Seis décadas de conforto

A evolução do ônibus leito foi marcada pelo melhor atendimento aos passageiros das respectivas empresas rodoviárias, sempre atentas com as necessidades envolvidas naqueles trajetos que demandavam a disponibilidade de serviços diferenciados

As lembranças do passado

Na longa viagem, quem dorme é o passageiro

Quem já viajou de ônibus leito sabe como é a comodidade de uma poltrona mais espaçosa, com alto grau de reclinação e que permite um maior descanso naquelas viagens em longas distâncias. Pois é, essa categoria que está presente em muitos ônibus, atualmente, nas mais distintas ligações rodoviárias pelo Brasil, comemora seu aniversário de 60 anos em 2022.

Um audacioso empresário gaúcho, reconhecido por estar à frente de seu tempo, percebeu que ao incorporar em seus ônibus um serviço com maior nível de qualidade poderia atrair mais clientes para o seu negócio. Humberto Albino Bianchi, que em 1962 era o proprietário da extinta Viação Minuano, foi o pioneiro em oferecer aos passageiros de sua linha entre Porto Alegre a São Paulo mais uma opção em configuração interna.

Bianchi, um homem alto, com pernas compridas, também foi precursor na adoção de outros itens que permitiram uma maior comodidade aos viajantes dessa rota – a instalação do toalete, isso ainda em 1959, quando iniciou o tráfego entre as capitais gaúcha e paulista, e a colocação da parede divisória que separava o posto do motorista do salão de passageiros.

Essas concepções foram uma verdadeira revolução ao aspecto construtivo dos ônibus rodoviários naquele início da década de 1960. E nada foi por acaso ou sem trabalho envolvido. Bianchi tinha uma agenda de negócios que o obrigava a se deslocar frequentemente até São Paulo. Sempre fazia por meio de seus ônibus. Porém, suas pernas não se acomodavam perfeitamente nas viagens. Desse modo, ideia por um maior espaço que proporcionasse conforto extra ao passageiro passou a frequentar os pensamentos do operador.

Os primeiros ônibus leito do Brasil Imagem Dorival Piccoli/Memória Marcopolo

Astuto, Bianchi começou a estudar, em 1961, como melhorar seus ônibus de modo a atrair um seleto público em deslocamento por sua rota regular do Sul ao Sudeste brasileiro, com mais de 1.100 quilômetros de rodovias. Observou que ao juntar duas poltronas comuns, o resultado poderia ser uma mais larga e que proporcionasse uma maior reclinação.

Até alcançar um modelo de poltrona ajustado com o seu ideal, foram muitas as conversas com o departamento de engenharia da encarroçadora gaúcha Eliziário, então fornecedora dos ônibus para a transportadora. Os esforços também se concentraram nas oficinas da Viação Minuano, com o pessoal de manutenção debruçado em encontrar uma solução viável que se adequasse ao intuito de Bianchi.

Não podemos esquecer que outra fabricante gaúcha de carroçarias para ônibus, a Nicola, de Caxias do Sul, também aceitou os desafios colocados por Bianchi para promover mudanças nos modelos tradicionais de ônibus. Tanto a poltrona leito, como o sanitário, foram itens explorados pela empresa para atender os anseios dos clientes.

Além disso, resolver dentro de casa os problemas que surgiam foi a saída do empresário em sua aventura de proporcionar um ônibus com melhor acabamento e condições de viagem. Foi assim com a instalação do toalete a bordo, nas questões sobre a ventilação, vedação e instalação da caixa de água. Ninguém queria, mas depois de seus efeitos práticos nas viagens, o interesse pelo componente aumentou.

Poltrona leito criada para o ônibus Marcopolo no final da década de 1960. Imagem – Memória Marcopolo

Com as inovadoras poltronas leito o caso foi igual. Foi preciso quebrar a cabeça para encontrar uma solução que se amoldasse ao passageiro. Assim, 19 delas foram instaladas em um de seus ônibus depois que o empresário levou seu projeto para ser aprovado pelo DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), órgão federal que fiscalizava e concedia os serviços de ônibus rodoviários. O primeiro veículo nessa configuração foi apresentado em 1962, fazendo sua estreia na rota Porto Alegre a São Paulo, levando apenas convidados.

Da engenharia “caseira”, o principal aspecto pensado foi o da ergonomia para as poltronas – reclinação, espaço, estrutura e apoio para braços e pernas, que aliás, foram o calcanhar de Aquiles do projeto, pois Bianchi não descansou enquanto não adequou um apoio para elas de maneira a consolidar o conforto, isso depois que o serviço na linha regular tinha se iniciado em 1963.

Além das poltronas leito, Bianchi introduziu um atendimento diferenciado a bordo com a oferta de café, refrigerante, biscoito, mantas e a instalação de uma pequena geladeira, juntamente com o melhor acabamento do salão de passageiros.

