Por *Beatriz Lima
Uma comitiva italiana do setor rodoviário de passageiros, formada por cerca de 20 empresários ligados à ANAV, associação que reúne operadores e entidades patronais do setor regular sediada em Roma, esteve no Brasil entre os dias 2 e 4 de março. A missão teve um objetivo claro: conhecer de perto a experiência brasileira e compartilhar práticas capazes de ampliar a cooperação entre os dois países.
A missão teve como foco principal o Rio de Janeiro, onde a agenda envolveu apresentações institucionais e debates sobre o funcionamento do setor, em um encontro realizado no hotel Copacabana Palace, além de visitas técnicas a terminais e reuniões com representantes de entidades locais. Mais do que um encontro protocolar, o intercâmbio transformou-se em um espaço de troca de experiências entre dois polos da mobilidade rodoviária que, embora geograficamente distantes, enfrentam desafios semelhantes em regulação, escala de operação e qualidade de serviço.
O objetivo é refletir sobre o desenho institucional do transporte rodoviário e sobre como equilibrar mercado, regulação e serviço público, elementos centrais para a qualidade do serviço, a previsibilidade das operações e a inclusão social em um sistema que conecta cidades, economias regionais e milhões de passageiros.
Durante as conversas, destacou-se o contraste entre os modelos regulatórios de Brasil e Itália. Na Itália, a rede de rodovias é amplamente concessionada à iniciativa privada, enquanto o transporte público local é fortemente estruturado pelo poder público. O Ministério da Infraestrutura e Transportes da Itália define as diretrizes nacionais, a ANAS administra parte relevante da malha e a Autoridade de Regulação dos Transportes fiscaliza as concessões. Em nível regional e municipal, as autoridades locais financiam o transporte público, definem rotas e conduzem licitações para a operação, que pode ser executada por empresas públicas, privadas ou de capital misto. O transporte rodoviário de longa distância opera em regime liberalizado, com presença significativa de operadores privados.

Da esquerda para a direita – Roberta Faria, diretora-geral da Rodoviária do Rio; João Henrique de Paula, presidente do Sinfrerj; Martinho Moura, diretor da Anttur; Letícia Pineschi, diretora da Abrati; Nicola Biscotti, presidente da Anav; e Gustavo Rodrigues, CEO do Grupo JCA
No Brasil, embora haja regulação, a divisão de competências entre União, estados e municípios cria assimetrias institucionais que, frequentemente, dificultam a padronização de regras e a governança uniforme. A geografia de cada país, também, molda o desenho do sistema: na Itália, as distâncias entre centros urbanos tendem a ser menores e há forte integração com a rede ferroviária; no Brasil, os trajetos entre regiões são longos, o que impacta diretamente a organização das operações de transporte rodoviário de passageiros. Um ponto citado durante a visita foi a presença massiva de ônibus de dois andares nas linhas de média e longa distância brasileiras, uma solução que alia maior capacidade e conforto para deslocamentos entre capitais que podem superar vinte horas de viagem. Na Itália, esse tipo de veículo não é utilizado no transporte regular, já que muitas rotas de longa duração são atendidas por trens.
Nas visitas técnicas às rodoviárias Rodoviária do Rio e Terminal Tietê, as duas maiores em movimentação de passageiros da América Latina, a comitiva pôde conhecer, in loco, a evolução da gestão desses complexos, hoje hubs centrais de mobilidade urbana e regional. Na Itália, os terminais costumam ser administrados por empresas municipais ou por operadores privados com forte integração com o sistema ferroviário, dando prioridade para a intermodalidade e para o uso de tecnologia na organização dos fluxos de passageiros e das informações operacionais.

Na Rodoviária do Rio, a diretora, Roberta Faria e toda a equipe, receberam o grupo numa visita guiada ao terminal
Os empresários italianos destacaram que a eficiência de um terminal depende menos da arquitetura e mais da capacidade de integrar sistemas de informação, horários e serviços. Ferramentas como bilhetagem integrada, painéis digitais e plataformas de gestão de fluxo são fundamentais para melhorar a experiência do passageiro e aumentar a eficiência operacional.
Nesse ponto, os gestores das rodoviárias do Rio de Janeiro e de São Paulo puderam apresentar suas infraestruturas modernas, que vão além das funções de embarque e desembarque e oferecem uma gama de comodidades ao viajante. Entre elas estão a ampliação de centros comerciais, com lojas e mix variado de serviços, além de tecnologias que orientam suas operações, como os Centros de Controle Operacional (CCOs).

Em São Paulo, a comitiva foi recebida pelo diretor da Socicam Rodrigo Fernandes em visita ao CCO do Terminal Tietê
No Rio, por exemplo, as câmeras que monitoram todo o terminal estão integradas ao Comando da Polícia Militar e contam com sistemas de reconhecimento facial, o que amplia ainda mais a segurança dos passageiros.
O espírito da missão esteve fortemente associado à cooperação institucional. Como pontuou a diretora-geral da Abrati, Letícia Pineschi, na ocasião, o diálogo permanente entre entidades de diferentes países é um instrumento importante para identificar soluções comuns em temas como regulação, formação de profissionais, padrões de serviço e interoperabilidade tecnológica. O intercâmbio entre as duas associações abre caminho para novas iniciativas de cooperação técnica e benchmarking, capazes de contribuir para avanços em previsibilidade regulatória, qualidade de serviço e integração entre modais.

Letícia Pineschi – Intercâmbio pode trazer conhecimento e troca de experiências em operação e no atendimento aos passageiros
Em última análise, o principal resultado desse tipo de encontro é a ampliação de perspectivas: ao comparar experiências e reconhecer diferenças estruturais entre os sistemas, o setor fortalece a capacidade de adaptar princípios de governança, inovação e gestão ao contexto brasileiro, sempre com foco no passageiro que move pessoas, cidades e economias.
Imagens – Divulgação

*Beatriz Lima é jornalista há quase 30 anos no transporte rodoviário. Atualmente, é editora da Revista ABRATI, atuando, também, na comunicação de empresas como a Guanabara e Rodoviária do Rio S/A, Socicam, compartilhando insights sobre mobilidade e comunicação












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