A evolução do desígnio

A aparência conta pontos e o colorido ajuda a propagar o visual mais bonito. Pelas estradas brasileiras, certamente o que encanta é a difusão de ideias e conceitos que dão ao modal ônibus a diferenciação dentre os sistemas de transporte. Na foto abaixo, o primeiro exemplo de um conceito moderno criado por João de Deus Cardoso e Carlos Antonio Ferro (in memoriam)

Os mais velhos se lembram do advento da televisão a cores no Brasil, causando uma boa surpresa ao público, colocando um pouco mais de vida nas transmissões. Com o transporte de passageiros, o colorido mostrou como era possível dar mais força ao segmento, por meio de uma embalagem agradável em movimento.

Nas palavras de João de Deus Cardoso, arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, no alto de seus 78 anos de vida e mais de 55 anos de atividades, o grande desafio para o ato criativo são as superfícies ou volumes brancos esperando uma criação gráfica e visual. Esse ato é o desígnio, que em inglês é o design, e que pelo dicionário Aurélio significa intento, intenção, plano, projeto e propósito.

A criação tem início quando o cliente informa as características de sua operação, de sua frota, de seus serviços, da região onde atua. Desse contexto surgem todas as peculiaridades que podem ser aproveitadas ou transmitidas em uma identidade visual, capaz de embalar um produto, que neste caso em que falamos, se trata do ônibus em harmonia com o ambiente em que é utilizado, para assim poder ser um instrumento atrativo de negócios no segmento da mobilidade.

Se hoje os grandes recursos gráficos digitais se sobrepõem no desenvolvimento de uma arte, há mais de 50 anos, quando tudo começou, a situação exigia muita destreza e capacidade para apropriar, ordenadamente, os estilos, as cores e formas que se harmonizavam na comunicação visual, sem ter à disposição nessa tarefa de criar, os computadores mais modernos de agora. À disposição naquela época apenas o papel manteiga (que muitos não devem conhecer), o papel vegetal, algumas canetas com tinta nanquim e para o acabamento final papéis em branco fabricados com fibras vegetais, geralmente importados.

Criação de João de Deus Cardoso

A arte era produzida à mão, com os efeitos e resultados que forçavam o cliente a imaginar como poderia ficar um determinado projeto em sua frota. Para os mais saudosistas, era um tempo em que o desenho sobre a prancheta representava a superação no campo da inventividade determinada pelo esforço e dedicação.

A prancheta sobre o cavalete foi, por muito tempo, a companheira daqueles que se propunham a criar os mais diversos projetos e layouts em conjunto de elementos que poderiam ser o diferencial entre operadores concorrentes. De acordo com João de Deus, os desenhos eram lançados nos papéis como ideias iniciais ou esboços preliminares para serem avaliados e desenvolvidos como alternativas possíveis até a definição do caminho a seguir até ser apresentado ao cliente. Deveriam ter dimensões em escala e o máximo de detalhe para que o empresário não tivesse nenhuma surpresa desagradável.

“Quando os desenhos vinham das encarroçadoras, porém sem detalhes, íamos, eu e Carlos Antonio Ferro, a campo para analisar os modelos de ônibus. Até levávamos máquina fotográfica rudimentar para registrar as particularidades das carroçarias que poderiam afetar negativamente as nossas criações, ajustando então os desenhos e a colocação dos logotipos e outros elementos gráficos em áreas corretas”, lembrou o arquiteto.

Com o passar dos anos, muito se alterou e as identidades visuais ganharam novos contornos, linhas, figuras e tonalidades. A computação gráfica passou a determinar a criação a partir do final da década de 1990. O papel deu lugar à tela do computador e os projetos passaram a envolver mais do que um sentido prático de dar às embalagens itinerantes uma beleza que chamasse a atenção. Na evolução dos redesígnios, os conceitos ultrapassaram as fronteiras das carroçarias dos ônibus, para serem aplicados em todos os objetos

que constituem as Identidades Visuais das empresas: veículos de apoio, lojas de venda de passagens, luminosos, uniformes, impressos, a partir dos Elementos Básicos: cores, desenhos, logotipos, símbolos, e outras manifestações visuais de promoção. “Desde 1975, quando desenvolvi o sistema visual para a operadora Esplanada ABC-Rio, passei a agrupar todos os elementos em manuais que definiam as diretrizes e controlavam a correta aplicação”, lembrou Cardoso.

