Por Miguel Angelo Pricinote – Subsecretário de Políticas para Cidades e Transporte no Governo de Goiás e especialista em Transportes Urbanos
A urgência de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no setor de transporte coletivo coloca gestores públicos, empresas operadoras e a sociedade diante de um desafio sem precedentes. Enquanto cidades latino-americanas consolidam metas de neutralização de carbono até 2050, as frotas de ônibus continuam majoritariamente abastecidas por diesel, um combustível que responde por mais de 20% das emissões de CO₂ no perímetro urbano. A busca por soluções que conjuguem viabilidade operacional, adoção rápida e contribuição significativa para a redução de emissões levou ao protagonismo do biometano como alternativa. A partir dos dados relativos ao piloto realizado em Goiânia e das projeções do Atlas do Biometano do Instituto Mobilidade Brasileira, este artigo defende a adoção do biometano como principal vetor de descarbonização do transporte público no Brasil.
O DESAFIO DO TRANSPORTE COLETIVO
Em muitas regiões metropolitanas brasileiras, a matriz energética dos ônibus é dominada pelo óleo diesel de derivados fósseis, com impacto direto na qualidade do ar e na saúde pública. Partículas, óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis são emitidos diariamente por milhares de veículos, contribuindo para elevação de casos de doenças respiratórias. Além dos efeitos locais de poluição, o consumo maciço de diesel agrava o balanço climático global. A transição para combustíveis alternativos enfrenta barreiras de custo, disponibilidade da infraestrutura e resistência à sazonalidade de demanda, exigindo uma solução que combine sustentabilidade, competitividade econômica e operacionalidade compatível com as rotinas das redes de transporte.
BIOMETANO: CONCEITO E ORIGEM
O biometano é um biogás que, após processos de purificação e remoção de impurezas, atinge qualidade equivalente ao gás natural veicular (GNV). Ele é gerado pela biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos provenientes de estações de tratamento de esgoto, aterros sanitários, resíduos agroindustriais e dejetos de suínos, bovinos e avícolas. A conversão de resíduos em energia configura um modelo de economia circular, reduzindo passivos ambientais e evitando emissões fugitivas de metano, um gás com potencial de aquecimento global mais de 25 vezes superior ao do CO₂. Assim, o biometano articula a mitigação de dois problemas simultâneos: o manejo adequado de resíduos orgânicos e a substituição de combustíveis fósseis.
Potencial de produção em Goiás
O Atlas de Biometano elaborado pelo Instituto Mauro Borges em 2024 quantificou o potencial anual goiano em 120 000 Nm³, correspondendo a 6% da demanda nacional de transporte coletivo. A distribuição por fonte é: 45% proveniente de dejetos bovinos (gado de corte e leiteiro), 35% de resíduos agroindustriais (bagaço de cana, casca de soja) e 20% de resíduos sólidos urbanos. As cinco micro-regiões com maior potencial são: Anápolis, com 28 000 Nm³/ano (23,3% do total); Rio Verde, 22 500 Nm³/ano (18,8%); Catalão, 16 000 Nm³/ano (13,3%); Goianésia, 12 500 Nm³/ano (10,4%); e Aparecida de Goiânia, 11 000 Nm³/ano (9,2%). As demais micro-regiões somam 30 000 Nm³/ano (25,0%).
O Atlas apresenta ainda mapas temáticos de densidade de rebanho, localização de agroindústrias sucroalcooleiras e disposição de aterros sanitários, criando base para planejamento estratégico de biodigestores em polos logísticos e proximidade de centros de consumo.
BENEFÍCIOS AMBIENTAIS
O emprego do biometano reduz as emissões líquidas de CO₂ em até 90% se comparado ao diesel convencional, dependendo da fonte de resíduo e dos parâmetros de purificação do gás. Ao capturar e valorizar metano de aterros e estações de tratamento de esgoto, evita-se a liberação direta dessa substância na atmosfera. Além disso, a queima do biometano em motores Otto gera emissões de material particulado e óxidos de nitrogênio consideravelmente inferiores às do diesel, promovendo melhoria da qualidade do ar urbano e diminuição de mortalidade associada a poluentes. Esse duplo efeito—redução de metano e substituição de diesel—faz do biometano uma das alternativas mais eficazes para mitigar o impacto climático e melhorar as condições de saúde pública em áreas densamente povoadas.
