Goiânia lembra que o transporte urbano precisa destacar as diversidades energéticas

O sistema de transporte coletivo da capital goiana recebe seus primeiros ônibus movidos a biometano e destaca as variedades de energia para propulsionar seus veículos

Goiânia vem se tornando uma referência em termos de transporte coletivo urbano, fazendo sua lição de casa para resgatar um setor que se encontra em momento crítico e que, ao mesmo tempo, é protagonista na mobilidade dos brasileiros.

A cidade e seu entorno passaram por uma crise que afetou, negativamente, toda a estrutura e os serviços realizados, prejudicando o deslocamento de milhares de pessoas e o cotidiano da região envolvida. Contudo, após um esforço conjunto entre poder público e operadores, a situação começou a mudar, quando investimentos contínuos em frota e infraestrutura foram colocados à prova.

Na visão dessa iniciativa ficou destacado que não é possível aguardar o que as gestões públicas têm a realizar, dependendo das poucas ações políticas que se interessam, realmente, em proporcionar um novo olhar sobre o transporte coletivo. Edmundo Pinheiro, presidente da HP Mobilidade, uma das operadoras do sistema de Goiânia, é enfático ao dizer que a mobilização em prol do resgate da imagem do transporte coletivo da capital goiana só foi possível pela sinergia daqueles que promovem a mobilidade coletiva dos goianienses e região do entorno. “O transporte público tem passado por constantes momentos negativos desde 2013, quando movimentos sociais fizeram críticas e mobilizações contundentes a respeito da qualidade e da situação do modal no Brasil. Com isso, a demanda de passageiros só caiu, o setor veio se descapitalizando e o modelo de remuneração da operação, baseado nas tarifas, ficou no passado. Além disso, o processo de individualização do transporte ganhou corpo e a pandemia de Covid, mais recentemente, contribuíram com a piora dos sistemas. Dessa maneira, todas as cidades sentiram os efeitos da falta de prioridade ao modal”, explicou.

Segundo ele, o transporte coletivo precisa estar no mesmo patamar que a saúde, a segurança e a educação, pois tem um papel fundamental no desenvolvimento urbano, é importante e precisa ser valorizado com políticas públicas nacionais. “A indústria do transporte e seus agentes, seja da área de produção de veículos, de tecnologia, da gestão, da operação precisam estar atuando juntos, formando uma aliança para o resgate da imagem degradada dos serviços. Há 15 anos estamos numa estagnação que precisa ser revertida para o bem da mobilidade”, disse Edmundo.

E é o que está acontecendo com Goiânia, que por meio do trabalho em conjunto entre os governos do estado, dos municípios da área do entorno da capital e dos operadores, conseguiram, nos últimos tempos modificar a imagem negativa do sistema, com iniciativas que impactam positivamente nos deslocamentos das pessoas. “O que estamos fazendo é um processo de transformação, que objetiva a nova mobilidade em Goiás, servindo de exemplo para outras cidades do Brasil. Nós fomos além, buscando formas diferentes de financiamento e de investimentos adotando, também, políticas de remuneração diferentes daquelas que são usualmente aplicadas, o que favorece os usuários do sistema”, afirmou Edmundo que, ainda, é presidente do conselho da NTU.

Para o executivo, a qualificação do transporte é fundamental para que a sociedade use o modal, atendendo a três requisitos: inclusão, financiamento e operação prioritária. “A aprovação do Marco Regulatório do Transporte Público se faz necessária para que possamos modernizar os serviços e as operações visando atender todas as camadas da população urbana”, concluiu Edmundo.

Goiânia é uma das poucas cidades que conseguiu reconquistar a demanda de passageiros do período da pré-pandemia. A Nova RMTC consegue atender a cerca de 530 mil usuários por dia em 19 municípios, viabilizada por um modelo integrado entre Estado, prefeituras e concessionárias, com subsídio tarifário que garante equilíbrio econômico e mantém a tarifa em R$ 4,30 desde 2019, ampliando o acesso e a qualidade do transporte público.

A transição energética

Hoje, Goiânia se destaca pelas iniciativas que visam o transporte coletivo livre das emissões poluentes. O sistema local vem investindo no uso de tecnologias de propulsão que não identificam, apenas, o diesel como combustível. Dessa maneira, no processo de descarbonização do transporte, o uso de energéticos alternativos tem sido uma opção na capital goiana.

Após apresentar, há alguns dias, os grandes ônibus com tração elétrica, a Nova Rede Metropolitana de Transporte Coletivo (RMTC) salientou o início das operações dos ônibus movidos a biometano, combustível que no parecer dos gestores locais tem potencial favorável na questão econômica e ambiental.

Os novos ônibus marcam um novo tempo na transição energética do transporte coletivo brasileiro

Com isso, o estado de Goiás avança agora para uma nova fronteira tecnológica e energética, consolidando um modelo de mobilidade que integra inovação, sustentabilidade e impacto social direto. “O projeto do uso de biometano em nossa frota foi desenvolvido pensando na otimização operacional, pois com os veículos dotados dessa tecnologia conseguimos vantagens que extrapolam a própria operação, fomentando a economia goiana ao explorar a produção do combustível renovável. Além disso, a autonomia desses novos veículos a biometano é alta, bem mais que os modelos elétricos, o que nos fez optar. E o ambiente fica favorecido por transformarmos poluição em combustível limpo. Lembrando que, com essa iniciativa, estamos complementando o projeto do BRT mais verde do Brasil, usando diversas fontes energéticas”, avaliou Laércio Ávila, diretor-executivo do Consórcio BRT, entidade que reúne as empresas que compartilham um mesmo propósito: transformar a mobilidade urbana da Região Metropolitana de Goiânia com eficiência, tecnologia e energia limpa.