Com mais de 40 anos de profissão, Paulo Gandolfo, formado como comunicador visual pela Universidade Mackenzie, tem uma ligação muito próxima com o ônibus em virtude de seu pai ter trabalhado na área, na montadora Mercedes-Benz. Seu primeiro projeto foi feito para a extinta Companhia Municipal de Transporte Coletiva de São Paulo, a CMTC. Em seu currículo, transportadoras como a Pássaro Marron e os Grupos Comporte, Belarmino e Danúbio Azul, fazem parte de suas criações artísticas. “Na maioria de meus trabalhos, penso na melhor forma em como poder proporcionar pinturas e identidades visuais com facilidade na manutenção, pois sempre há a necessidade disso”, observou.

Um dos primeiros trabalhos de Gandolfo

Gandolfo também ressalta que sempre busca imprimir em seus projetos conceitos que promovam leveza, velocidade e combinações de cores e formas que causem impacto positivo. “Hoje, há muitos projetos que utilizam uma salada de frutas com cores sem levar em consideração os muitos aspectos que estão relacionadas com o bom senso criativo”, comentou. Ainda, segundo ele, um de seus desígnios, feito para o Grupo Comporte, adotou o branco de fundo em combinação com duas cores antigas utilizadas em cada empresa pertencente ao grupo. “Como são muitas operadoras no grupo, havia o interesse em equalizar o projeto, extremamente fácil e limpo. Voltei há vinte anos e apliquei o branco na base em harmonia com traços e formas em duas cores, além de um pictograma com fontes diversas relacionadas aos nomes das empresas. Isso gerou uma significativa economia para os cofres do grupo”, afirmou.

A expressão da arte criativa

A ABRATI, Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros, divulgou recentemente a exposição Estrada Virtual, o Desígnio na História do Transporte Rodoviário Brasileiro, com o intuito de mostrar a evolução dos conceitos em termos de identidades visuais aplicadas pelas empresas de ônibus, para compreender o quanto as proporções, cores e formas representam a acolhida do passageiro, desde a agência de venda dos bilhetes de viagem até o principal ponto na experiência do viajante, o ônibus. Pelas muitas carroçarias de ônibus que cruzam o Brasil de norte a sul, podemos ver um expressivo número de pinturas que revelam a multiplicidade de matizes e dimensões. Trata-se do engenho artístico sobre rodas que cobre o asfalto, permitindo maior harmonia ao ambiente.

No Brasil, outros dois representantes da classe que desenvolve identidades visuais ao segmento são os escritórios Carlos Ferro Arquitetura e Design, das arquitetas Chiara e Mariana Ferro, e Missemota Arquitetura e Design, de Luiz Misse Mota e Gabriela Martins. Os atuais projetos da Viação Itapemirim, Util, Grupo Brasileiro e Grupo Guanabara tiveram origem pelas mãos de Carlos Ferro, já falecido, e de suas filhas, enquanto que os profissionais da Missemota criaram os redesígnios da Viação Cometa, Garcia e da empresa Reunidas, de Santa Catarina, todas operadoras com destaque no cenário nacional.

De acordo com Chiara Ferro, a pintura de frotas é a grande oportunidade de se repensar os conceitos, pois o ser humano sempre está evoluindo em torno da maneira como ele se relaciona com a cidade e com os elementos que dela fazem parte. “O design tem o papel de gerar imagens. E a comunicação visual aplicada no ônibus é o elo na relação entre o homem, passageiro, e as rodovias e os ambientes urbanos. Hoje, quando vamos redesenhar a identidade de alguma empresa, levamos em consideração o impacto visual, a pintura minimalista, mais leve, aspectos que podem trazer uma personalidade própria, mantendo, em muitos casos, o histórico da transportadora”, observou.

Um dos muitos trabalhos do escritório de Carlos Antonio Ferro

Além dos veículos, outros espaços foram observados visando a inovação em layouts e pinturas, como os renovados balcões de vendas de passagens em alguns terminais rodoviários, que ficaram parecidos com o atendimento feito em aeroportos. Tal feito foi realizado para a Viação Itapemirim, pelo escritório do arquiteto de Carlos Antonio Ferro, motivando um atendimento mais próximo com o cliente.

Já Luiz Misse Mota contou que o design praticado em seu escritório sempre busca reunir variadas informações para que o cliente possa ter mais condições de evoluir em suas escolhas quanto ao padrão de pintura proposto. “Nossa atuação pensa no potencial de mercado, em como uma determinada marca pode se comunicar com o seu público. As mudanças exigem uma avaliação minuciosa nas áreas internas da transportadora, visando oferecer um portfólio abrangente de serviços para que a gestão das pessoas possa se inteirar a respeito de algo novo”, disse o arquiteto.

A aparência conta pontos e o colorido ajuda a propagar o visual mais bonito. Pelas estradas brasileiras, certamente o que encanta é a difusão de ideias e conceitos que dão ao modal ônibus a diferenciação dentre os sistemas de transporte.

Imagens – João de Deus Cardoso, Paulo Gandolfo e ABRATI

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