* Rodnei Quinello
A cultura do “só mais uma viagem”
O transporte de passageiros é o motor da economia, mas carrega consigo uma sombra constante de risco operacional. Entre a abertura das planilhas e a rotina exaustiva, é comum vermos decisões perigosas sendo varridas para debaixo do tapete.
Todos conhecem o roteiro: o veículo é liberado com pastilhas ou discos sem limite; o checklist é assinado por hábito, sem uma inspeção real. “Roda só mais uma viagem” é a sentença que separa o resultado imediato do desastre iminente.
A ilusão da tecnologia e o protocolo de fachada
Hoje, muitas empresas investem em checklists digitais e tablets. O ganho em produtividade e a redução de papéis são inegáveis, mas surge um risco invisível: a automação da negligência. O mecânico não foi clicado por hábito, não por inspeção. A tecnologia torna-se uma “capa” de modernidade que mascara a falta de rigor técnico.
Pior ainda é a dependência burocrática de assinaturas de engenharia mecânica executada por órgãos como ARTESP e ANTT. Muitas vezes, esse processo tornou-se puramente arrecadatório ou meramente protocolar. O engenheiro recentemente pisou na garagem, e a assinatura acabou de ser solicitada apenas como um escudo de isenção após o acidente. Como diz o ditado: criar dificuldades para vender facilidades.

Pastilha de freio gasta e quebrada
O ó nunca surpreende
No transporte, acidentes graves são eventos isolados. Eles são o resultado cumulativo de desinformação, pressa e negligência.
Se hoje dispomos de tecnologia embarcada, telemetria e dados em tempo real, por que as falhas mecânicas ainda causam tragédias? A resposta está na gestão. O perito, em um processo judicial, não aceitará desculpas. Ele procurará:
- O histórico real de manutenção;
- Ordens de serviço abertas e concluídas;
- Registros de treinamento dos condutores;
- O monitoramento eficaz da condução em trajeto.

Disco de freio quebrado
A blindagem jurídica e a responsabilidade
Ao ignorar a manutenção, a empresa deixa de ter um problema de escritório para enfrentar um problema jurídico complexo. As consequências são graves:
- Indenizações por danos morais e materiais;
- Responsabilidade civil objetiva;
- Prejuízos reputacionais e perdas de contratos;
- Ações regressivas e responsabilização criminal em casos graves.

Lona de freio danificada
Conclusão: Manutenção é gestão de risco
Manutenção preventiva não é custo; é proteção patrimonial.
Empresas fortes não são apenas aquelas que colocam veículos nas ruas, mas aquelas que conseguem provar, documentalmente, que seus veículos são seguros. Quando acontece o acidente, ninguém discute o preço da pastilha ou da mão de obra. Discuta-se a responsabilidade.
O setor precisa entender que o dilema “podia rodar mais um pouco” é, na verdade, uma aposta contra a própria sobrevivência do negócio. A gestão eficiente é aquela que monitora o veículo antes que ele se torne um problema jurídico. Na última análise, quem coloca um veículo seguro na rua não é uma oficina, mas uma gestão consciente de que a manutenção é o alicerce de toda a operação.

Tambor de freio quebrado

Disco de freio superaquecido (com risco de falha total)
Imagens – Acervo pessoal

* Rodnei Quinello, administrador, bacharel em Direito e pós-graduado em Logística Empresarial. É criador do canal Vida de Frota (YouTube), dedicado à análise estratégica do transporte rodoviário















0 comentários