O transporte público como eixo de desenvolvimento

Trata-se, portanto, de uma infraestrutura social crítica, cuja relevância ultrapassa o universo dos seus usuários diretos

*Rubens Fernandes

A criação do Dia Mundial do Transporte Público, acompanhada no Brasil pela campanha “O Brasil é Coletivo”, promovida pela NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos), surge em um momento particularmente simbólico para o debate sobre mobilidade urbana no país.

Mais do que uma iniciativa de valorização, trata-se de um convite, ou, mais precisamente, de um chamado à revisão do papel que o transporte coletivo ocupa nas decisões estruturais das cidades brasileiras.

Ao longo das últimas décadas, consolidou-se no Brasil um modelo de mobilidade que, na prática, priorizou o transporte individual motorizado.

Essa escolha, ainda que não formalizada como política única, produziu efeitos concretos e amplamente conhecidos: congestionamentos persistentes, aumento dos níveis de emissão de poluentes, perda de eficiência econômica e aprofundamento das desigualdades no acesso à cidade. Nesse contexto, o transporte público passou a ser tratado como uma alternativa possível, quando, do ponto de vista técnico e urbano, deveria ocupar posição central.

Os dados são consistentes e reiterados ao longo dos anos. Um único ônibus é capaz de substituir dezenas de automóveis, com impacto direto na ocupação do espaço viário, na fluidez do trânsito e na redução de emissões. Mais do que isso, o transporte coletivo viabiliza o funcionamento das cidades ao garantir o deslocamento diário de milhões de brasileiros para o trabalho, para a escola e para os serviços essenciais.

Trata-se, portanto, de uma infraestrutura social crítica, cuja relevância ultrapassa o universo dos seus usuários diretos.

A campanha lançada pela NTU acerta ao reposicionar o transporte público não apenas como um serviço, mas como um elemento estruturante do desenvolvimento urbano. Ao afirmar que “o Brasil é coletivo”, a iniciativa sintetiza uma realidade objetiva: a mobilidade nas cidades brasileiras depende, em larga escala, de soluções compartilhadas. No entanto, essa constatação ainda não se traduz, de forma consistente, em prioridade nas políticas públicas.

O setor enfrenta hoje desafios estruturais que não podem ser ignorados.

A queda no número de passageiros observada nos últimos anos, combinada ao aumento expressivo dos custos operacionais, em especial os relacionados a combustíveis e à manutenção de um modelo de financiamento excessivamente dependente da tarifa paga pelo usuário, pressiona a sustentabilidade dos sistemas de transporte coletivo em todo o país. Esse cenário tende a gerar um ciclo negativo, no qual a perda de demanda impacta a qualidade do serviço, que por sua vez afasta ainda mais os usuários.

Diante disso, torna-se indispensável avançar na construção de um novo modelo para o financiamento e a organização do transporte público.

O debate em torno do Marco Legal do Transporte Público Coletivo representa uma oportunidade concreta de equilibrar essa equação, ao reconhecer o transporte como um direito social e estabelecer mecanismos mais adequados de custeio, que distribuam responsabilidades entre poder público, usuários e a sociedade como um todo.

Paralelamente, é fundamental que as cidades adotem medidas efetivas de priorização do transporte coletivo no espaço urbano.

A implantação de corredores exclusivos, a ampliação da integração tarifária, o uso de tecnologias para gestão e planejamento e a diversificação das fontes de financiamento são caminhos já conhecidos e amplamente debatidos. O desafio, nesse caso, não reside na formulação das soluções, mas na capacidade de implementá-las de forma contínua e coordenada.

O Brasil possui experiências relevantes que demonstram a viabilidade dessas estratégias. Modelos consolidados de organização do transporte coletivo e iniciativas recentes voltadas à ampliação do acesso indicam que há conhecimento técnico acumulado e exemplos concretos a serem observados. O que se impõe, neste momento, é a necessidade de escala e de alinhamento entre diferentes níveis de governo.

A campanha “O Brasil é Coletivo” cumpre um papel relevante ao recolocar essa discussão no centro do debate público. No entanto, o desafio que se apresenta vai além da sensibilização. Trata-se de transformar o reconhecimento da importância do transporte coletivo em decisões concretas, capazes de redefinir prioridades e orientar investimentos.

O futuro das cidades brasileiras está diretamente relacionado à forma como escolhemos nos mover. E essa escolha passa pelo fortalecimento do transporte público como eixo estruturante do desenvolvimento urbano.

Imagens – Divulgação

*Rubens Fernandes é consultor de relações institucionais da Busvale

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