*Por Beatriz Lima
Durante muito tempo, viajar de ônibus rodoviário no Brasil foi tratado como uma espécie de “opção B”. Era a alternativa possível, quando o avião não chegava, quando o preço da passagem aérea era inviável ou quando o deslocamento parecia curto demais para justificar um voo. Esse olhar, além de ultrapassado, ignora uma transformação profunda e silenciosa do transporte rodoviário regular e revela mais preconceito social do que análise real de mobilidade. Sendo assim, ele deixou de ser alternativa. Tornou-se escolha.
Hoje, o transporte rodoviário responde por cerca de 60 milhões de viagens interestaduais por ano no Brasil, conectando mais de 3.000 municípios, muitos deles fora de qualquer rota aérea regular. Não se trata apenas de volume, mas de capilaridade. Enquanto o modal aéreo concentra sua atuação em grandes centros urbanos, o ônibus sustenta a mobilidade cotidiana do país real, integrando regiões, viabilizando economias locais e garantindo o fluxo contínuo de pessoas, trabalho e turismo.
Essa presença constante talvez explique por que o setor seja tão pouco percebido. O transporte rodoviário funciona tão bem que se torna invisível. Só chama atenção quando algo foge da normalidade — nunca quando cumpre, diariamente, sua função com eficiência.

A frequência de turistas estrangeiros aumentou no transporte rodoviário nacional, aspecto de grande importância para o turismo brasileiro
A ideia de que o ônibus ocupa um lugar secundário, também, não resiste à evolução do serviço oferecido. Nos últimos anos, as empresas rodoviárias regulares investiram bilhões de reais não apenas na renovação de frota, tecnologia embarcada, conforto e segurança, mas também na qualificação da infraestrutura que sustenta a viagem. Leito-cama, poltronas de alto padrão, Wi-Fi, entretenimento individual, climatização inteligente e atendimento qualificado passaram a integrar a experiência do passageiro, ao mesmo tempo em que grandes rodoviárias do País avançaram em modernização, acessibilidade, segurança, serviços e integração urbana. Terminais rodoviários em capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Fortaleza deixaram de ser apenas pontos de embarque e desembarque para se tornarem verdadeiros hubs de mobilidade, estruturados com uma grande gama de serviços para receber volumes expressivos de passageiros, inclusive turistas nacionais e estrangeiros. Em viagens de curta e média distância, esse conjunto (ônibus modernos e rodoviárias mais estruturadas) oferece, com frequência, uma experiência mais previsível, confortável e racional do que o transporte aéreo.

Grandes terminais rodoviários deixaram de ser locais inseguros e se transformaram em espaços refinados e cômodos
No turismo, essa mudança de percepção começa a ganhar espaço, mas ainda de forma tímida. Grande parte do debate sobre turismo nacional segue concentrada no momento da chegada do visitante ao País, quando, na prática, a experiência turística só se completa a partir da circulação interna. É nesse ponto que o transporte rodoviário assume um papel decisivo e, ainda, pouco valorizado no discurso público.
Dados oficiais do Ministério do Turismo e da Embratur indicam que cerca de 28% a 30% dos turistas estrangeiros entram no Brasil por transporte terrestre, enquanto aproximadamente dois terços chegam por via aérea. Esse recorte, muitas vezes pouco explorado, revela que uma parcela relevante do turismo internacional já se relaciona diretamente com a infraestrutura rodoviária desde a porta de entrada no país. Mais do que isso, mesmo entre os visitantes que chegam de avião, o deslocamento interno passa, de forma crescente, pelo transporte rodoviário regular.

Serviços diferenciados, como o que a Viação Garcia está proporcionando, visam atrair e conquistar o passageiro
Turistas internacionais que desembarcam em grandes portas de entrada do Brasil costumam utilizar o ônibus para explorar destinos próximos, regiões turísticas consolidadas e experiências fora dos grandes centros urbanos. No Rio de Janeiro, por exemplo, visitantes que chegam por via aérea seguem viagem pelas rodovias para a Costa Verde, a Costa do Sol, a Região Serrana e outros destinos que não contam com malha aérea regular, mas que são fundamentais para o turismo fluminense e nacional. Indicadores operacionais apontam que, nos últimos anos, houve um crescimento aproximado de 12% no número de turistas internacionais circulando pelas rodoviárias da cidade, refletindo o fortalecimento desses terminais como elos entre a chegada ao país e a experiência turística plena.
O ônibus, nesse contexto, atua como elo natural entre o ponto de chegada e a experiência turística plena. É ele que amplia a permanência do visitante, distribui fluxos, fortalece economias locais e permite que o turismo se espalhe para além dos grandes cartões-postais. Sem o transporte rodoviário regular, grande parte do turismo regional simplesmente não aconteceria.
Ainda assim, essa engrenagem segue operando de forma quase invisível. Valoriza-se, com razão, quem conecta o Brasil ao mundo, mas fala-se pouco sobre quem sustenta a mobilidade interna e garante que o visitante circule com segurança, conforto e previsibilidade pelas regiões brasileiras.

Hoje, há muitas configurações internas dos ônibus disponibilizadas pelas operadoras
O perfil do passageiro mudou, incluindo o do turista estrangeiro. Viajar de ônibus no Brasil passou a ser uma escolha racional, alinhada a uma mobilidade mais integrada, eficiente e compatível com um país de dimensões continentais. Em um cenário de aeroportos congestionados, tarifas instáveis e processos cada vez mais complexos, o transporte rodoviário se consolida como parte essencial da experiência turística.
Há, também, um aspecto estrutural que raramente aparece no debate público: segurança e responsabilidade. As empresas rodoviárias regulares operam sob rígidos protocolos de fiscalização, manutenção preventiva, controle de jornada e monitoramento contínuo. Essa base garante não apenas a mobilidade cotidiana de milhões de brasileiros, mas, ainda, a circulação segura de turistas nacionais e internacionais.
Viajar de ônibus hoje é uma decisão consciente, alinhada a uma mobilidade mais inteligente e a um turismo mais conectado à realidade do Brasil. Reconhecer o papel do transporte rodoviário no turismo nacional não é uma disputa entre modais, mas um passo necessário para uma visão mais completa, integrada e madura da mobilidade brasileira.
O ônibus não é o futuro da mobilidade e do turismo no Brasil. Ele sempre foi o presente, com uma constante evolução suficiente para exigir um novo olhar.

*Beatriz Lima é jornalista há quase 30 anos no transporte rodoviário. Atualmente, é editora da Revista ABRATI, atuando, também, na comunicação de empresas como a Guanabara e Rodoviária do Rio S/A, Socicam, compartilhando insights sobre mobilidade e comunicação
Imagens – Divulgação












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