O preço da transição é caro

Dilemas, desafios e determinação. Três D’s que estão incorporados no modal ônibus urbano

Editorial

Tudo que tem um alto valor de mercado remete ao tema da qualificação, seja ele um produto, um bem ou um serviço. Porém, essa não é uma regra constantemente adotada num país em que não observa os preceitos do bom atendimento a qualquer tipo de consumidor.

Observe os casos dos combustíveis, muitas vezes adulterados e com os preços nas alturas; o exemplo da saúde pública e o descaso em não responder dignamente o cidadão; e o transporte coletivo realizado pelo ônibus urbano e a sua sina em não oferecer uma virtude que possa corresponder o seu público satisfatoriamente. Este último exemplo revela a falta de compromisso (por anos) e o descompasso das gestões públicas municipais em não investir adequadamente em sua modernização (serviço público gerenciado pelas prefeituras).

Hoje, o mundo mudou, a conexão entre as pessoas se tornou mais rápida, os modelos de deslocamentos não são mais os mesmos (o transporte coletivo ganhou novos concorrentes), o passageiro se transformou em cliente, quer ser bem tratado, e a forma como é feita a operação não pode ser mais improvisada, com deficiência. Além disso, busca-se a reprodução de sistemas que causem o menor impacto negativo possível ao ambiente urbano e às pessoas.

Para isso, temos exemplos que podem muito bem moldar a estrutura das cidades, com a implantação de corredores exclusivos de ônibus, nos moldes do BRT (Trânsito Rápido de Ônibus), harmonizados com o uso de trações limpas (biometano e eletricidade), representadas por veículos com motores de combustão interna (é isso mesmo, não é porque estamos pensando em futuro que esse tipo de propulsor possa ser deixado de lado) e movidos com propulsores elétricos – por baterias ou catenárias (trólebus).

Mas, neste momento, em se tratando de um horizonte sustentável e com o protagonismo do diesel como combustível energético do transporte, falar em novidades limpas implica no fator do investimento, na ordem em que os custos prevalecem sobre as boas intenções. Para alcançarmos tal feito, é indispensável a solução econômica que visa a redução dos custos envolvidos com as novas tecnologias.

Produção em escala seria uma saída. Contudo, ainda assim há a necessidade por programas de financiamento e suporte governamental para que haja investimento no material rodante do futuro. Apenas as tarifas não sustentam os dispêndios relacionados com a operação de ônibus urbanos que não poluem (pelo menos localmente). Hoje, um modelo 100% elétrico a bateria custa o triplo de uma versão semelhante a diesel. O movido a gás natural/biometano, tem o valor que é o dobro do tradicional chassi utilizado atualmente. Já o trólebus, chega a custar R$ 2 milhões (com alavanca pneumática – veículo completo).

Ademais, não podemos esquecer sobre a necessidade da aplicação de recursos na infraestrutura para o abastecimento de tais veículos. Como diriam os mais antigos, dinheiro não é capim e, também, não dá em árvore.

Claro que as fabricantes de ônibus estão preocupadas com o fato de poderem disponibilizar veículos mais limpos, que atentem à prática do transporte sustentável. Seus esforços são significativos e muitas delas já antecipam seus desenvolvimentos com produtos condizentes com a perspectiva futura. Porém, sabem que os operadores não irão investir sozinhos em algo que seja mais caro, mesmo sabendo do propósito ambiental e seus efeitos positivos à sociedade.

Mobilidade urbana eficiente e inteligente custa mais. Transporte qualificado, inovação e recursos tecnológicos também. Só atingiremos melhores serviços de ônibus urbanos quando houver um entendimento entre sociedade, poder público, operadores e gestores municipais quanto ao inevitável processo de transformação do setor e o essencial e contínuo investimento, seja público ou privado.

O preço da transição é alto, por isso será preciso adotar medidas que causem menores impactos negativos em todo o sistema de transporte. Infelizmente, a modalidade não fez a sua lição de casa e o Brasil sente, hoje, a falta de programas e processos para incentivar o ajustado transporte feito pelo ônibus. Dilemas, desafios e determinação. Três D’s que estão incorporados no modal.

Imagem – arquivo AutoBus

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