Quando o rebelde entra para o condomínio

"Em resumo: o rebelde cansou de gritar do lado de fora e resolveu entrar para o condomínio. O segmento regular lhe deseja boa sorte"

Por Letícia Pineschi, diretora da Abrati

A compra da Expresso JK e das operações interestaduais regulares da Santa Maria pela Buser não é só um negócio. É uma confissão. Depois de anos vendendo a tese de que havia “reinventado” o transporte rodoviário, a plataforma agora dá um passo que diz muito: para crescer de verdade, precisou entrar justamente no modelo que passou tanto tempo tentando contornar. O próprio material sobre a operação já aponta essa leitura.

A verdade é simples. O serviço regular interestadual sempre operou com muito mais peso nas costas do que o chamado fretamento colaborativo. No sistema regular, há a autorização, quadro de horários, controle operacional, fiscalização, reparação de danos, atendimento presencial 24 horas e um pacote de obrigações que custa caro cumprir.

Além disso, só o transporte regular carrega gratuidades e descontos legais para idosos, jovens de baixa renda e pessoas com deficiência. A ANTT é clara: essas obrigações recaem sobre o serviço regular, não sobre o fretamento. Ou seja, por anos o jogo foi desigual. Um lado sustentando deveres públicos; o outro vendendo conveniência com bem menos peso regulatório

E essa diferença pesa no caixa. O preço do óleo diesel está, em média, no valor de R$ 6,15 por litro, isso no início de março de 2026. O INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) acumulado em 12 meses estava em 3,81% em fevereiro, pressionando a mão de obra. E renovar frota segue caro, em um mercado ainda afetado por juros altos e crédito escasso.

Porém, toda a sua leveza com que operava não era suficiente para agradar o consumidor. A plataforma acumula em sua jovem existência disruptiva mais de 20 mil reclamações no site Reclame Aqui e sucessivas derrotas judiciais nas tentativas de legalizar seu modelo que vai de encontro aos princípios constitucionais do transporte público.

No fim, a Buser parece ter descoberto o que o setor sempre soube: aplicativo ajuda, marketing ajuda, tecnologia ajuda, mas quem quer operar transporte interestadual de verdade precisa aceitar a conta, a regra e a responsabilidade do serviço regular.

Em resumo: o rebelde cansou de gritar do lado de fora e resolveu entrar para o condomínio. O segmento regular lhe deseja boa sorte. Agora sim vamos contribuir para uma mobilidade melhor.

Imagem – Acervo Osvaldo Born

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *