É difícil conter a frustração diante das recorrentes notícias sobre mobilidade urbana. Quase diariamente, surgem “iluminados” que afirmam ter a “solução definitiva” para os problemas da área. Na maioria das vezes, trata-se de políticos populistas que ignoram o conhecimento técnico-científico e desconsideram as limitações econômico-financeiras. Sustentam-se na crença de que a proposta trará impacto político imediato e agradará parte do eleitorado, sem qualquer reflexão sobre as consequências, tanto imediatas quanto de longo prazo. Em outras ocasiões, também impulsionadas por interesses políticos, esses atores se posicionam contra projetos que têm potencial para melhorar o sistema e promover o desenvolvimento sustentável da coletividade.
Atuei nas mais diversas frentes, academia, terceiro setor, consultoria e poder público e, em todas elas, testemunhei episódios que ajudam a explicar por que permanecemos estagnados. Um dos mais frustrantes foi o de um vereador que reuniu mil assinaturas para barrar a implantação de uma faixa exclusiva para ônibus. Em outra ocasião, um grupo de “iluminados” se mobilizou contra a redução de faixas para automóveis, necessária para a construção de uma ciclovia no canteiro central de uma avenida. A mobilização resultou em uma liminar que suspendeu as obras. E não faltam outros exemplos: desde a promoção de veículos “não poluentes” miraculosos até a defesa da liberação de faixas para motocicletas ou, ainda pior, a insistência no perigoso moto-táxi por aplicativo. A lista é longa e lamentável.
As consequências são claras: deterioração gradual da mobilidade urbana e reforço de um ciclo vicioso que empurra cada vez mais pessoas para o transporte individual motorizado, carros e motos. Isso gera acidentes, poluição e congestionamentos, tornando a vida nas cidades mais difícil, especialmente para quem depende do transporte público. No entanto, o populismo continua impedindo enfrentamentos sérios às causas estruturais do problema, que estão intrinsecamente ligadas à dependência do modelo de desenvolvimento baseado na indústria automobilística. Tristemente, ainda são raros os sinais de vontade política genuína e de ações estruturadas para reverter esse cenário. E mesmo em países desenvolvidos com sistemas de transporte público exemplares, o combate ao populismo segue sendo uma batalha constante.
Enquanto as decisões sobre mobilidade continuarem pautadas por promessas fáceis e visões eleitoreiras, permaneceremos reféns de um modelo insustentável. É preciso recuperar o protagonismo do planejamento técnico, valorizar o transporte coletivo e enfrentar com coragem os interesses que perpetuam a ineficiência. O futuro das cidades depende de escolhas responsáveis no presente.
Imagem – IA
Nota do editor – Diferentemente de muitos canais de comunicação que se isentam ao divulgar determinados textos editoriais, deixando a responsabilidade do conteúdo somente a quem escreveu, este espaço faz questão de concordar com as palavras de seus colunistas que sempre procuram destacar assuntos importantes envolvendo o transporte coletivo e a sua importância perante à sociedade.
Realmente é triste a pessoa ainda refém de alguma qualidade do serviço publico e usarem ações politicas como pauta de negociação. Puro e pobre populismo.
Parabéns pelo texto Dr. André