*Alberto Meyer
Por muitos anos, o debate sobre transporte de passageiros concentrou-se em temas tradicionais: renovação de frota, eletrificação, aumento do diesel, tarifas, escassez de motoristas e custos de manutenção.
Agora surge uma variável potencialmente tão impactante quanto todas estas juntas: a mudança estrutural das jornadas de trabalho.
A possível migração de modelos tradicionais de escala — historicamente construídos sobre arranjos próximos do 6×1 — para estruturas 5×2 representa muito mais do que uma alteração trabalhista. Representa uma mudança profunda na engenharia operacional das empresas.
A pergunta central talvez não seja se a mudança é socialmente desejável.
A pergunta operacional é: quanto custa operar com ela?
O transporte é uma atividade contínua
Diferentemente de diversos setores econômicos, empresas de transporte não podem interromper suas atividades aos finais de semana ou reduzir sua capacidade nos horários críticos.
Ônibus urbanos operam frequentemente entre 18 e 24 horas por dia.
Fretamento depende de horários rígidos.
Rodoviário trabalha com viagens longas e janelas reduzidas.
Isso significa que pequenas alterações na disponibilidade individual dos trabalhadores produzem grandes efeitos sistêmicos.
Menos horas disponíveis por colaborador normalmente significam:
- mais motoristas;
- mais folguistas;
- maior complexidade de escalas;
- maior necessidade de reservas operacionais;
- menor produtividade individual.
O resultado aparece rapidamente nos custos.
O impacto começa na matemática operacional
Imagine uma operação urbana com:
- 22 ônibus ativos;
- 18 horas de operação diária;
- operação contínua sete dias por semana.
Isso gera aproximadamente:
11.880 horas mensais de operação.
Num cenário simplificado:
Escala tradicional:
Disponibilidade aproximada: 190 horas/mês por motorista.
Necessidade: 63 motoristas.
Escala 5×2:
Disponibilidade: 161 horas/mês.
Necessidade: 74 motoristas.
Resultado: 11 motoristas adicionais.
Em operações maiores, o crescimento pode ser significativamente superior.
E o custo não para no salário.

O efeito cascata nos custos
Cada novo motorista adiciona:
- encargos;
- benefícios;
- treinamento;
- medicina ocupacional;
- uniformes;
- gestão;
- cobertura de férias;
- reserva operacional.
O aumento da mão de obra tende a impactar diretamente:
- custo/km;
- custo por passageiro;
- tarifa técnica;
- EBITDA;
- capital de giro;
- TCO.
Em operações urbanas deficitárias, isso pode pressionar ainda mais a necessidade de subsídios.

Urbano, fretamento e rodoviário: impactos diferentes
Transporte urbano
Provavelmente será o segmento mais pressionado.
Motivos:
- elevada intensidade de mão de obra;
- operação contínua;
- baixa flexibilidade tarifária.
Fretamento
O principal desafio será comercial.
Mais custos podem significar:
- renegociação de contratos;
- aumento do custo por rota;
- redução de competitividade.
Rodoviário e turismo
As dificuldades aparecem em:
- viagens longas;
- escalas complexas;
- aumento da necessidade de motoristas reservas.
Em determinadas operações, o efeito sobre produtividade pode ser significativo.

O desafio real: reconstruir produtividade
O setor provavelmente precisará compensar parte dessa pressão por meio de:
- revisão de escalas;
- redução de tempos mortos;
- telemetria;
- automação;
- melhor planejamento operacional;
- digitalização;
- redesenho das redes.
Não se trata apenas de contratar mais pessoas.
Trata-se de operar de maneira diferente.
Considerações finais
O debate sobre jornadas normalmente ocorre sob perspectivas trabalhistas, jurídicas ou sociais.
Mas transporte coletivo é, acima de tudo, um sistema operacional.
Modificar jornadas altera:
- custos;
- capacidade;
- produtividade;
- tarifas;
- competitividade.
A mudança pode representar avanços importantes para qualidade de vida dos trabalhadores.
Mas também exigirá uma profunda revisão dos modelos operacionais utilizados hoje pelas empresas.
A pergunta que fica para operadores, gestores públicos e contratantes é simples:
O setor está preparado para recalcular toda a engenharia operacional do transporte?

Quanto pode custar migrar de 6×1 para 5×2?
Exemplo simplificado de operação urbana hipotética
Premissas:
- 22 ônibus ativos;
- operação diária: 18 horas;
- operação: 30 dias/mês;
- multiplicador trabalhista: 1,78;
- jornada líquida média: 7,33 h/dia.
Passo 1 – Horas operacionais necessárias:
22 ônibus × 18 h/dia × 30 dias = 11.880 horas/mês
Cenário A – Escala 6×1
Disponibilidade aproximada por motorista:
26 dias trabalhados/mês
26 × 7,33 ≈ 190 h/mês
Necessidade estimada: 11.880 ÷ 190 ≈ 63 motoristas
Cenário B – Escala 5×2
Disponibilidade aproximada: 22 dias trabalhados/mês 22 × 7,33 ≈ 161 h/mês
Necessidade estimada: 11.880 ÷ 161 ≈ 74 motoristas
Resultado da mudança:
Motoristas adicionais: +11 profissionais
Aumento aproximado: +17,5%
Exemplo simplificado de impacto financeiro
Custo total mensal médio por motorista: R$ 7.500
Impacto estimado: 11 × R$ 7.500 ≈ R$ 82.500/mês
Impacto anual: ≈ R$ 990.000/ano
Possíveis impactos secundários:
↑ custo/km
↑ tarifa técnica
↑ capital de giro
↑ necessidade de reservas operacionais
↓ produtividade por motorista
↓ EBITDA operacional

Conclusão:
Pequenas alterações na disponibilidade individual podem produzir grandes impactos econômicos em operações contínuas de transporte.
“A matemática da jornada: por que poucos dias a menos podem custar quase R$ 1 milhão ao ano?”

*Alberto Meyer é graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual Júlio De Mesquita Filho (UNESP), como um extenso portfólio de cursos de especialização na área automotiva















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