Quando o futuro embarca no ônibus, mas os passageiros persistem em desembarcar

Em um ambiente marcado pelas inovações, modernização de conceitos, investimento em tecnologia, novidades em veículos e uma visão de negócio que busca ser atraente para o setor, o transporte coletivo sobre pneus brasileiro reforçou ao mundo sua expertise, mesmo que a operação mantenha seus dilemas diários

Após a realização de mais uma edição da Lat.Bus e do Seminário Nacional da NTU, há alguns panoramas e contrastes que precisam ser destacados e mostrados quanto ao momento do transporte coletivo feito pelo ônibus em seus dois segmentos – rodoviário e urbano -, numa realidade oposta, mas com os mesmos objetivos em proporcionar a mobilidade dos brasileiros.

Durante o evento paulistano, o que se viu foi uma feira expandida em relação à anterior, trazendo muito conteúdo e impacto positivo ao setor, onde a inovação tomou conta em meio à diversos investimentos e projetos tecnológicos que chegam ao mercado pensados na otimização operacional.

Em paralelo, aconteceu o Seminário Nacional da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos), trazendo à luz, novamente, os dilemas que acompanham o segmento do ônibus urbano em sua trajetória cheia de contrastes, com impactos positivos e negativos no deslocamento das pessoas.

O seminário deste ano contou com uma abordagem direta e inserida no programa Transporte para Todos, defendido pela entidade, com uma proposta que busca combinar a modernização do vale-transporte do trabalhador, uma fonte mais equilibrada para as gratuidades e a criação de um vale-transporte social para famílias vulneráveis, utilizando recursos já existentes e sem criar novos impostos.

O assunto financiamento esteve no centro, mais uma vez, dos debates e apresentações que pintam o quadro do transporte coletivo nacional numa situação desfavorável que o acompanha há vários anos, resultando em perdas de eficiência, público e qualidade. Edmundo Pinheiro, presidente do Conselho Diretor da NTU, lembrou que o Brasil é referência mundial no conceito do transporte coletivo, sendo importante exportador de tecnologia, veículos e projetos para todos os cantos do mundo. “Porém, quantas vezes estamos mostrando um diagnóstico negativo que acompanha o transporte, por meio da perda de passageiros, da rentabilidade financeira e dos investimentos? Neste ano, queremos ser diferentes e propor uma proposta para reverter esse quadro e voltarmos a ser atrativos para as pessoas, para a mobilidade urbana. Nisso, estamos destacando o Transporte para Todos estruturado na modernização do vale-transporte do trabalhador, em um modelo mais equilibrado para financiar gratuidades e na criação do vale-transporte social para famílias vulneráveis. A diretriz é associar recursos públicos à qualidade, eficiência, transparência e a benefícios verificáveis pelo cidadão”, explicou o executivo.

Edmundo Pinheiro, da NTU – Quando transporte funciona bem, todos ganham

Segundo Edmundo, durante a última década, o transporte ficou preso à um ciclo conhecido pela falta de investimentos e qualidade atrelado à redução substancial de viagens, obrigando o passageiro a diminuir seu uso, buscando outras alternativas que sejam boas ao seu orçamento. “O transporte coletivo, hoje, chega a comprometer 15% da renda média da família brasileira. Somente nas nove maiores capitais brasileiras, tivemos uma redução de 30% do número de viagens. Além disso, pouco mais da metade dos passageiros acabam pagando as operações, fato que faz com que o setor continue com déficit em vários de seus aspectos. Chegamos ao limite com as muitas pressões que atingem o setor e sua sustentabilidade”, observou.

Para o membro da NTU, o Brasil nunca construiu uma política permanente de financiamento para o transporte coletivo. “Se nos países preocupados com esse assunto há políticas que favorecem e mantém um equilíbrio financeiro por meio de subsídios ao segmento, por aqui enfrentamos diversos desafios. É preciso lembrar que, quando o transporte funciona bem, todos ganham”, disse Edmundo.

Segundos dados da NTU, o transporte coletivo só perdeu nos últimos anos, deixando de ser competitivo perante outros modais. Entre 2013 e 2025, houve uma redução de 46% dos passageiros pagantes, sendo que o ônibus deixou de ser um dos meios de transporte mais utilizado, ficando, em 2024, com 31% de participação nos deslocamentos das pessoas.

Francisco Christovam, diretor-presidente NTU, reafirmou que o transporte para todos e a qualidade operacional se alcança por investimentos e fontes permanentes de financiamentos, pois o setor perdeu relevância e sustentabilidade econômica em virtude da fuga dos passageiros. “Conseguimos alcançar um importante ponto para que o transporte coletivo volte a ser protagonista, com a aprovação do Marco Legal que promove uma nova realidade organizacional dos sistemas. Porém, volto a falar que a carência dos investimentos para podermos ter infraestrutura e frota moderna, além da sustentabilidade dos serviços, não teremos respostas positivas. Com menor arrecadação, as empresas adiam a renovação dos veículos; a qualidade cai e o sistema perde ainda mais usuários, alimentando um ciclo negativo”, afirmou.

