Diz um velho ditado que santo de casa de não faz milagres. Retrata, de uma maneira singela, a falta de valores e reconhecimento quanto a aquilo que está em nosso próprio ambiente, dando destaque para algo externo, de uma cultura diferente.
Isso acontece em diversas situações em nosso cotidiano. Quer um exemplo? A indústria nacional do ônibus, com sua expertise capaz de atender as demandas operacionais e ambientais do processo de descarbonização e na eficiência nos serviços disponibilizados à mobilidade das pessoas, com soluções caseiras, realistas e avançadas. Porém, ultimamente, o que vem de fora parece receber grande atenção, deixando de lado os nossos conhecimentos.
Veja o caso de uma importante fabricante de chassis para ônibus que tem sua origem no Brasil. Trata-se da Agrale, empresa gaúcha que há muitos anos está inserida no segmento do transporte de passageiros com produtos identificados com as necessidades locais e até de outros países. Com conhecimento acumulado, a marca vem contribuindo, ao longo dos anos, com a construção de um transporte coletivo mais eficiente e sustentável.
E é nesse contexto da sustentabilidade ambiental que ela é referência quanto a desenvolvimentos que cooperam com a redução das emissões poluentes nos sistemas de transporte urbano. Seu importante case é com a motorização a gás, tema relevante em sua história. A fabricante com sede em Caxias do Sul, RS, vem desde 2001, apostando nessa opção, mesmo que tenha encontrado no caminho os desafios inerentes a qualquer introdução de tecnologia limpa em concorrência com as energias tradicionais usadas no modal.
Edson Martins, diretor-comercial e de Marketing da Agrale S/A, lembrou de toda a história relacionada com o desenvolvimento de um produto equipado com motorização a gás e que quebrou os paradigmas da época por oferecer um conceito inovador e viável para o transporte. “Em 2001 começamos a desenvolver nosso chassi, com todas as especificações voltadas para o gás natural. No ano de 2003 apresentamos o modelo de micro-ônibus, após muitos testes e a homologação, com uma tecnologia avançada. Havia o interesse nessa alternativa de combustível, porém, numa guinada política, isso arrefeceu. Porém, nós não deixamos de acreditar nessa opção energética mesmo com as negativas do setor e a carência de políticas públicas que incentivasse um ambiente propício ao combustível”, destacou.
Sem perder o ânimo com a sua ideia e a tecnologia, a Agrale aguardou o momento certo para, novamente, se destacar no segmento do transporte com um veículo identificado com a redução das emissões poluentes e a sustentabilidade econômica. Contudo, o Brasil deixou de ser protagonista nesse contexto e a Argentina demonstrou apreço para ter uma mobilidade coletiva com os preceitos do gás natural em virtude de grandes áreas de produção do combustível.

