*Beatriz Lima
Saber que minha reportagem sobre o transporte clandestino venceu o Prêmio CNT de Jornalismo 2026, na categoria Comunicação Setorial, foi, sem dúvida, uma das maiores alegrias na minha trajetória profissional. Mas, o significado dessa conquista vai além do reconhecimento de um trabalho jornalístico. Ela coloca em evidência uma discussão que considero fundamental para o futuro do transporte rodoviário regular de passageiros no Brasil: o combate às atividades irregulares.
São quase 30 anos de atuação em jornalismo e comunicação, muitos deles dedicados a acompanhar de perto a realidade desse setor, que é minha principal área de especialização e, também, uma das minhas maiores paixões profissionais.
Como editora da Abrati, head de Comunicação e porta-voz da Rodoviária do Rio e assessora de grandes operadoras, como o Grupo Guanabara, tive a oportunidade de conhecer diferentes perspectivas de uma atividade que carrega uma responsabilidade enorme: transportar pessoas com segurança, regularidade e qualidade.
Foi justamente isso que levou nossa equipe a escolher o transporte clandestino como tema da reportagem vencedora, publicada na edição 127, de março de 2026 sob o título “Transporte clandestino: A roleta das estradas – O mercado que ignora a segurança, desafia a fiscalização e aposta na impunidade”.
A proposta nunca foi, simplesmente, falar sobre concorrência ou sobre a disputa entre diferentes modelos de transporte. O objetivo foi chamar atenção para o que realmente importa: as condições em que os passageiros viajam e os riscos de operações realizadas sem as autorizações e garantias exigidas.
A reportagem investiga a atuação de serviços que realizam viagens sem autorização e mostra que o problema vai muito além da imagem tradicional dos chamados ônibus piratas. Envolve diferentes veículos, a comercialização de viagens por redes sociais e grupos de WhatsApp e, sobretudo, um cenário de dificuldades para a fiscalização. As disputas judiciais, com liminares e recursos que permitem a continuidade de determinadas operações irregulares, também fazem parte dessa realidade e precisam ser discutidas com seriedade.
O trabalho reúne dados da Polícia Rodoviária Federal sobre os sinistros nas rodovias federais, relatos e registros de ocorrências envolvendo o transporte clandestino divulgados pela imprensa. São informações que ajudam a dimensionar os riscos e mostram por que esse alerta precisa permanecer na agenda pública pra 2027.
O setor de transporte rodoviário regular evoluiu muito ao longo dos anos, acompanhando mudanças de comportamento, incorporando tecnologia e buscando atender às novas demandas dos passageiros. Mas ainda precisa lidar com a atuação de operações irregulares nas estradas e com situações em que as responsabilidades relacionadas à segurança acabam sendo relativizadas.
Quem conhece e acompanha o segmento sabe que o transporte regular opera sob exigências que envolvem autorizações, manutenção dos veículos, qualificação profissional, seguros, controle operacional e uma série de obrigações legais. Tudo isso representa custos, investimentos e responsabilidades que fazem parte da prestação de um serviço seguro. Quando operações à margem dessas exigências conseguem atuar sem o devido controle, cria-se um desequilíbrio que prejudica não apenas as empresas que cumprem as regras, mas principalmente os passageiros.
É importante reconhecer o trabalho de milhares de profissionais e empresas que sustentam diariamente essa atividade em todo o país. O transporte rodoviário regular conecta cidades, atende populações de diferentes portes e garante deslocamentos essenciais para milhões de brasileiros. É um serviço estratégico para a mobilidade nacional e que precisa ser valorizado, mas também continuamente aprimorado.
Acredito que o setor tem desafios importantes pela frente. Fortalecer sua imagem, ampliar a transparência, investir em tecnologia, melhorar a experiência do passageiro e demonstrar à sociedade o que existe por trás de uma operação regular são tarefas permanentes. A defesa da segurança precisa caminhar junto com a qualidade, a eficiência e a competitividade.
Nesse contexto, o jornalismo setorial tem um papel relevante. Conhecer o setor, compreender suas particularidades e transformar questões técnicas em informação acessível permite que assuntos importantes não fiquem restritos aos debates institucionais. A comunicação também ajuda a aproximar o setor da sociedade e a dar visibilidade a temas que merecem atenção pública.
Por isso, fico especialmente feliz com o reconhecimento da CNT. Em uma edição que reuniu mais de 350 trabalhos inscritos, conquistar o primeiro lugar na categoria Comunicação Setorial representa uma satisfação profissional enorme. É gratificante ver uma pauta tão importante ganhar espaço e ser reconhecida em uma premiação que valoriza o jornalismo e sua contribuição para o desenvolvimento do transporte brasileiro.
A reportagem também é resultado de um trabalho que envolveu diferentes profissionais. O projeto contou com a coordenação editorial de Juliana Bräscher, a concepção gráfica e edição de arte de Glaymerson Moisés e a participação de Letícia Pineschi Kitagawa, diretora-geral da Abrati. Lembrando, ainda, das contribuições histórica de Antônio Ferro em sua coluna na publicação. Acredito muito na importância desse trabalho coletivo para que uma boa pauta se transforme em uma publicação consistente e relevante.
Esta foi minha segunda indicação ao Prêmio CNT de Jornalismo e, desta vez, com a conquista do primeiro lugar. Recebo esse reconhecimento com alegria e, sobretudo, com a consciência de que o assunto não se encerra com uma reportagem ou uma premiação.
No fim, existe algo que deveria ser inegociável para todos os envolvidos nessa atividade: quem embarca em uma viagem precisa ter a tranquilidade de saber que sua segurança é prioridade.
É por essa razão que essa discussão merece continuar nas páginas das publicações especializadas, nas entidades do setor, nas empresas e, principalmente, na sociedade.
Imagens – Acervo pessoal

*Beatriz Lima é jornalista há quase 30 anos no transporte rodoviário. Atuou como editora da Revista ABRATI e trabalha na comunicação de empresas como a Guanabara e Rodoviária do Rio S/A, Socicam, compartilhando insights sobre mobilidade e comunicação

















0 comentários