O Vai de Graça, programa de gratuidade no transporte coletivo do Distrito Federal (DF), que é aplicado aos domingos, feriados e datas festivas, foi o responsável pelo aumento da demanda de passageiros em até 70% nos sistemas de ônibus e metrô, segundo dados da Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana. O fato confirma o peso do valor das tarifas no orçamento das famílias, principalmente em regiões administrativas que concentram famílias mais pobres.
Carla Brito Furlan Pourre, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), reafirma que o modelo de financiamento baseado majoritariamente na tarifa paga pelo usuário acaba restringindo o exercício do direito à cidade. “Quando o custo do deslocamento consome uma parcela significativa da renda familiar, o acesso a saúde, educação, cultura e lazer também se torna limitado. A adesão massiva ao Vai de Graça sinaliza que havia uma população excluída do uso pleno do transporte público por razões puramente econômicas”, ressaltou.
Ela, que é mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional, fundamenta sua análise em dados obtidos por meio da aplicação empírica do sistema de indicadores desenvolvido em sua dissertação de mestrado na UnB, sendo que a metodologia permitiu avaliar o comprometimento da renda familiar com transporte público sob a perspectiva da equidade socioespacial. “Em regiões administrativas do DF como a do SCIA (Setor Complementar de Indústria e Abastecimento), os resultados da pesquisa mostram que o comprometimento da renda das famílias mais pobres com transporte chega a 37%. Em regiões como Paranoá, Recanto das Emas, Fecal e Varjão, esse peso alcança um quarto (25%) da renda”, disse.

Carla Brito Furlan Pourre
A Secretaria de Mobilidade do DF ressaltou que antes do Vai de Graça o sistema de transporte urbano local transportava cerca de 270 mil pessoas aos domingos. Com a tarifa zero domingueira, esse número saltou para 500 mil, crescimento de 70%. “Esse aumento não representa apenas ampliação ocasional da demanda, mas a materialização de uma demanda reprimida estruturalmente associada ao peso da tarifa no orçamento familiar”, observou Carla.
E, para ela, a experiência do DF mostra que é preciso, primeiro, buscar meios de aliviar o custo da passagem para o usuário e, também, redefinir o modelo de financiamento do transporte público, hoje no Brasil baseado na tarifa cobrada do passageiro. “Encontrar o valor de tarifa equilibrado que consiga atender aos anseios tanto da população como da governança urbana é um grande desafio discutido por muitos pesquisadores, e mesmo gestores públicos. Discutir transporte é discutir inclusão social, desenvolvimento econômico e qualidade de vida. Diante da expansão dos programas de gratuidade e da centralidade do tema na agenda pública, é natural que o debate sobre financiamento e tarifa zero esteja presente na campanha eleitoral deste ano”, concluiu a pesquisadora.
Imagens – Revista AutoBus e Divulgação












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