EFICIÊNCIA ENERGÉTICA
A eficiência energética do ônibus a biometano se aproxima da de veículos movidos a diesel, com média de 1,64 quilômetros por metro cúbico de biometano, segundo dados de testes operacionais em Goiânia. Embora o rendimento energético direto seja menor que o de motores a diesel (1,5 km por litro) e o de tração elétrica (1,69 kWh por quilômetro), a equivalência de rendimento permite adoção sem sacrifício de desempenho. A autonomia média de 337 quilômetros por abastecimento contempla rotas periurbanas e intermunicipais, sendo suficiente para 85% das operações diárias sem necessidade de reabastecimento suplementar. Além disso, a composição gasosa limpa e o torque característico dos motores Otto garantem aceleração e frenagem suaves, mantendo conforto equivalente ao das demais motivações energéticas.

VIABILIDADE TÉCNICA
Veículos movidos a biometano utilizam motores ciclo Otto de projeto consagrado e podem incorporar sistemas de injeção eletrônica específicos para gás sem alterações estruturais relevantes. As transformações necessárias envolvem a instalação de cilindros de alta pressão, rede de tubulações e módulos de controle de mistura ar-combustível. Esses componentes, testados e homologados por montadoras especializadas, asseguram confiabilidade e manutenção comparável à de ônibus a diesel. A adoção de cilindros laterais ou sob o chassi apoia-se em normas de segurança internacionais, enquanto o software de gestão MyScania demonstra estabilidade de performance e diagnósticos remotos que antecipam manutenções.
EXPERIÊNCIA DO PILOTO EM GOIÂNIA
Entre 13 de março e 24 de junho de 2025, um ônibus Scania padrão de 13 metros operou em linhas de extensão de eixo na Região Metropolitana de Goiânia. Em 87 dias de teste, rodou 20.832 quilômetros, cumprindo 98,4% da quilometragem programada. A velocidade média registrada foi de 25,94 km/h, compatível com o padrão da frota convencional, e a autonomia média de 336,7 km por abastecimento confirmou a adequação ao perfil diário de operação. O consumo total de 12.392 Nm³ de biometano contrapôs-se a 13.888 litros de diesel em cenário comparativo, demonstrando desempenho similar em termos práticos de rendimento e confiabilidade.
Custos operacionais
No piloto goianiense, o custo unitário médio do biometano foi de 7,40 reais por metro cúbico, incluindo frete, resultando em custo por quilômetro de 4,40 reais. Ao descontar a média de frete de 2,40 reais por metro cúbico, o custo efetivo do combustível cai para 5,00 reais por metro cúbico, o que converte-se em 3,04 reais por quilômetro rodado. Em comparação, o diesel apresentou custo por quilômetro de 3,11 reais e o ônibus elétrico de 2,64 reais. Considerando as oscilações de preço de cargas fósseis, a oferta local de biometano tende a garantir maior estabilidade de custos e menor exposição a variações de mercado internacional, além de potencial para redução de preço conforme escala de produção.
Infraestrutura de abastecimento
Para o piloto, foi montado um ponto provisório de abastecimento no Terminal Novo Mundo, composto por carreta pulmão com 7.000 Nm³ de biometano, tenda, booster, dispenser GNV e container para vigilância 24 horas. Ainda que temporária, essa solução evidenciou flexibilidade operacional, permitindo deslocamento do equipamento e rápida implantação em outros pontos. A partir do Atlas do Biometano, a implementação de estações de abastecimento permanentes requer investimentos em compressores, sistemas de armazenamento subterrâneo e redes de distribuição semelhantes às do GNV convencional. A proximidade com usinas de biogás e a integração com gasodutos podem amortizar custos de transporte e viabilizar a expansão da infraestrutura em corredores onde a demanda por biometano se concentre.
