Por Paulo Valente, diretor de Comunicação do Rio Ônibus
O cenário é familiar para quem vive nas grandes metrópoles, especialmente no Rio de Janeiro. O trânsito para enquanto o tempo da vida passa. Entre buzinas e engarrafamentos, a sensação de impotência é real. O diagnóstico visual é óbvio, são carros demais para espaços de menos. Contudo, a solução para esse caos não reside em abrir mais asfalto para veículos individuais, mas sim em fortalecer a única via capaz de democratizar o espaço urbano, o transporte coletivo.
Para entender a urgência de priorizar o ônibus, basta uma conta simples, um único coletivo é capaz de retirar até 40 carros de circulação. São 40 escolhas individuais que cedem lugar a uma solução coletiva. Quando o transporte público avança, ele não carrega apenas pessoas, ele transporta tempo economizado, reduz a poluição e devolve qualidade de vida e saúde à população.
Apesar disso, ainda sobrevive o mito de que tirar os ônibus das ruas resolveria o trânsito. Sendo que na verdade, menos ônibus significam mais carros e mais caos. A verdadeira saída são ônibus modernos, eficientes e integrados. Porém, para que essa eficiência chegue ao ponto de ônibus, precisamos enfrentar um problema invisível aos olhos do passageiro, mas que trava o sistema como um todo, o modelo de financiamento.
Atualmente, o transporte público no Brasil vive uma contradição insustentável. Embora seja um serviço essencial, ele é financiado quase exclusivamente pela tarifa paga pelo usuário. Esse modelo sobrecarrega quem depende do ônibus, gera pressão constante por aumentos e impede investimentos em modernização. E é aqui que o Marco Legal do Transporte Público (PL 3.278/2021) surge como um divisor de águas. O objetivo não é “reinventar a roda”, mas organizar regras para que o transporte seja tratado como uma verdadeira política pública.

Paulo Valente
A mudança mais urgente é a separação entre o custo da operação e o valor pago pelo passageiro. Hoje, gratuidades e descontos, que são benefícios legítimos e necessários, muitas vezes não possuem fonte de custeio definida, o que acaba encarecendo a passagem de quem paga a tarifa diariamente. Um sistema moderno exige subsídios explícitos, metas de qualidade, indicadores de desempenho e, acima de tudo, previsibilidade.
Centenas de cidades brasileiras já mostram que a participação do poder público é viável, com experiências que vão do subsídio parcial à tarifa zero. O que falta é consolidar uma estrutura nacional que permita escala e planejamento de longo prazo.
A modernização do sistema é o caminho mais curto para proteger o bolso do usuário e dar eficiência às cidades. Para o passageiro, um novo marco regulatório significa menos dependência de aumentos automáticos de tarifa. Para a cidade, significa segurança jurídica para inovar e investir em frotas menos poluentes e mais confortáveis.
O futuro da mobilidade urbana não será construído com atalhos ou com a remoção de ônibus das ruas. Ele será erguido com financiamento estruturado, governança e a compreensão de que, quando o transporte público ganha qualidade, a cidade inteira se move com ele. Escolher o coletivo é, no fim das contas, escolher o nosso tempo de volta.
Imagens – Marcia Foletto / Agência O Globo e Divulgação












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