Buenos Aires e a mobilidade que se percebe na prática

Há cidades que prometem futuro. E há cidades em que esse futuro já começa a aparecer nas ruas

*Emanoelle Wilges

Em Buenos Aires, o que mais me chamou atenção foi perceber que a cidade está em movimento — não apenas no sentido literal. Há obras de infraestrutura por vários lados, intervenções urbanas em andamento e sinais claros de investimento e continuidade.

Mas, mais do que observar, eu vivi isso.

Andei de ônibus (a maioria retrofit, que eu amo), o que me surpreendeu foi a regularidade. Em nenhum momento peguei um veículo cheio. As paradas são bem sinalizadas, com indicação clara das linhas e rotas.

Usei o metrô — e a quantidade de linhas impressiona. Para quem vem de Brasília, a sensação é de uma rede muito mais ampla e conectada, uma malha incrível.

Também, fiz deslocamento de trem, saindo da estação Frederido Lacrose (Urquiza) até Villa Lynch em Buenos Aires. Me impressiona a malha ferroviária antiga, funcionando, levando e trazendo as pessoas auxiliando no escoamento urbano, desafogando o trânsito e fazendo com que os ônibus não estejam lotados.

Caminhei bastante, pois as calçadas nos convidam a caminhar.

Buenos Aires é uma cidade que permite andar a pé. As calçadas existem, são contínuas e fazem parte da lógica de mobilidade. Vez ou outra nos deparamos com obras e melhorias pelo caminho.

Essa experiência ajuda a entender algo que, muitas vezes, fica no discurso técnico: a cidade funciona como rede.

Faixas exclusivas para bicicletas e patinetes.

Corredores de ônibus conectando outros modais.

Metrô, trens e ônibus integrados.

Micro-ônibus resolvendo a última milha em áreas turísticas.

Tudo pensado para que as conexões aconteçam.

Segundo o Governo da Cidade, o sistema Metrobús soma mais de 60 km de corredores exclusivos. A cidade também iniciou testes com o TramBus 100% elétrico, com potencial de reduzir em até 40% o tempo de viagem em alguns eixos.

(fonte: https://buenosaires.gob.ar/metrobus-del-bajo e https://buenosaires.gob.ar/infraestructura/trambus)

Além disso, anunciou investimentos próximos de US$ 300 milhões para modernização do sistema, incluindo novos trens e atualização tecnológica, segundo levantamento da BNamericas. (fonte: https://buenosaires.gob.ar/noticias/la-ciudad-adjudico-la-licitacion-para-la-compra-de-coches-de-la-linea-b?)

Mas o que diferencia Buenos Aires não é apenas o volume de projetos.

É a forma como eles se conectam.

Você não precisa procurar o transporte.

Ele já está ali.

Disponível.
Integrado.

A cidade, também, investe em mobilidade ativa. Buenos Aires conta, hoje, com cerca de 300 km de ciclovias e bicisendas (termo usado lá para uma via destinada à circulação de bicicletas) protegidas, além do Ecobici, seu sistema público de bicicletas. Os patinetes elétricos também operam sob regras específicas de circulação e estacionamento.

(fonte: https://buenosaires.gob.ar/infraestructura/movilidad/pedalea-la-ciudad?)

Isso muda a experiência urbana.

A última milha deixa de ser problema e passa a ser solução.

Mais uma vez: não é sobre inovação isolada. É sobre coordenação.

Buenos Aires ainda enfrenta desafios — isso é conhecido. Mas a sensação, ao percorrer a cidade, é clara:

Existe planejamento.

E planejamento, na mobilidade urbana, aparece de forma silenciosa:

Na previsibilidade.

Na integração.

Na fluidez.

Funciona?

Funciona.

E funciona porque foi pensado como sistema.

Mobilidade urbana não é sobre veículos.

É sobre como a cidade decide se organizar.

Imagens – Emanoelle Wilges

*Emanoelle Wilges é especialista em marketing e comunicação estratégica, com mais de 20 anos de experiência no mercado publicitário e mais de 10 anos de atuação no setor de mobilidade urbana. É CMO da Zion Hub de Negócios, head de marketing e CX na NTURBANO, além de atuar com conteúdo, assessoria de imprensa, posicionamento e comunicação setorial para marcas e projetos ligados à mobilidade, inovação e negócios B2B

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