A qualidade tão ensejada

O mundo mudou, evoluiu, com a chegada dos mais variados recursos tecnológicos que proporcionam benesses em diversos setores, inclusive o de transporte coletivo urbano, que no Brasil, dá a impressão que prefere ficar parado no tempo

Editorial

Quando você, leitor, vai à algum restaurante e as refeições deixam a desejar pela falta de qualidade, com certeza você não volta mais ao estabelecimento. E se, vai à uma loja de departamento e não é bem atendido, também risca de sua agenda esse comércio, não comparecendo mais ao local. Você tem o poder de escolhas e decisões para alcançar uma experiência agradável em termos de saborear alimentos ou de ter um produto que tanto sonhou para o seu uso. É a voz do cliente, que em muitos casos, determina o rumo de sobrevivência das instituições comerciais.

Entretanto, porque o clamor de quem mais precisa se locomover pelas áreas urbanas, por intermédio de bons serviços de transporte coletivo, é abafado pela falta de interesse dos poderes públicos concedentes em promover a qualidade operacional e a melhor forma de financiamento, com tarifas justas e adequadas? O que resta ao passageiro, a não ser buscar outras alternativas para realizar suas atividades diárias?

São questões que acompanham o setor há um bom tempo, sem ter respostas condizentes que satisfaçam esse público e suas expectativas quanto as demandas relacionadas ao desempenho de uma lógica que deveria estar atrelada à uma mobilidade regulada sob a forma do planejamento, da evolução e do constante investimento.

Não é segredo que os sistemas brasileiros de transporte coletivo urbano estão sob fogo cruzado, na mira dos formadores de opinião, do poder público e dos passageiros, com suas respectivas metralhadoras alvejando o caráter indigno dos serviços realizados pelos ônibus (predominantes na cena).

O fato, por si, já pede alterações na estrutura do modal. A desqualificação é um passageiro constante que utiliza o veículo sob as mais diversas formas. Em resumo, o ônibus tem uma imagem que envergonha e causa desgosto à sua coletividade, deixando de contribuir positivamente com o planejamento urbano. Para mudar essa representação negativa, há muito a se fazer, a começar pelo entendimento que, sem essa modalidade não alcançaremos mobilidade coerente com o que o futuro nos reserva.

Temos a impressão que o ônibus é um mal necessário no conjunto urbano. Recebe diversas críticas de passageiros, dos pedestres, dos motoristas em seus veículos automotores, da imprensa e dos governantes. Em sua defesa, alguns poucos advogados que lutam para manter em atividade um setor essencial na ordem do dia.

Para ser reconhecido com um modelo eficiente, o ônibus necessita de uma reviravolta em seu conceito. Prioridade operacional anda junto com previsibilidade. Rentabilidade é parceira da justa remuneração e de receitas extra tarifárias. Qualidade custa mais, condição Sine qua non para efeito de maior dignidade ao cliente. Planejamento de rotas é antagônico a superposição de linhas. Flexibilização funcional é análogo ao atual momento das preferências de deslocamentos das pessoas.

Intercedendo pela melhora dos sistemas, os especialistas da causa que propõem a sensata distinção operacional concordam que a adoção de programas governamentais e políticas públicas de incentivo e qualificação ao modal deve ser uma urgência inadiável, pois o segmento já não suporta mais aguardar decisões, muitas delas equivocadas, e ingerências por parte das administrações públicas municipais.

Cada dia que passa, vemos a degradação dos sistemas, reforçada também pela pandemia, que tratou de revelar ainda mais crítica situação do transporte. Algumas e poucas cidades brasileiras tiveram a iniciativa de implantar o socorro financeiro à operação, algo que deveria ser corriqueiro em nosso País. Quando digo socorro financeiro à operação não é simplesmente conceder recursos financeiros ao transportador, mas sim cobrir a diferença entre os custos operacionais e o valor das tarifas, na forma de tarifa pública e tarifa técnica, sempre com a fiscalização e a cobrança do poder público por serviços com bons resultados.

Aliás, a questão financeira está no centro da discussão, pois é ela quem determina a qualidade, o desempenho e a sustentabilidade do setor. Transporte coletivo é um direito social incluso na Constituição Brasileira e, também, um negócio, que deve ter a sua rentabilidade para sobreviver. Se os serviços são públicos, concedidos pelas municipalidades, a operação é feita pela entidade privada, que não conta com suporte algum, além da própria receita vinda do passageiro. Não se esquecendo que as diversas gratuidades concedidas são cobertas, apenas, pela simples arrecadação das passagens.

Novamente, quanto a qualificação do transporte, não se pode esquecer de um outro detalhe promovido pelo modal, que é a sua propriedade ambiental, contribuindo com um ar mais limpo, livre das emissões poluentes vindas do transporte. Um bom corredor de ônibus, com fluidez, tende a apresentar a redução dessas emissões.

As prefeituras das médias e grandes cidades precisam repensar no modelo praticado atualmente em termos de serviços. Investir em corredores e sistemas de BRT (Trânsito Rápido de Ônibus) é a maneira de modernizar o transporte coletivo. Tal prioridade representa muitos ganhos – viagens mais rápidas, eficiência, menor custo.

E, já que estamos falando do ônibus, porque não integrá-lo aos outros modais de transporte para aumentar a sua eficácia nos sistemas?

Outrossim, a questão tecnológica dos veículos tem sido um tema bem propício debatido pelos envolvidos com o transporte. Modelos de ônibus mais modernos e futurísticos são lembrados com a sua tração elétrica, amparados pela ideia de que é a única maneira de se alcançar o transporte limpo. Não há dúvidas de que a referida propulsão será determinante no amanhã, com consequências positivas à qualidade do ar urbano, mas, neste momento, os valores dos veículos são impraticáveis se não houver um significativo suporte financeiro. Sabe quanto custa um modelo de chassi (sem a carroçaria) para ônibus elétrico, com 13 metros de comprimento, considerado o mais barato? Mais de R$ 1.800.000,00. Quem se habilita a investir?

Há outros modelos energéticos (combustíveis) que também podem apresentar o caráter ambiental, como o biometano ou o HVO na tração dos ônibus. Mais uma vez, como se trata de inovações, os valores dos conceitos tecnológicos ainda são mais elevados que os modelos tradicionais movidos a diesel (no caso do ônibus a gás, esse valor é quase o dobro de um veículo a diesel). É preciso fomentar a produção local para se alcançar preços mais viáveis aos operadores.

Por fim, cabe o registro sobre as muitas políticas públicas que incentivam o transporte individual, por meio da desoneração de impostos dos veículos zero km, os projetos e a ampliação de vias e artérias urbanas para os automóveis e o pouco interesse governamental na promoção do subsídio ao preço do óleo diesel, principal combustível para mover o transporte coletivo. São aspectos que devem ser reconsiderados em prol do transporte coletivo.  

As muitas observações citadas acima requerem um trabalho que é, ao mesmo tempo, desafiante, paciente e importante, para que os sistemas de ônibus urbanos possam ter qualificação e acessibilidade financeira em conformidade com a realidade brasileira. O mundo mudou, evoluiu, com a chegada dos mais variados recursos tecnológicos que proporcionam benesses em diversos setores, inclusive o de transporte coletivo urbano, que no Brasil, dá a impressão que prefere ficar parado no tempo.

Imagens – Reprodução

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