Tecnologia embarcada nos ônibus e suas funções

Existe alguma vantagem para o operador? O passageiro percebe sua presença?

* Rodnei Quinello

Vou contar um pouco sobre como era feito o transporte há algumas décadas, quando o veículo só servia para levar do ponto A ao ponto B, origem e destino, sendo considerado, apenas, um meio de transporte. Isso já foi uma revolução, num tempo em que o transporte era realizado pelo uso de animais, dentre eles boi, cavalo e burros. No princípio, a subida da Serra do Mar, entre o porto de Santos e a cidade de São Paulo era transcorrida por burros, carregados de mercadorias.

Durante a introdução do veículo a combustão em nosso dia a dia, tudo mudou. Mesmo assim, ainda era visto, apenas, como um meio de locomoção. Tome-se como exemplo o ônibus. Sua configuração básica era formada por assentos, com pouca proteção, mas que foi sofrendo um processo de evolução. Dessa maneira, com o tempo as mudanças começaram a surgir pelas novas necessidades, quando o transporte deixou de ser, somente, um meio de locomoção para agregar conforto e praticidade.

O progresso foi expressivo no modal, com o surgimento de serviço de bordo, o passageiro visto como cliente “consumidor”, a chegada da era da tecnologia e de uma configuração personalizada, com poltronas mais confortáveis, ar-condicionado, WC e televisão com vídeo cassete e comunicação digital.

Atualmente, sala VIP, compra de passagem por aplicativo, localização do veículo em tempo real, poltronas que são verdadeiras camas e veículos cada vez mais sofisticados, silenciosos, muito menos poluentes, são fatores que resultam em viagens mais confortáveis e seguras.

Tecnologia que promove uma condução mais segura

Mas, de tudo que foi descrito, não podemos esquecer da parte mais importante e interessada que é o condutor dos veículos, sim o motorista, pois sem ele não teríamos nada disso. Nessa evolução, ele foi a pessoa que mais se beneficiou com todas as mudanças, num ambiente que viu a substituição dos veículos simples operados sem suporte algum durante os trajetos, por uma nova realidade na logística do transporte

Hoje, a realidade é outra. Me lembro, quando eu ainda era motorista de caminhão, fazendo o trajeto entre o porto de Santos e a cidade de Jundiaí num caminhão Scania, modelo 110, apelidado de João de Barro, uma cabine extremamente pequena, equipado com o motor que chegava nos seus 170cv. O percurso era realizado em seis horas.

Na cabine, não havia luxo, muito menos equipamentos essenciais para auxiliar-nos. Tínhamos que ter uma boa audição para perceber todo e qualquer barulho anormal. Os veículos de hoje, literalmente, conversam com o motorista. Em termos de segurança, a telemetria embarcada ajuda não somente na leitura da operação do veículo, mas, também, na condução do motorista. No caso dos ônibus, isso reflete para o passageiro, proporcionando mais segurança e conforto durante as viagens. Tal recurso, também, contribui com a viagem, corrigindo a condução fora do padrão, sujeitas às infrações no Código Brasileiro de Trânsito.

Em termos de aferição técnica, segurança e controle operacional temos muitos recursos, como as câmeras de videomonitoramento que auxiliam, tanto o motorista quanto a gestão da operação, fazendo uma leitura das sinalizações de trânsito, placas, faixas de rolagem, identificação de objetos a frente. As ferramentas já diferenciam pedestres de veículos. Já os retrovisores estão cedendo lugar à sistemas de câmeras, capaz de ler um maior raio de visão, fornecendo imagens de pontos cegos, informando sobre distância entre veículos, auxiliando em manobras auxiliares e indicando a distância do objeto que se encontra atrás do veículo.

Controle operacional que favorece os serviços seguros

Os sistemas de Inteligência Embarcada nos veículos estão a cada dia mais promissores em questão de segurança, pois se antes tínhamos uma visão operacional do trajeto do veículo, hoje temos uma visão estratégica e conseguimos com mais exatidão maximizar a operação, reduzindo tempo de viagem e consumo de combustível (com consequências positivas na redução das emissões). Além disso, os novos veículos trazem a motorização Euro VI, bem menos poluente do que a geração anterior. Para se ter uma ideia sobre isso, o nível de fuligem (fumaça preta), após realizarmos o teste de opacidade, ele é muito inferior, não chega nem os 5% do nível máximo que poderia chegar.

A evolução não para. Hoje, os novos ônibus utilizam de algoritmos para processar dados entre os módulos eletrônicos embarcados, objetivando um conhecimento mais detalhado da operação. Por exemplo, se em determinado trecho da rodovia com subida, ela identifica se vai exigir mais potência do motor e qual marcha utilizar, sempre pensando na redução do consumo de combustível e no menor desgaste de componentes, sem ter muita intervenção do condutor, deixando-o mais atento a condução e variáveis que surgem.

Com a telemetria é possível fazer o mapeamento de todo o percurso que o veículo transite, com informações relevantes, subidas ou descidas íngremes, curvas acentuadas, proporcionado à gestão um mapa virtual com todas as informações essenciais para uma condução segura e eficiente.

Para as descidas há a opção de ajustes da tecnologia visando o controle da velocidade do freio auxiliar por meio do retarder, que é acionado conforme o operador programar, resultando em eficiência na frenagem, reduzindo desgaste de componente do freio, gerando segurança e conforto para os passageiros.

E, falando em freio, os ônibus já estão sendo equipados com sistema ainda mais eficiente, atuando diretamente no motor, reduzindo sua velocidade muito mais rápido e suave.

 Conclusão

Para os passageiros, os benefícios, também, ficam evidentes com a simples presença do monitoramento para uma análise operacional, contribuindo assim para uma condução mais estável, segura e previsível. Dessa maneira, a possibilidade de identificar comportamentos de risco e atuar preventivamente reduz a probabilidade de incidentes e melhora a qualidade do serviço prestado.

O uso da inteligência artificial (IA) vai muito além do simples monitoramento do veículo, representando ser uma ferramenta estratégica que permite transformar dados operacionais em informação útil para a tomada de decisão. A partir da coleta e análise desses dados, gestores conseguem identificar padrões de condução, avaliar o desempenho da frota do operador e implementar ações que aumentam a eficiência e a segurança das operações.

Ferramentas que contribuem com a produtividade da operação

Pensando no ponto de vista do motorista, a telemetria e os sistemas de inteligência embarcada representam um importante aliado. Sensores e sistemas de análise conseguem identificar eventos como fadiga, desatenção, não uso do cinto de segurança e diversos comportamentos proibidos por lei.

A tecnologia, também, consegue gerar alertas de frenagens bruscas, acelerações excessivas ou condução em condições que podem representar risco, tudo isso gerando imagens para torre de controle, avisos sonoros e mensagens para o operador do veículo. Essas informações auxiliam em programas de treinamento mais específicos e contribuem para a construção de padrões de condução mais seguros e eficientes.

Imagens – Acervo pessoal

*Rodnei Quinello é administrador e bacharel em Direito, com pós-graduação em Logística Empresarial. Atua há mais de 30 anos no setor de transporte, com experiência desde a condução profissional até a gestão de frotas. Ele é criador do canal de YouTube, Vida de Frota, dedicado à análise técnica e estratégica do transporte.

 

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