Aceitação dos usuários
A pesquisa de percepção com 219 respondentes revelou índice de satisfação de 94,7% para experiência de viagem em ônibus a biometano e 99,1% afirmaram disposição para repetir o percurso. A estabilidade e suavidade do trajeto, o nível de ruído reduzido e a temperatura interna confortável foram destacados como atributos positivos. Usuários ressaltaram também a condução segura e cortês dos motoristas, reforçando que a introdução de tecnologia limpa não afeta a qualidade do serviço prestado. Esses indicadores demonstram que a adoção do biometano encontra terreno favorável na aceitação pública, elemento crucial para adesão de políticas de longo prazo.
Desafios logísticos
A expansão da malha de abastecimento de biometano demanda planejamento integrado com órgãos ambientais, empresas energéticas e fornecedores de matéria-prima. A coleta eficiente de resíduos orgânicos em áreas urbanas e agroindústrias exige sistemas logísticos sofisticados, incluindo rotas de transporte dedicadas e compactação de matérias-primas. A homologação de novas estações de compressão, licenças ambientais e homologação de cilindros também compõem a agenda de implantação. Para contornar gargalos, é fundamental fomentar consórcios entre prefeituras, estatais de saneamento, cooperativas de produtores e entidades de pesquisa, garantindo a sinergia entre geração de resíduo, produção de biometano e demanda veicular.
INTEGRAÇÃO COM OUTRAS TECNOLOGIAS
Embora o biometano se destaque pela versatilidade e pela rapidez de adoção, a combinação com ônibus elétricos e híbridos pode compor uma matriz energética robusta. Em corredores curtos e de alta frequência, a eletrificação total oferece zero emissão local e operação silenciosa. Já em trajetos mais longos ou suprimidos de infraestrutura de recarga elétrica rápida, o biometano mantém autonomia elevada e flexibilidade de reabastecimento. Além disso, tecnologias de célula de combustível a hidrogênio podem progredir em áreas de baixa densidade rodoviária. A adoção simultânea dessas soluções assegura resiliência da frota, permitindo realocar veículos conforme variabilidade de demanda e características do corredor.
Impactos socioeconômicos
A indústria de produção de biometano gera oportunidades de emprego em setores múltiplos: engenharia de plantas de digestão, operação e manutenção de estações de purificação, logística de resíduos e distribuição de gás. A criação de arranjos produtivos locais fortalece a economia circular, uma vez que produtores rurais, centrais de tratamento de esgoto e aterros sanitários tornam-se fornecedores de matéria-prima. A geração de renda adicional para cooperativas de catadores de resíduos e produtores de biomassa orgânica também melhora o perfil social das regiões atendidas. Com políticas de incentivo financeiro e capacitação profissional, o biometano pode ser catalisador de desenvolvimento regional, contribuindo para objetivos de inclusão social.
Políticas públicas e incentivos
A consolidação do biometano no transporte público depende de marcos regulatórios claros e de mecanismos de subsídio ou faturamento de créditos de carbono. Linhas de financiamento de bancos públicos podem reduzir o custo de implantação de estações de purificação e compressão. Programas de incentivo à geração de biogás, como redução de tarifas de distribuição e isenção de encargos setoriais, aceleram a formação de mercados. A adoção de contratos de fornecimento de longo prazo com tarifas estáveis assegura retorno de investimento para empreendedores. Além disso, metas de renovação de frota estabelecidas por licitações de concessão de linhas podem priorizar veículos a biometano, fomentando competição saudável e escala de produção.
CONCLUSÃO
A combinação de resultados técnicos e operacionais do piloto goianiense com as projeções de produção do Atlas do Biometano revela a maturidade dessa solução como principal vetor de descarbonização do transporte coletivo. O biometano atinge rapidamente frotas existentes, garante autonomia comparável ao diesel, reduz significativamente emissões de gases e melhora a qualidade do ar urbano. Ao lado de investimentos em infraestrutura de abastecimento e de políticas de incentivo, representa alternativa de baixo risco e alta aderência operacional. Em um cenário de metas ambiciosas de neutralização de carbono, o biometano deve ocupar posição central nas estratégias de mobilidade sustentável, compatibilizando viabilidade econômica, mitigação ambiental e desenvolvimento social.
Imagens – IA e revista AutoBus












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