Próxima parada: embarcando no trem-bala da China

"A principal lição de Shanghai não é simplesmente instalar câmeras ou portões automáticos. É redesenhar o processo de embarque para que tecnologia, segurança e operação funcionem como uma única jornada"

*André Heidrich Rodeghiero

Depois de conhecer a dimensão da Estação Shanghai South, chegou o momento de embarcar. É justamente nessa etapa que se percebe como tecnologia, infraestrutura e organização operacional foram combinadas para movimentar milhares de pessoas com rapidez, segurança e pouca fricção.

No Brasil, estamos acostumados a associar o embarque a filas, conferências manuais, apresentação de documentos, leitura de bilhetes e diferentes interações com funcionários.

Em Shanghai, boa parte desse processo foi incorporada aos próprios portões de acesso. A estação é organizada em níveis. Na parte superior ficam os painéis de informação, as salas de espera, os banheiros, as opções de alimentação e os acessos aos portões. Os trens permanecem nas plataformas inferiores e os passageiros só descem quando o embarque de sua viagem é liberado. Dessa forma, o fluxo é distribuído e cada grupo avança para a plataforma no momento adequado.

No vídeo, acompanhamos uma passageira durante esse processo. Ela se aproxima do portão, posiciona-se diante da câmera e o sistema inicia a verificação. A tecnologia compara as informações associadas à viagem com a identidade apresentada e com a imagem captada naquele momento. Após a confirmação, a barreira é liberada automaticamente e a passageira segue para o trem.

Tudo acontece em poucos segundos.

O mais interessante é que não existe uma demonstração teatral de tecnologia. Não há um funcionário explicando cada etapa nem uma sucessão de procedimentos complexos. A inovação está incorporada ao processo e, justamente por isso, torna-se quase invisível. O passageiro apenas se aproxima, é validado e segue viagem.

Essa fluidez ganha ainda mais relevância quando consideramos a escala da operação. A Shanghai South tem movimento médio estimado de 50 mil passageiros por dia, aproximadamente 1,5 milhão por mês. Mesmo com esse volume, o embarque não depende da conferência manual de cada bilhete por uma grande equipe.

Os portões automatizados permitem que várias pessoas sejam processadas simultaneamente, enquanto os funcionários ficam disponíveis para orientar estrangeiros, atender passageiros com dificuldade, solucionar exceções e intervir quando realmente necessário. A tecnologia não elimina completamente o atendimento humano. Ela retira das pessoas as tarefas repetitivas e libera as equipes para situações nas quais sua presença acrescenta mais valor.

Também existe um componente importante de segurança. O sistema não verifica apenas se existe uma passagem válida. Ele busca confirmar se a pessoa que está embarcando corresponde ao passageiro vinculado àquela viagem. Isso reduz o risco de uso indevido de bilhetes, dificulta fraudes e cria maior rastreabilidade sobre quem acessou determinada plataforma ou trem.

Para o transporte rodoviário brasileiro, essa experiência abre uma discussão que vai além da comparação entre ônibus e trem. Muitas empresas já vendem bilhetes digitais, utilizam QR Codes e permitem que o passageiro compre sua passagem pelo celular. Entretanto, em diversos terminais, a etapa final ainda depende de procedimentos manuais, conferências demoradas e processos diferentes para cada empresa.

Precisamos pensar no embarque como parte de uma jornada integrada. O passageiro poderia comprar sua passagem digitalmente, chegar ao terminal, validar automaticamente sua identidade ou seu bilhete e seguir para a plataforma correta. Sistemas conectados também poderiam confirmar o embarque em tempo real, atualizar listas de passageiros, reduzir erros, aumentar a segurança e produzir dados mais confiáveis para a operação.

Os benefícios não seriam apenas percebidos pelo cliente. Embarques automatizados podem diminuir filas, reduzir retrabalho, evitar divergências, tornar mais eficiente a alocação das equipes e diminuir custos operacionais. Funcionários hoje dedicados exclusivamente à leitura e à conferência de bilhetes poderiam assumir atividades de orientação, atendimento e apoio ao passageiro.

Naturalmente, a aplicação no Brasil precisa respeitar nossa legislação, a proteção de dados pessoais, a diversidade dos terminais e as diferentes realidades das empresas. Nem toda solução precisa começar com reconhecimento facial. QR Codes dinâmicos, documentos digitais, catracas inteligentes e integração entre sistemas já poderiam representar avanços importantes.

A principal lição de Shanghai não é simplesmente instalar câmeras ou portões automáticos. É redesenhar o processo de embarque para que tecnologia, segurança e operação funcionem como uma única jornada.

Em um terminal que movimenta 50 mil pessoas por dia, embarcar parece simples. E talvez essa seja a melhor definição de uma inovação bem implementada: por trás existe uma estrutura tecnológica complexa, mas, para o passageiro, basta chegar, ser reconhecido e seguir viagem.

Nós da Vulcano Mobility já temos um projeto piloto que redesenha justamente esse embarque no transporte rodoviário. Se quiser saber mais a respeito entre em contato comigo no andre@vulcanomobility.com.

Imagens – Acervo pessoal

*André Heidrich Rodeghiero é diretor da Vulcano Mobility e atua no desenvolvimento de projetos de inovação, tecnologia e novos negócios para o transporte de passageiros. Viajante por natureza, já conheceu cerca de 60 países e viveu no exterior por quase uma década. De volta ao Brasil, busca aplicar ao setor de mobilidade toda essa bagagem multicultural, somada à sua experiência profissional e a diversas certificações nacionais e internacionais em inovação e transporte.

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