O executivo mencionou que proposta da NTU é ressaltar novos mecanismos para o financiamento, dos sistemas e serviços, baseado em três pilares com a modernização da função do Vale Transporte do Trabalhador, da cobertura das gratuidades setoriais e na criação do Vale Transporte Setorial. “Infelizmente, lembro que a qualificação e modernização do transporte só é possível com investimentos e financiamentos. Sem recursos não teremos sucesso. Com a chegada do Marco Legal teremos a questão de separar a tarifa de uso e a tarifa de remuneração dos custos dos serviços. Ainda, não sabemos de onde essa diferença será obtida. O que nós estamos propondo com esses três pilares é uma forma de sustentabilidade econômica do setor. Repito que não há almoço de graça e que os valores pagos pelos atuais passageiros não está sendo o suficiente para a sobrevivência dos serviços. Alguém terá que custear toda a operação, seja pelo modelo do subsídio público, já aplicado em algumas cidades brasileiras, ou por outras fontes”, ressaltou Christovam.

Francisco Christovam – O papel da NTU continua reforçando a qualificação do transporte coletivo e o acesso para que todos possam usufruir

A NTU destaca que esse desenho preliminar de um novo programa público de financiamento combina três fontes, que são a modernização do vale-transporte do trabalhador, com participação estimada entre 45% e 55% do custeio; o financiamento das gratuidades pelos orçamentos das políticas públicas responsáveis, entre 25% e 35%; e a criação do vale-transporte social para famílias vulneráveis, entre 5% e 15%.

Ainda, dentro do escopo do Programa Transporte para Todos, a NTU tomou a iniciativa, por meio de um documento chamado Carta Brasil em Movimento, para estabelecer uma política permanente de financiamento do transporte público coletivo, qualificar o serviço, ampliar o acesso e garantir a sustentabilidade da operação sem a criação de novos impostos e sem concentrar os custos nos usuários.

Edmundo Pinheiro enfatizou que tal documento tem caráter nacional e estruturante, com diretrizes voltadas para a continuidade das políticas públicas independentemente de ciclos eleitorais, contando com um texto destaca o papel do transporte coletivo na mobilidade das pessoas ao realizar mais de 1,1 bilhão de viagens por mês, conectando pessoas e oportunidades em 2.962 municípios, com uma frota de 107 mil ônibus e mais de 5,1 mil carros ferroviários. “Hoje, cerca de 80% do custo do transporte coletivo é coberto pela tarifa e 20% por recursos públicos, concentrados principalmente nos municípios, gerando um custo anual de cerca de R$ 90 bilhões para o setor”, explicou o representante da NTU.

O público que participou do Seminário estava atento aos painéis, não deixando escapar nada

De acordo com a referida carta, existe uma contradição que o Brasil precisa enfrentar que é a de tratar, por muito tempo, o transporte público coletivo como se seu custo devesse ser sustentado principalmente por quem passa pela catraca. Nisso, quanto mais o sistema precisa arrecadar, maior a pressão sobre a tarifa e quanto mais a tarifa pesa, mais passageiros deixam o transporte coletivo. Dessa maneira, com menos passageiros, diminuem os recursos para ampliar a oferta e melhorar a qualidade. “Enquanto isso, crescem os deslocamentos individuais, os congestionamentos e o tempo perdido. Para quem não pode escolher outro meio de transporte, a consequência é ainda mais grave: não conseguir pagar pelo deslocamento pode significar não conseguir acessar trabalho, educação, saúde e oportunidades”, disse Edmundo.

A NTU não deixa de ser otimista quanto ao futuro do modal ônibus e estima que um financiamento operacional estável poderá criar condições para renovar e ampliar a frota em 50 mil ônibus nos próximos quatro anos, superando o patamar atual, próximo de 10 mil veículos novos por ano, o que favorece a redução da idade média da frota e acelera a incorporação de tecnologias mais limpas, confortáveis e conectadas.

OBS – Para este que lhe escreve, a NTU continua com seus esforços visando um transporte eficiente e acessível à todos. Muitas vezes, acaba sendo uma voz única em meio às transformações da mobilidade urbana e da forma como as pessoas usam o transporte coletivo. Porém, não desiste da concepção de um modelo baseado no desempenho para que possa reforçar o papel de indutor do desenvolvimento das cidades.

Imagens – MBM Fotografias

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