxalá conseguimos!!!

Antonio Ferro é editor da revista AutoBus

Renato Siqueira é editor do portal Agentes da Mobilidade
Imagens – IA e acervo pessoal

















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