Chassi equipado com motorização a gás. Tendência ambiental para os próximos anos
Assim, em 2012, a Ciudad Autonoma de Buenos Aires começou a se mobilizar para ter em sua frota de ônibus urbano uma tecnologia diferente em termos de propulsão, sendo opção ao tradicional diesel. De olho nesse mercado, a Agrale desenvolveu uma nova configuração de seu chassi de 17 toneladas, equipando-o com motor traseiro movido a gás, entrada baixa e suspensão pneumática, configuração técnica que há muito é usada na capital argentina. “Contudo, novamente aguardamos mais alguns anos até que em 2019, a cidade de Buenos Aires lançou o Programa Piloto de Ônibus com Combustíveis Alternativos, dentro do plano local de mobilidade limpa. Dessa forma produzimos mais um chassi com propulsão a gás, visando a construção de um novo ônibus para avaliação e testes, com resultados positivos”, disse Martins.
Mais uma vez, a fabricante brasileira que conta com sua unidade fabril na Argentina, teve que esperar alguns anos até que em 2025 ela forneceu 50 chassis a gás para a capital argentina, concretizando a primeira frota de veículos produzidos no Mercosul, a rodar no sistema de transporte público urbano de Buenos Aires. E, até o final deste ano, outras 321 unidades serão entregues, confirmando que a motorização a gás é vantajosa em relação à economia e a questão ambiental, com menor emissão de poluentes locais. Martins destacou que do total, 257 chassis serão usados no transporte urbano e outros 64 com características intermunicipais, para rotas rodoviárias com distâncias aproximadas de 80 quilômetros, ligando Buenos Aires à cidades próximas. “A Argentina resolveu apostar no gás natural para o seu sistema de transporte de passageiros em virtude da grande produção deste combustível junto em “Vaca Muerta”, que é uma vasta formação geológica na Bacia de Neuquén, norte da Patagônia argentina, que abriga a segunda maior reserva de gás de xisto e a quarta de petróleo não convencional do mundo. Isso faz com que o custo seja atrativo e haja abundância na disponibilidade. Além disso, nosso ônibus comprovou sua eficácia operacional, tendo um TCO viável e positivo em relação às outras matrizes energéticas”, informou o executivo.
A Agrale destaca que ela é a única a produzir ônibus com motorização traseira e piso baixo movidos a gás na Argentina, sendo que outros produtos concorrentes vêm de mercados externos. Para Edson Martins, é possível comprovar que essa tecnologia de descarbonização do transporte é compatível com as demandas urbanas e que pode atuar junto com a eletrificação dos ônibus. “Além disso, estamos entregando 82 ônibus com tração elétrica em Buenos Aires neste ano, sendo 60 unidades do MT 17.0 LEe e 22 articulados do modelo MT 27.0 LEe. Esses veículos foram desenvolvidos pela Agrale, tendo como fornecedora dos componentes elétricos de propulsão uma empresa inglesa, sendo um produto muito bem testado e aperfeiçoado na Inglaterra e na Argentina, fruto de um trabalho que durou quatro anos”, adiantou.
Novidade brasileira
De acordo com a Agrale, além do gás natural o biometano é um combustível com grande potencial no Brasil e que é mais uma opção energética em torno da sustentabilidade ambiental e da redução da pegada de carbono. E a fabricante gaúcha, de olho no futuro programa paulistano que fomentará o uso desse biocombustível no transporte coletivo, adiantou à revista AutoBus o lançamento de um modelo com a maioria das especificações de seu congênere portenho, tendo, apenas, algumas adaptações para o padrão SPTrans.
Martins ressaltou que essa capacidade brasileira em torno do combustível renovável tem apelo ambiental maior que, até mesmo, dos ônibus elétricos, pois na produção dele é factível a transformação de uma fonte poluidora em propulsão limpa, reduzindo todas as emissões poluentes. “Nós alcançamos muito ganho usando o biometano na cadeia do transporte. Por isso vamos apresentar nosso produto nas versões Básico e Padron durante a Lat.Bus 2026, reforçando nossa capacidade de desenvolvimento de veículos com tecnologias próprias para atender as demandas locais. Já há um veículo sendo encarroçado que logo será avaliado e homologado”, disse.

Fabricante quer usar de sua expertise argentina no tema gás para expandir seus negócios e contribuir com a sustentabilidade ambiental do transporte coletivo
O respectivo modelo de chassi (MT 18.0 Gás LE) tem o motor Weichai WP7NG270E61 de 265 cv de potência, transmissão automática Allison com cinco marchas, suspensão pneumática e capacidade de armazenamento de 940 litros de gás. “Nosso chassi a gás traz a experiência que temos no mercado argentino com essa configuração. Para se ter uma ideia, temos um cliente que tem em sua frota cinco mil ônibus, a diesel, da marca Agrale que operam em um sistema exigente e robusto que é o da cidade de Buenos Aires. Assim disponibilizaremos aos operadores o nosso modelo brasileiro no último trimestre deste ano. Estou confiante numa virada de chave no setor do transporte em virtude do potencial brasileiro de biometano, com tendência de se tornar realidade a operação dos ônibus a gás”, explicou Martins.
Perguntado sobre outra versão de chassi, a com motor dianteiro, o diretor da Agrale contou que até o fim deste ano haverá um novo modelo, na faixa das 17 toneladas, visando sistemas urbanos que demandam de veículos adequados com as características operacionais das cidades brasileiras.
A Agrale tem em seu portfólio de produtos o chassi MA 11.0 a gás, para micro-ônibus, equipado com o motor FPT N60 CNG, Euro VI, de 200 cv de potência.















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