Revolução nas cores (1ª parte)

No horizonte de incontáveis formas, linhas, sistemas de cores e perspectivas visuais, as pinturas dos ônibus no transporte brasileiro foram e são a maneira de representar as propostas gráficas da cultura regional e particularidades operacionais. Na imagem abaixo, o antes e o depois do novo layout

Reportagem especial

A ruptura do tradicional pela inovação foi revelada por dois jovens estudantes de arquitetura, que literalmente arquitetaram uma renovação dos conceitos junto ao transporte rodoviário de passageiros. Carlos Antonio Ferro (in memoriam) e João de Deus Cardoso foram pioneiros em utilizar técnicas, raciocínio quanto a boa colocação de cores e desenhos, além da percepção referente a um projeto harmônico, nas identidades visuais dos ônibus, isso na segunda metade da década de 1960. Para eles, os projetos propunham áreas de cores, com esquemas bem definidos para privilegiar a estética dos veículos, sendo essenciais para valorizar todo o contexto proposto que definia as posições para o símbolo e o logotipo com o nome da empresa, numeração e outras informações identificadoras das empresas.

O mercado, até então, era inundado por conjuntos de cores sóbrias, sem expressão com representações simples, muitas vezes criadas pelo próprio operador na tentativa de promover uma marca particular em sua frota de ônibus, sem atentar para a melhor distribuição das tonalidades e formas. O padrão utilizado começaria a perder força quando a dupla Cardoso e Ferro, ainda na faculdade, foi desafiada a criar um projeto visual para uma pequena operadora, chamada de Topázio Turismo, do ABC paulista.

Tal início foi sobre um modelo de ônibus Mercedes-Benz, o monobloco O321 HL, versão rodoviária, além de dois ônibus com chassis Volvo, veículos já em uso e que formavam a frota da transportadora. De acordo com João de Deus, o primeiro passo foi saber o que significava o termo monobloco, conceito utilizado pela montadora para definir a estrutura de seu modelo rodoviário que une a carroçaria e chassi em uma única peça. “Para isso, fomos até a fabrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, nos inteirar sobre o que seria o ônibus monobloco. Lá fomos recebidos por Klaus Bessel, responsável pelos catálogos e divulgação dos prospectos de produtos da marca. Na realidade, ele era um pintor, um artista plástico. Assim ficamos conhecendo sobre o ônibus, as tintas utilizadas na pintura da carroçaria e como era o processo da mesma”, disse ele. Ainda, segundo o arquiteto, Bessel comentou com os dois estudantes que a proposta de se criar os projetos de pintura ia ser a grande tendência de futuro no mercado de transporte. “Vocês não sabem o que estão fazendo, pois será uma revolução no setor”, disse o profissional da montadora à João de Deus em janeiro de 1967.

Após isso, a meta foi conhecer o universo de estímulos das comunicações visuais utilizadas pelas empresas de ônibus de então, por meio de observações e avaliações em áreas próximas à antiga rodoviária Júlio Prestes, no bairro da Luz, em São Paulo. O lugar foi considerado produtivo, pois reunia os muitos ônibus que chegavam e partiam da cidade, cada qual com suas peculiaridades em cores e traços. O conhecimento, ali apropriado, proporcionou os primeiros esboços para a definição da marca da Topázio. Escolhido o layout, o ônibus monobloco recebeu a pintura, chamando a atenção dos funcionários da fábrica da Mercedes-Benz, pois o mesmo fazia o transporte desses colaboradores.

E a diretoria da montadora também quis conhecer a novidade. Rodolfo Borghoff, diretor de vendas da marca, interessado nos comentários sobre o novo conceito estético, viu a proposta, gostou e logo indicou, simplesmente, para a poderosa Viação Itapemirim, então com a maior frota brasileira de ônibus Mercedes-Benz. Os três primeiros ônibus da Topázio deram a largada para a sucessão de ideias e representações visuais. “O próximo passo foi conquistar a Itapemirim”, sintetizou João de Deus. E lá foram Cardoso e Ferro rumo a Cachoeiro do Itapemirim, ES, munidos de um slide de 35 mm com o projeto da Topázio. “Com isso, mostramos ao proprietário da empresa, Camilo Cola, nossa criação. A proposta para mudar a identidade foi aceita. Redigi um contrato e voltamos para São Paulo com a tarefa de colocar nos ônibus da operadora capixaba uma nova pintura”, referiu-se ao primeiro grande projeto da dupla.

Ao se debruçarem sobre as pranchetas onde o papel vegetal estava, utilizando tinta nanquim, guache e graxa branca para sapatos, visando simular o brilho dos esmaltes sintéticos utilizados para a pintura das carroçarias, para criar os primeiros esboços de um novo layout a ser aplicado nos veículos da transportadora, João de Deus e Carlos Ferro não imaginavam como o referido trabalho ganharia corpo e abriria muitas portas no segmento.  Até então, o esquema utilizado pela Itapemirim em seus ônibus adotava as cores azul e alumínio, além do desenho de um cão da raça galgo, semelhante ao usado na transportadora norte-americana Greyhound, admirado por Camilo Cola pela sugestão à velocidade.

A definição do layout foi obtida com a utilização de três cores: o amarelo como cor básica; a cor ocre que propunha estabilidade na parte inferior da carroçaria, subia pelas laterais e passava sobre o teto, com faixas brancas separando os dois amarelos; e filetes de 5 mm em preto separavam as cores e valorizavam a pintura, (utilização inédita desse espaço), unindo toda a carroçaria. O novo símbolo da empresa, composto por um V e I geometricamente construído, sugeria percurso. Também em preto, foi colocado o logotipo Itapemirim, com fonte de grande visibilidade, destacando a marca significativamente com um apelo atrativo. “Nossa primeira e grande criação nos permitiu conquistar o mercado e a Itapemirim aproveitou o momento para novas ações de marketing que lhe deram força para a expansão de seus negócios. No desenvolvimento desse trabalho utilizamos o catálogo de tinta empregado na Mercedes-Benz, na combinação entre quatro cores, que eram o amarelo 5, o amarelo 7 óxido de ferro (ocre), o branco e o preto, todas em esmalte sintético automotivo. O símbolo, o logotipo e a numeração eram pintados à mão, com pincéis. Hoje, poucos sabem disso”, comentou João.

Ainda, segundo ele, a escolha pela cor amarelo foi determinante para agradar o público nas áreas onde a Itapemirim atuava, no eixo sudeste – nordeste. “Não havia, naquela ocasião, uma pintura que utilizasse integralmente o amarelo. Então pensamos em combinar o amarelo ocre em faixas pintadas nas barras da carroçaria, conferindo estabilidade e horizontalidade ao veículo. Quanto ao símbolo e o logotipo, utilizamos o preto para dar um contraste à identidade, proporcionando uma visão privilegiada”, explicou o arquiteto. A fonte do logotipo tem o nome de Microgramma Bold Extended, que trouxe ao contexto, segundo o arquiteto, uma legibilidade fantástica.   

A base de inspiração para criar os novos layouts de pintura em ônibus surgiu após a constante leitura e análise do trabalho realizado pelo arquiteto americano Alexander Girard, que designou o projeto de pintura dos aviões da companhia Braniff International Airways, com tintas resistentes e cores estimulantes. De acordo com João de Deus, a proposta era aumentar as vendas de passagens por meio do apelo visual das embalagens, no caso as fuselagens, dos aviões da companhia norte-americana. “E porque não aplicar esse conceito nos ônibus?”, questionou o arquiteto. “Sempre fui estimulado pelos novos conhecimentos para poder fazer o melhor”, observou.

Raymond Loewy, considerado um dos papas mundiais no design industrial, também estimulou os estudantes da FAUUSP, e depois arquitetos, a desenvolver suas criações para o ramo automobilístico. “Loewy, ainda no começo da década de 1930, em Nova Iorque, vindo da França durante a quebra da bolsa norte-americana, tinha um slogan em que dizia que “a feiura vende mal” e por isso era necessário tornar as embalagens mais bonitas e atraentes. Um caso icônico foi o cigarro Lucky Strike, que conquistou o mercado após o designer francês promover o redesígnio da embalagem, deixando-a com um formato e com cores bem mais agradáveis do que era antes, trocando o círculo verde, para um círculo vermelho sobre fundo branco”, ressaltou João de Deus. Loewy ainda projetou locomotivas, ônibus para a Greyhound, um automóvel para a marca Studebaker, o símbolo da petroleira Shell, dentre outros elementos gráficos e produtos.

Voltando ao projeto da Itapemirim, o start dos novos conceitos em redesígnio no setor de transportes, após colocarem no papel a ideia para a renovação da identidade visual da operadora, tomando todos os cuidados para haver uma apresentação digna da capacidade dos dois estudantes de arquitetura da FAUUSP, Cardoso e Ferro rumam novamente para a sede da empresa, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, levando novos slides 35 mm e um carrossel da marca Kodak que permitiu a exibição para os diretores reunidos, visando a melhor explicação sobre os detalhes criativos, as cores e os formatos inclusos na concepção. “Elaboramos a apresentação do layout da pintura com a ajuda do catálogo do então novo ônibus lançado pela Mercedes-Benz no Brasil, o monobloco O326. Fizemos algumas alterações no material, incluindo o desígnio escolhido e fotografamos. Assim que projetamos a nossa ideia no carrossel, Camilo Cola se mostrou encantado com o projeto. A partir daquele momento, o empresário adquiriu o novo modelo com a pintura criada por nós”, ressaltou Cardoso.

O projeto foi um sucesso no segmento de transporte, sendo que as operadoras perceberam que poderiam ter maior rentabilidade em seus negócios por meio de novos e modernos conceitos aplicados em identidades visuais.  

Imagens gentilmente cedidas por João de Deus Cardoso

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