Sair de Brasília, a capital do Brasil, por meio do transporte irregular ou clandestino para algumas cidades próximas, vem sendo comum há muitos anos, mesmo que a fiscalização, quando atuante, esteja atenta aos fatos e faça seu trabalho de combate à um modal que traz prejuízos e insegurança. E não é só em Brasília que mora o problema. Podemos constatar isso no País todo, por diversos exemplos e operações que burlam a regularidade e os protocolos do bom transporte.
Hoje, com o afrouxamento de regras e da própria fiscalização, essa terceira via do transporte se fortaleceu numa espécie de rede organizada, que compartilha muita informação por rede social, com escala operacional capaz de se apresentar como um fato normal, corriqueiro, em que o improviso dá as caras para aqueles que buscam um deslocamento barato, rápido, mas sem a segurança e a garantia de chegar bem aos seus destinos.
Com as autoridades federais fazendo vista grossa, esse segmento encontra via livre, enquanto o transporte regular tem que se adequar à uma série de regras e normas, sendo fiscalizado de maneira mais ostensiva. E ao ter essa postura omissa, o Estado permite que o irregular tenha presença garantida no cotidiano da sociedade. “Eu diria que a fiscalização governamental ao clandestino não é adequada, permitindo que esse modelo de transporte ganhe força. Já para nós, do setor regular, somos constantemente fiscalizados e cobrados pelos melhores serviços. Veja o grande movimento de veículos irregulares que rodam pelo País. Nossa malha rodoviária é muito grande e a equipe de fiscais é pequena, não temos gente suficiente para isso. Há alguns anos, a ANTT tinha um convênio com a Polícia Rodoviária Federal para a fiscalização dos serviços e da clandestinidade. Porém, isso não existe mais, o que dá brecha para o ilícito atuar”, chamou a atenção Letícia Pineschi, diretora da Abrati, entidade que congrega empresas do transporte regular interestadual de passageiros.
A questão da saúde pública, também, é afetada, afinal os acidentes proporcionam grandes gastos, além de perdas irreparáveis. No período do carnaval deste ano, 130 pessoas morreram nas rodovias federais, sendo o mais letal da década. O fato, ainda, escancarou como períodos de festas e de grande deslocamento ampliam a exposição ao risco, em especialmente quando há atuação de transporte irregular.
Dessa maneira, com a alta demanda, como o carnaval, operadores clandestinos intensificam a oferta de viagens, sejam elas em ônibus, caronas remuneradas, taxis e ônibus piratas, em sua ampla maioria em veículos sem manutenção adequada, motoristas não habilitados ao transporte de passageiros e sem qualquer controle de jornada. “O transporte clandestino não é apenas uma irregularidade administrativa, é um fator concreto de risco nas estradas brasileiras. No Carnaval, vimos como a combinação de alta demanda e operação irregular pode resultar em tragédias. Enquanto empresas autorizadas operam com alto investimento em tecnologia embarcada para segurança da operação, controle de jornada, monitoramento em tempo real e câmeras de fadiga, o modelo clandestino elimina quaisquer desses pilares para reduzir custos”, destacou Letícia.
Para a executiva, esse mal é resultado daquilo que facilita o bom relacionamento entre os transportadores irregulares e o passageiro, como o custo operacional menor, com a oferta de passagens mais baratas, facilidade nos pagamentos, atendimento priorizado etc. “O clandestino não se interessa na regularização de seus serviços porque ele sabe que terá que arcar com isso, terá que pagar mais por se enquadrar às normas e protocolos que regem o transporte seguro. Faço questão de reforçar que ao se regularizar, esse transportador terá que seguir uma série de itens que tem como meta o transporte seguro para os passageiros, a qualificação dos serviços. Mas, se ainda prefere ser clandestino, ele pode ter uma operação que chega ser 40% mais barata em relação ao modelo regular”, explicou.
Letícia ressaltou que entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, levantamento com base em registros públicos identificou mais de 10 grandes acidentes com transporte comprovadamente irregulares, que resultaram em mais de 100 mortos e centenas de feridos. “A oferta livre e pública de caronas remuneradas e ônibus pirata, seja por meio do aliciamento online ou no entorno das rodoviárias, envolve o cidadão sensível a preço que não tem clareza dos riscos envolvidos. É fundamental que haja uma atuação firma das autoridades na oferta, além da conscientização da população”, esclareceu.
A diretora da Abrati, também, informou que a entidade sempre trabalha positivamente junto a ANTT, que é a Agência Nacional do Transporte Terrestre, para que o papel e a importância do transporte coletivo regular sejam enfatizados junto a sociedade quanto a conscientização da segurança, do conforto e do atendimento com qualidade. “Não cansamos de reforçar o nosso trabalho para oferecer os melhores e mais seguros serviços. Nosso objetivo é fortalecer um segmento que é fundamental para o desenvolvimento econômico do País e para a mobilidade das pessoas. Afinal, não transportamos carga, mas sim vidas humanas, um bem precioso para nós da Abrati”, finalizou Letícia.
Imagem – IA












0 comentários