Segundo ele, a viabilidade econômica é outro fator observado com o uso do biocombustível, com dados equilibrados que foram positivos, após um processo de avaliação, proporcionando essa escolha por meio de uma frota expressiva, podendo chegar a 501 unidades até o final do ano que vem. “Neste momento, estamos utilizando biometano que vem de fora do estado. Porém, quando a usina de Guapó, distante 30 km de Goiânia, estiver produzindo esse combustível renovável, tenho a certeza que os custos serão bem interessantes, podendo fechar a conta num setor que precisa fazer as contas para ter rentabilidade”, disse Ávila.

Outro detalhe é a infraestrutura para o abastecimento do mencionado combustível, com a construção do bioposto Leste, localizado no Terminal Novo Mundo, região Leste de Goiânia, que será o primeiro posto totalmente dedicado a um sistema de transporte coletivo no Brasil operando com biometano. A estrutura contará com sistemas modernos de compressão e abastecimento e deve entrar em operação em abril de 2026.

Os veículos

Os primeiros ônibus com a tecnologia dos motores a biometano são considerados um marco na história do transporte urbano brasileiro, afinal eles significam um novo modelo de descarbonização, podendo se inserir no potencial nacional de produção do biocombustível e contribuir com a sustentabilidade, ambiental e econômica.

As primeiras oito unidades têm carroçarias Viale Express Articulado, da Marcopolo, com chassis Scania K 340C A6X2/2 NB. Com 19,22 metros de comprimento, a capacidade de cada veículo é de 145 passageiros, tendo, também, ar-condicionado, portas de ambos os lados, poltronas estofadas com portas USB e USB C, piso amadeirado e iluminação full LED.

Em termos de combustível, o mencionado ônibus está equipado com sete cilindros para armazenar 1.645 litros de biometano, o que permite uma autonomia de 400 km, bem mais que o ônibus elétrico, que gira em torno de 250 km. Além disso, os cilindros (tipo 4) são um diferencial a parte, sendo construídos com polipropileno de alta densidade, reforçados com fibra de carbono em toda a região externa. Trata-se de unidades inéditas em uso, com um peso menor 50% menos em relação aos outros tipos.

Para a Scania, fabricante do chassi, essa comercialização com o transporte de Goiás se torna um marco em direção à sustentabilidade do setor, sendo que isso significa a primeira compra de ônibus urbanos movidos a gás e/ou biometano do Brasil, bem como de um articulado com a mesma tecnologia. Alex Nucci, diretor de Vendas de Soluções da Scania Operações Comerciais Brasil, destacou que o negócio abre oportunidades para que outras cidades brasileiras vejam a viabilidade tecnológica do conceito, com vantagens operacionais e ambientais. “O sistema de transporte coletivo de Goiânia dá um grande passo rumo a sustentabilidade e ao processo de descarbonização com a compra de 501 chassis movidos a biometano. E, para nós da Scania, que assumimos globalmente a missão de liderar a transição para um sistema de transporte mais sustentável, essa venda não é negócio comum, representando uma mudança de conceito, um fato histórico que favorecerá a mobilidade e o transporte, mostrando que há outras opções energéticas para alcançarmos a descarbonização do segmento”, destacou o executivo.

A fabricante se tornou uma referência no mercado ao ter o propósito de liderar o processo de descarbonização por meio de tecnologias limpas e sustentáveis, enfatizando que o transporte coletivo é uma forma eficiente de mobilidade em sinergia com a transição energética visando a redução das emissões poluentes.

De acordo com a Scania, o transporte livre da poluição só será alcançado pela sinergia tecnológica, onde as inovações, os produtos e os tipos de propulsão limpa (motores e combustíveis) seguirão juntos na jornada da descarbonização.

Já Ricardo Portolan, diretor de Operações Comerciais Mercado Interno e Marketing da Marcopolo, a iniciativa marca um avanço importante para o setor, pois a entrega desses novos ônibus articulados movidos a biometano reforça o protagonismo da Marcopolo no desenvolvimento de soluções de mobilidade urbana e representa um passo importante para a modernização do transporte público de Goiânia. “Com um DNA voltado à inovação, reafirmamos que nossa expertise vai além da carroceria, posicionando nos como parceiros estratégicos na transição para matrizes energéticas mais limpas”, disse.

Enquanto o gasoduto não abastece os veículos, a carreta cumpri com o papel de fornecer o biometano

A produção de biometano

A iniciativa para se produzir e usar o biocombustível no sistema de transporte coletivo de Goiânia tem a participação da empresa EcoGeo, empresa do grupo goiano Ecopar, e da GeoGreen BioGás, de São Paulo, que anunciou o investimento de R$ 140 milhões na construção da primeira usina de biometano em escala comercial de Goiás.

A produção do combustível renovável será integrada à Nova Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) por meio de um gasoduto com 25 km de extensão, sendo que o biometano será gerado a partir da decomposição de resíduos como lodo, biomassa e subprodutos agroindustriais, substituindo o diesel e reduzindo significativamente as emissões de CO₂.

A usina terá uma área de 100 mil metros quadrados, contando com biodigestores e sistema de purificação para transformar o biogás em combustível renovável. De início, sua capacidade de produção será de 30 mil metros cúbicos por dia, volume suficiente para abastecer cerca de 100 ônibus diariamente. Contudo, antes mesmo de sua implantação, o abastecimento dos novos ônibus será realizado por carretas tanques.

Imagens – Revista AutoBus

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