*Roberta Faria
Já havia participado de um primeiro encontro em São Paulo, numa ocasião mais intimista, quando algumas mulheres do movimento estavam reunidas. Saí de lá curiosa, animada, com a sensação de que algo importante estava nascendo. Mas foi no dia 28 de maio, no Grand Hyatt São Paulo, que consegui enxergar a real dimensão do que o Elas no Transporte significa e o quanto ele já cresceu.
Eram mais de 150 mulheres. Líderes, diretoras, executivas, empreendedoras vindas da mobilidade urbana, do transporte rodoviário, de cargas entre outros setores. Bia Figueiredo, a primeira mulher a vencer na Indy Lights e, hoje, piloto de caminhões de corrida, disse em voz alta o que muitas pensaram ao chegar: imaginava encontrar 15 pessoas na plateia. A jornalista Fabiana Corrêa, colunista da Marie Claire e especialista em liderança feminina, que participou do evento pela primeira vez, teve a mesma impressão. Essa surpresa compartilhada diz muito: somos muitas, e estamos em lugares que o mundo ainda não aprendeu a enxergar direito.
Vim acompanhada de Beatriz Lima, nossa Head de Comunicação, que há anos amplifica histórias do setor. Estar ali ao lado dela e ao lado de tantas outras foi lembrar que protagonismo feminino não se faz sozinha. Faz-se em rede, em troca, em presença.
O que nos trouxe ao mesmo lugar
O tema da 2ª edição era legado. A Dra. Lívia Mandelli, da Fundação Dom Cabral, abriu o dia com uma palestra que me desarmou no melhor sentido, apresentando uma forma de olhar para a própria trajetória sem perder a essência. Num setor de pressão constante por resultados, ouvir sobre autoconhecimento e alta performance emocional numa mesma frase foi raro e necessário. O momento que ficou marcado de um jeito diferente foi a dinâmica de journaling conduzida por Luciana Kow. Numa tarde em que todas carregávamos agendas cheias, ela nos convidou a parar, a escrever, a ouvir o que a gente pensa quando ninguém está cobrando resposta. Uma prática que levarei pela vida.

Legado não é o que você deixa. É o que você constrói agora.
O painel “Legado na Prática”, mediado por Simone Frizzo e patrocinado pela Mercedes-Benz, trouxe conversas que raramente acontecem no dia a dia corporativo: como preparamos sucessões? Como garantimos que o que construímos continue?
Foi nesse painel que Deborah Cardoso Corrêa, advogada e especialista em empresas familiares, compartilhou uma história que tocou a todas. Ela viveu por dentro o que acontece quando uma empresa familiar cresce sem governança, sem acordo de sócios e sem protocolo, não por má-fé, mas por ausência de diálogo. A frase que trouxe ficou ecoando na sala: acordos de guerra se fazem em tempos de paz. Leticia Pineschi, diretora-geral da Abrati, lembrou que estamos num momento muito interessante da história. Uma transição completa, digitalização, abertura de mercado, mulheres assumindo a liderança das empresas, culturas sendo testadas. A realidade se impõe e a empresa que souber lidar aproveitar o que as vantagens ao invés de tentar resistir apegada ao passado irá liderar o mercado. Já Niege Chaves, CEO do Mobibrasil, carrega no DNA o que define com orgulho: é catraqueira (associação com o fato de trabalhar com o ônibus e a própria catraca de cobrança das passagens) arrancando risos da plateia. Cresceu numa família do transporte urbano onde olhavam torto para uma mulher na liderança, nunca abriu mão de estar exatamente ali e hoje transporta 550 mil passageiros por dia.

Inovação, segurança e o futuro que nos pertence
A programação trouxe, ainda, alguns momentos que, também, mereceram destaque, como o impacto da inteligência artificial nos negócios e na experiência do cliente. Daniela Graicar, jornalista do Clube Aladas, apresentou um panorama inspirador sobre as tendências apontadas pelo SXSW (um dos maiores eventos de tecnologia que ocorreu na cidade norte-americana de Austin) que aponta para o futuro de pessoas, marcas e negócios tendo a IA como protagonista desta transformação, sem perder de vista o fator humano. Na mesma linha, Michelle Xavier, diretora de Marketing da ClickBus Marketplace, mostrou como a inteligência artificial já está redefinindo a experiência da viagem rodoviária no Brasil, contextualizando o uso da tecnologia no setor de transportes e seus reflexos na jornada do passageiro.
Houve um lançamento que emocionou: o projeto Rodovia Segura para Todas (ANTT), apresentado no encontro como um compromisso concreto com a segurança das mulheres em toda a cadeia do transporte, das motoristas às passageiras, das gestoras às profissionais de ponta. Ver uma iniciativa assim nascer num espaço como esse foi um lembrete poderoso de que quando mulheres ocupam lugares de decisão, as pautas mudam, e mudam para melhor.
Finalizando a agenda do dia, o evento contou com a fala da escritora Luciene Müller, sob o tema “Colo Invisível: O que sustenta uma mulher quando ninguém vê”, que abordou o protagonismo feminino e a resiliência em sua caminhada.

De onde falo
A Rodoviária do Rio, onde atuo como diretora-geral, é a 2ª maior rodoviária da América Latina em movimento de passageiros. Sou a primeira mulher a ocupar esse cargo na história do terminal, numa função sempre exercida por homens. O que aprendi no Elas no Transporte é que as competências que nos tornaram líderes precisam, em algum momento, ser viradas para dentro, para que o legado não seja apenas o que entregamos às empresas, mas o que deixamos nas pessoas que vieram depois de nós, e nas que ainda vão chegar, inclusive que atuam atrás do volante.
O Elas no Transporte não é um evento. É um movimento. E ele cresce porque responde a uma necessidade real: a de que mulheres num setor historicamente masculino se vejam, se reconheçam e se fortaleçam. E preciso registrar: Luciana Herszkowicz e Niege Chaves entregaram um evento impecável, do espaço à curadoria dos temas, da escolha das palestrantes ao ritmo da programação. Construíram não apenas um evento, mas uma experiência que nos fez rir, chorar e sair de lá com um conhecimento que vai muito além do corporativo. Saio com anotações no papel, compromissos na cabeça, gratidão no coração e a certeza de que há muita mulher competente e generosa ocupando espaços que o Brasil ainda vai aprender a celebrar mais.
Que venha a terceira edição, com ainda mais mulheres, mais histórias e mais estradas pela frente.
Imagens – Divulgação

*Roberta Faria é a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora-geral da concessionária Rodoviária do Rio de Janeiro S/A — segunda maior rodoviária da América Latina em movimentação de passageiros. Ela é arquiteta e urbanista que acumula vasta experiência em contratos de concessão de terminais rodoviários, tendo atuado por sete anos na Rio Terminais.















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