A iniciativa do transportador gaúcho abriu as portas para que a referida configuração interna dos veículos ganhasse espaço dentre os serviços de ônibus rodoviários realizados pelas operadoras brasileiras. Um exemplo que seguiu esse feito foi o da Cia. São Geraldo de Viação, empresa mineira que detinha, no começo da década de 1970, importantes linhas ligando as regiões Nordeste e Sudeste, em percursos que duravam até dois dias de operação pelas estradas.

A transportadora apresentou em 1972 o seu serviço chamado Sereno, em uma feira dedicada ao transporte regional de passageiros acontecida na cidade do Recife, em um estande com uma exposição de fotos do rei Pelé, retratado pelo conceituado fotógrafo da época Domício Pinheiro. Todo o processo de criação da inovadora configuração ficou a cargo do arquiteto João de Deus Cardoso, experiente profissional da área de comunicação visual para as empresas de ônibus.

O Leito Sereno da São Geraldo sob o Ciferal LíderImagem de J. Godoy/arquivo de João de Deus Cardoso

Cardoso, que já tinha criado o nome “Curiango” (pássaro insetívoro com hábitos noturnos) para o serviço leito da Viação Itapemirim, após desvincular-se desta empresa porque sempre considerou antiético trabalhar para outras transportadoras concorrentes, investiu seus esforços no projeto da São Geraldo.

Segundo o arquiteto, todo o processo de criação para se comunicar visualmente levou (e ainda leva) em consideração duas etapas – Criar com Emoção, motivado por sentimentos e conhecimentos, representando nas superfícies e volumes brancos, sem informação, as possibilidades, para análise e definição do projeto final, que sempre será o melhor a ser apresentado; Desenvolver com a Razão, quando são apropriados os recursos técnicos, disponíveis em cada fase da evolução humana, desde a antiguidade remota até as representações eletrônicas atuais, sempre respeitando os valores de quem vai aprovar os projetos. 

O projeto do referido serviço envolveu, além da apresentação de um novo layout da pintura externa da carroçaria (modelo Líder produzido pela extinta marca Ciferal, sobre plataforma Mercedes-Benz O-326), o planejamento da configuração interna para proporcionar o maior conforto que a categoria exigia, com a adoção das poltronas maiores e com alto grau de reclinação, do sistema de som, de uma pequena cozinha e da instalação do sanitário químico utilizado em aviões, uma novidade para a época, com o poder de reduzir os odores e diluir os dejetos sólidos.

A carroçaria do ônibus Líder Sereno tinha um apelo visual marcante para aqueles anos, com um desenho externo que valorizava as linhas aerodinâmicas e os detalhes de acabamento, além de seu conceito estrutural que utilizava o duralumínio, tornando o veículo mais leve e resistente.

O conforto interno era a prerrogativa para uma viagem mais tranquila e segura. Imagem de J. Godoy/arquivo de João de Deus Cardoso

Para efeito de explicação, o nome Sereno tem dois sentidos ligados às viagens e ao serviço dedicado a longos percursos – tranquilidade e tênue vapor atmosférico, termos específicos para uma operação noturna. A segunda versão da mencionada categoria da empresa mineira envolveu novos ônibus, com carroçaria Marcopolo, da terceira geração, sobre plataformas Mercedes-Benz O-355, trazendo as mesmas acomodações internas, além da presença do sistema de ar-condicionado, um atrativo a mais para superar as altas temperaturas da região Nordeste.

Como se lê neste pequeno relato histórico, a evolução do ônibus leito foi marcada pelo melhor atendimento aos passageiros das respectivas empresas rodoviárias, sempre atentas com as necessidades envolvidas naqueles trajetos que demandavam a disponibilidade de serviços diferenciados.

Se há 60 anos, os ônibus mais confortáveis eram sinônimos de alta sofisticação no transporte, hoje, o emprego dessa categoria abrange uma combinação inteligente com outras modalidades de conforto por meio dos ônibus maiores, com dois pavimentos, dotados de uma estrutura bem diferente daquele ponto de partida oriundo das plagas sulistas.

A Viação Minuano foi vendida para a operadora paranaense (com origem paulista) Empresa de Ônibus Nossa Senhora da Penha, em 1972, encerrando um ciclo de inovações, responsáveis pelas constantes mudanças ocorridas na linha do tempo do transporte rodoviário de passageiros.

Imagem de abertura – Dorival Piccoli/Memória Marcopolo

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3 Comentários

  1. Avatar

    Uma obra prima, parabéns

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  2. Avatar

    Antonio, bom dia.
    Interferi no teu sono na noite de sábado, mas fico feliz ao perceber que minha persistência para encontrar os cromos 6×6 com câmara Hasselblad e outros maiores com câmara Linhof, obtidos em serviços contratados a José Augusto de Godoy, de forma continuada para documentar vários projetos, e normalmente eu o acompanhava, em campo e em laboratório.
    Força e Persistência, são princípios de batalhadores, em quaisquer profissões.
    Em minha jornada terrena ainda quero ver veículos de transporte, pessoas e cargas, com desígnios deste que te escreve e incentiva. JDC

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    • Antonio Ferro

      João de Deus, eu que tenho que lhe agradecer imensamente pela ajuda editorial que me permite formatar e ressaltar artigos de época.
      Abc.

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