Próxima parada: o feriadão começa muito antes da rodoviária

Se o passageiro já está dizendo onde quer viajar, as empresas de transporte estão preparadas para ouvi-lo?

*André Heidrich Rodeghiero

Na segunda-feira passada, 31 de agosto, “feriado nacional” apareceu entre os assuntos em alta no Google Trends no Brasil, com mais de 20 mil buscas e crescimento de 500% nas últimas 24 horas. O interesse não é apenas uma curiosidade sobre o calendário. Ele antecipa um movimento que, poucos dias depois, chegará aos sites de venda, às rodoviárias e às estradas.

Segundo levantamento divulgado pela ClickBus, as buscas por passagens rodoviárias para o feriado de 7 de setembro cresceram 47,6% nas últimas semanas de agosto. Rio de Janeiro e São Paulo lideram em volume, enquanto destinos como Matinhos, no Paraná, cresceram mais de 160%.

A pergunta é simples: se a intenção de viagem aparece antes no Google e nos canais digitais, por que tantas empresas ainda esperam o ônibus lotar para reagir?

Esse feriadão mostra como dados, tecnologia e gestão de receita podem mudar a operação do transporte rodoviário. Em vez de trabalhar apenas com tabelas fixas e decisões baseadas no passado, as empresas podem combinar histórico de vendas, velocidade de ocupação, antecedência da compra, buscas por origem e destino, eventos e calendário para tomar decisões melhores.

É exatamente aí que entra o pricing.

Pricing não significa simplesmente aumentar tarifas quando existe procura. Significa entender o valor de cada assento ao longo do tempo. Um ônibus que parte em cinco dias com 80% de ocupação exige uma estratégia diferente de outro, no mesmo horário, com 30%. Um assento vendido com grande antecedência pode ter lógica distinta daquele comprado poucas horas antes do embarque.

Quando esse conhecimento é integrado ao sistema de vendas e à operação, surge algo ainda mais importante: antecipar a necessidade de carros extras.

O Rock in Rio oferece um excelente laboratório dessa lógica. Entre 3 e 14 de setembro, período que reúne o festival e o feriado, a Rodoviária do Rio estima receber cerca de 500 mil passageiros em aproximadamente 14.845 viagens. Segundo levantamento da ClickBus, 77% dos viajantes que irão ao festival afirmam que chegarão ao Rio de ônibus.

O histórico mostra o tamanho da oportunidade. Um estudo da ClickBus em parceria com a Fipe, analisando a rota São Paulo–Rio durante o Rock in Rio de 2024, identificou dias em que o volume de passagens de ida ficou cerca de 300% acima do padrão. Nas categorias leito e cama, o preço médio apresentou variações de até 77% nos períodos de maior procura.

Grandes eventos, portanto, não deveriam ser tratados apenas como “dias de movimento”. São eventos previsíveis de demanda. Uma empresa com as ferramentas adequadas pode identificar que determinado horário está acelerando sua ocupação, ajustar preços por classe, proteger inventário, estimular horários menos procurados e, quando a demanda justificar, programar um carro extra antes que a oportunidade desapareça. Pode ainda direcionar campanhas para cidades onde as buscas estão crescendo e oferecer upgrades aos passageiros dispostos a pagar mais por conforto.

No transporte aéreo, práticas de revenue management fazem parte da operação há décadas. No rodoviário, a digitalização das vendas começa a criar dados suficientes para uma transformação semelhante. O próximo passo não é apenas vender mais passagens pela internet. É aprender com cada busca, cada clique, cada compra e cada assento que ficou vazio.

O feriadão começa muito antes da rodoviária. Começa quando alguém pesquisa no Google se segunda-feira é feriado, abre um aplicativo e consulta quanto custa viajar. A empresa que transformar esse pequeno sinal digital em decisão comercial terá mais ocupação, melhor rentabilidade e uma operação mais eficiente.

A próxima parada do transporte rodoviário não é simplesmente digitalizar a venda. É transformar intenção em inteligência.

Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte

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