Próxima parada Shanghai South: quando a infraestrutura comunica uma visão de futuro!

A participação do sistema férreo no deslocamento das pessoas, de forma rápida, segura e acessível

*André Heidrich Rodeghiero

Chegar à Estação Shanghai South é perceber que uma estação ferroviária pode ser muito mais do que um lugar de passagem. Sua estrutura circular, integrada ao metrô e organizada em diferentes níveis, revela a dimensão de um país que transformou o transporte ferroviário em política de Estado. A atual estação foi inaugurada em 25 de junho de 2006, após ampla reconstrução, e ficou conhecida como a primeira grande estação ferroviária circular do mundo. Em janeiro de 2025, ganhou uma nova função ao passar oficialmente a receber trens de alta velocidade.

Essa transformação não aconteceu de forma isolada. Em 2004, a China aprovou seu plano ferroviário de médio e longo prazo, estabelecendo corredores nacionais e metas progressivas de expansão. Em 2008, entrou em operação a primeira linha chinesa projetada para alta velocidade, entre Pequim e Tianjin. A partir daí, a ferrovia passou a ser tratada não apenas como infraestrutura, mas como instrumento de integração territorial, produtividade e desenvolvimento regional.

Os números ajudam a dimensionar essa escolha. Em 2012, a China tinha pouco mais de 9 mil quilômetros de linhas de alta velocidade. Ao final de 2024, já eram 48 mil quilômetros, cobrindo mais de 96% das cidades com população superior a 500 mil habitantes. A meta oficial é chegar a aproximadamente 60 mil quilômetros em 2030.

A Shanghai South é uma peça dessa engrenagem. Após a atualização da programação ferroviária de 2025, a estação passou a operar 118 trens por dia. Na prática, isso representa aproximadamente cerca de 3.500 saídas em um mês. A expectativa divulgada pelas autoridades locais é de um movimento médio de 50 mil passageiros por dia — aproximadamente 1,5 milhão por mês. Ainda que os trens-bala tenham cerca de 60% dos serviços programados passaram a ser de alta velocidade, existem alguns que transitam em velocidade de 120km/h e são considerados trens “lentos” hahaha – Risada do editor -.

Mas o que mais chama atenção não é apenas a escala. É a maneira como fluxo, tecnologia e segurança foram organizados para funcionar juntos. Antes de chegar à área de espera e aos portões de embarque, o passageiro passa por controle de identidade e inspeção de bagagens em equipamentos de raio X. O acesso ao trem ocorre somente quando o embarque é liberado, por portões associados a uma viagem específica. Para os passageiros chineses, documentos eletronicamente legíveis permitem validação automática e integração com o bilhete digital. Estrangeiros utilizam o passaporte vinculado à reserva e, conforme o equipamento disponível, passam por canais automáticos ou assistidos.

O acesso é progressivo: identificação, inspeção, espera e embarque. A segurança deixa de ser uma barreira improvisada e passa a fazer parte do desenho da jornada.

Outro elemento importante são os totens de autoatendimento. Eles reduzem a dependência dos balcões e distribuem tarefas simples para canais digitais: consulta de horários, compra, alteração e cancelamento de bilhetes, impressão de comprovantes e acesso a informações da viagem. O sistema oficial complementa essa estrutura pelo aplicativo e pelo site, permitindo que grande parte da jornada aconteça antes mesmo da chegada à estação. Para estrangeiros, algumas funções ainda dependem do tipo de documento aceito pelo equipamento, o que mostra que digitalização e acessibilidade dos passageiros internacionais nem sempre avançam na mesma velocidade.

A visita à Shanghai South deixa uma provocação para o transporte rodoviário brasileiro. Quando falamos em inovação, costumamos olhar primeiro para o veículo. A experiência chinesa mostra que estação, segurança, informação, venda e embarque também são partes do produto. Uma grande operação não se torna eficiente apenas porque movimenta muitas pessoas, mas porque cada etapa foi desenhada para reduzir incertezas, organizar o fluxo e dar autonomia ao passageiro.

A próxima parada da inovação pode não estar dentro do ônibus, mas em tudo aquilo que acontece antes de ele partir.

Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *