Um exemplo de liderança feminina no transporte

As mulheres contribuem não apenas com competência técnica, mas, também, com habilidades de liderança, organização e visão colaborativa para fortalecer as equipes e melhorar a qualidade dos serviços prestados

ESPECIAL MÊS DAS MULHERES

No mês que comemora o Dia Internacional das Mulheres, a revista AutoBus conversou com Bianca Marques, superintendente de Operações na Viação Águia Branca, setor Bahia. Ela atua na empresa há 20 anos e começou como comercial. Hoje, ela gerencia 500 funcionários nos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. E valorizar e ampliar a participação feminina no transporte é uma questão de igualdade de oportunidades, sendo essencial para que o setor evolua de forma sustentável e represente melhor a sociedade que atende.

Revista AutoBus – O transporte rodoviário ainda é um setor historicamente masculino. Na sua visão, como a presença feminina em posições de liderança tem impactado decisões estratégicas, cultura organizacional e resultados de negócio?

Bianca Marques – A presença feminina em um setor predominantemente masculino como o transporte traz um olhar diferente para a gestão. A mulher tende a ter uma abordagem mais cuidadosa, detalhista e observadora, o que naturalmente provoca novas perguntas e novas análises dentro dos processos. Esse olhar mais atento e zeloso impacta diretamente a cultura organizacional. Ele traz mais suavidade às relações, amplia a percepção sobre as pessoas e promove um ambiente mais diverso. Quando um homem é liderado por uma mulher, essa troca também transforma ambos: ele passa a incorporar uma visão mais atenta aos detalhes e às nuances da equipe, enquanto a líder também compreende melhor as dinâmicas da equipe. Esse equilíbrio contribui para decisões mais completas e ambientes mais colaborativos, com reflexo positivo nos resultados do negócio.

AutoBus – Existe uma forma diferente de liderar que está moldando o setor hoje?

Bianca – Falando em moldar o setor, acredito que, onde a mulher está presente em um ambiente predominantemente masculino, ela de fato se impõe com respeito. Tenho a percepção de que gestores mais antigos ainda enfrentam a necessidade de quebrar paradigmas, mas já reconhecem a importância do papel atual da mulher na liderança que, embora ainda tenha baixa representatividade, já é uma realidade. Acredito que isso transforma o ambiente como um todo. Naturalmente, ele se modifica quando há um olhar voltado para a diversidade, para a presença feminina e para diferentes perspectivas. Essa transformação não acontece de forma imediata, mas ao longo do tempo, por meio da convivência e da presença constante, o ambiente é, sim, transformado.

AutoBus – Estamos vivendo um momento de transformação digital, pressão por eficiência operacional e mudança no comportamento do consumidor. Como vocês enxergam o papel da liderança feminina na construção de empresas mais resilientes, inovadoras e competitivas?

Bianca – A capacidade de realizar múltiplas tarefas, que a mulher naturalmente já exerce como mãe, esposa, filha, executiva ou líder, evidencia esse papel multifacetado. Não é possível simplesmente deixar de lado, das 8h às 18h, os outros papéis para ser apenas profissional. Acredito que isso desenvolve uma resiliência e uma força muito próprias da mulher, de forma bastante diferenciada. Essa força, essa capacidade de adaptação e esse olhar mais cuidadoso e detalhista têm somado muito no ambiente corporativo. Vejo que contribuem para tornar a empresa mais competitiva, mais inovadora e mais resiliente. Portanto, esse olhar feminino tem, sim, feito diferença.

AutoBus – Quais competências serão decisivas para os próximos anos?

Bianca – Acredito que competência e resiliência sejam fatores fundamentais diante das constantes mudanças nos negócios, no mundo e na tecnologia. O equilíbrio emocional também é essencial nesse contexto. Vejo que a mulher tem um papel forte ao contribuir e influenciar positivamente o ambiente, especialmente no que diz respeito à estrutura emocional, muito desenvolvida em razão da capacidade de lidar com múltiplas responsabilidades. Essas são competências importantes para que possamos continuar ampliando nossa presença em posições de liderança, especialmente em ambientes que ainda são majoritariamente masculinos.

Bianca Marque – O legado é contribuir para um ambiente mais aberto, onde a competência seja o principal critério de reconhecimento. Um setor onde mulheres e homens possam atuar de forma complementar, fortalecendo a cultura e os resultados

AutoBus – Diversidade não é apenas pauta reputacional, é tema de governança.

Bianca – Diversidade precisa ser tratada com seriedade e estrutura como é feito na Viação Águia Branca. O primeiro ponto é a empresa estar genuinamente aberta para receber pessoas diferentes, seja uma liderança feminina, seja alguém com orientação sexual diversa. Além disso, é importante que nós, mulheres, continuemos firmes, com postura e confiança. Muitas vezes, ainda precisamos provar que entendemos do assunto e que somos capazes, como se o fato de sermos mulheres colocasse nossa competência em dúvida. Esse é um desafio que enfrentamos em alguns momentos.

Por isso, reforço: o primeiro passo é a abertura do ambiente. E, quando ela ainda não existe, nossa energia, dedicação e preparo são os caminhos para quebrar paradigmas em espaços que ainda não incorporaram essa mentalidade.

AutoBus – Como as empresas do setor podem avançar de forma estruturada na construção de ambientes mais inclusivos, mantendo performance e excelência operacional?

Bianca – O ponto inicial é a abertura cultural. Se o ambiente não estiver pronto, é preciso trabalhar essa base. Ainda existe, em alguns contextos, a ideia pré-concebida de que, por ser mulher, talvez não se domine determinado assunto, especialmente em temas técnicos. Romper esse paradigma exige dois movimentos: das empresas, que devem garantir espaço e igualdade de oportunidades; e das próprias profissionais, que precisam se manter firmes, preparadas e determinadas.

AutoBus – Qual conquista profissional você considera mais transformadora na sua trajetória, seja para a empresa, para a equipe, para o setor ou mesmo no âmbito pessoal?

Bianca – Uma das maiores conquistas é o reconhecimento contínuo da empresa ao longo da trajetória. Há 12 anos atuando como líder, conduzindo equipes de diferentes tamanhos, o que mais marcou foi a confiança depositada no meu trabalho, especialmente em um pilar tão essencial quanto a segurança. Hoje, estar à frente de uma superintendência de operações, liderando uma operação em todo o Nordeste, representa uma realização pessoal e profissional. É resultado de uma troca diária entre dedicação e confiança, que gera gratidão e senso de propósito.

AutoBus – O que ainda precisa evoluir para que o setor de transporte seja mais diverso em todos os níveis, da operação ao conselho?

Bianca – A evolução não é apenas do setor de transporte, mas da sociedade como um todo. Precisamos amadurecer como pessoas e superar pré-julgamentos. A diferença entre homem e mulher não está na competência, mas nas características que se complementam. Já ficou claro o quanto a mulher pode contribuir, somar e fortalecer ambientes diversos. O que não cabe mais são resistências ou barreiras baseadas em estereótipos.

AutoBus – E olhando para frente: qual é o legado que vocês desejam construir dentro do setor?

Bianca – O legado é contribuir para um ambiente mais aberto, onde a competência seja o principal critério de reconhecimento. Um setor onde mulheres e homens possam atuar de forma complementar, fortalecendo a cultura e os resultados.

Deixar como marca a confiança, a segurança e a construção de equipes fortes e respeitosas é um objetivo permanente.

AutoBus – Se você pudesse deixar uma mensagem estratégica para as próximas líderes do transporte rodoviário, qual seria?

Bianca – Acredite em você. Confie na sua capacidade. Dedique-se e prepare-se. Estude! É possível. Se foi possível para mim, pode ser para qualquer outra mulher. Às vezes é preciso paciência, mas principalmente é necessário autoconfiança. Você é capaz de superar desafios e de ocupar o seu espaço. Com competência e dedicação, o resultado acontece.

Imagens – Divulgação

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