*Luciana Prado
Como psicóloga atuando há mais de 30 anos dentro do transporte coletivo, acompanhando operação, manutenção e áreas administrativas, aprendi que comportamento humano não é um detalhe, é parte direta da segurança, do desempenho e da estabilidade das empresas.
Minha atuação sempre foi além do cuidado clínico. Trabalho na identificação e intervenção de riscos que impactam diretamente o funcionamento das pessoas e, consequentemente, da operação. Isso exige uma leitura ampliada: entender o indivíduo, mas também o contexto em que ele está inserido.
Na prática, isso significa atuar como mediadora. Apoio colaboradores em sofrimento real, mas também auxilio gestores a interpretarem corretamente o que está por trás de determinados comportamentos. Nem tudo é desinteresse. Nem tudo é doença. E saber diferenciar isso evita decisões precipitadas, conflitos desnecessários e prejuízos silenciosos.
No transporte coletivo, essa leitura se torna ainda mais crítica.
Um motorista emocionalmente desregulado não perde apenas qualidade de vida. E ele perde capacidade operacional. A atenção diminui, o tempo de resposta aumenta, a tolerância ao estresse cai. Isso se traduz em direção mais agressiva, decisões impulsivas, dificuldade em lidar com imprevistos e maior risco de conflitos com passageiros e equipe.
Antes de um acidente ou de uma ocorrência mais grave, os sinais quase sempre já estavam presentes: irritabilidade constante, lapsos de atenção, mudanças de comportamento, aumento de afastamentos e dificuldade de relacionamento. Ainda assim, esses sinais seguem sendo interpretados, muitas vezes, como falta de comprometimento.
Quando a leitura é superficial, a intervenção chega tarde.
Ao longo da minha trajetória, já acompanhei situações em que o não reconhecimento precoce de um quadro emocional contribuiu para acidentes, conflitos e afastamentos evitáveis. Em muitos desses casos, o problema não era invisível, mas, apenas, que não foi compreendido a tempo.
E há um ponto que precisa ser dito com clareza: nem todo problema começa dentro da empresa, mas inevitavelmente passa a impactá-la. Rotina desorganizada, sono inadequado, desgaste emocional e dificuldades pessoais interferem diretamente no desempenho profissional, especialmente, em atividades que exigem atenção contínua e tomada de decisão rápida.
Por outro lado, ainda é comum encontrar empresas que tratam saúde mental de forma pontual, restrita a campanhas isoladas. Isso não sustenta resultado. Saúde mental se constrói no ambiente, na forma de gestão e na preparação das lideranças para lidar com comportamento humano.
Nesse cenário, a atualização da NR-1 traz um movimento importante. Com a vigência das atualizações e o avanço da fiscalização relacionado aos riscos psicossociais a partir de 26 de maio de 2026, esse tema deixa de ser apenas uma discussão preventiva e passa a ocupar espaço ainda mais estratégico na gestão das empresas.
Ao incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos, a norma deixa de tratar saúde mental como um tema periférico e a posiciona como parte da responsabilidade organizacional.
Mas reduzir isso a uma obrigação legal é um erro estratégico.
Empresas que não sabem identificar e gerenciar esses riscos aumentam seus índices de afastamento, ampliam conflitos internos, comprometem a operação e se expõem a passivos trabalhistas. Por outro lado, quando existe leitura técnica e atuação direcionada, é possível prevenir, reduzir impactos e melhorar o funcionamento como um todo.
E isso não depende de estruturas complexas. Muitas vezes, ajustes simples, consistentes e bem orientados já produzem mudanças relevantes.
No transporte coletivo, saúde mental não é apenas cuidado com pessoas. É gestão de risco.
E empresas que já entenderam isso, deixaram de tratar o tema como campanha e passaram a tratá-lo como estratégia, com leitura técnica, atuação consistente e integração com a realidade da operação.
Já as demais, ainda, estão reagindo aos problemas depois que eles acontecem.

*Luciana do Prado é psicóloga com mais de 30 anos de atuação no transporte coletivo. Especialista em saúde mental aplicada à operação, comportamento e riscos psicossociais. Atua no suporte a empresas na prevenção, mediação e gestão de impactos humanos na operação















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