Por Carina Silva, diretora de Gestão de Recursos da Turis Silva
O início do ano traz um convite silencioso à reflexão: quem somos hoje, quem fomos ontem e quem ainda podemos nos tornar. E se há algo que deveríamos adotar como regra de vida é permanecer em constante evolução e aprendizado, sem medo de reconhecer que não somos donos de verdades absolutas. O amadurecimento profissional não é um destino, mas uma construção.
No setor de transporte rodoviário, essa construção acontece de forma intensa. Trata-se de um universo amplo, que engloba diferentes subsegmentos, cada um com suas particularidades, desafios e oportunidades. Talvez, no dia em que houver um olhar mais empático entre esses subsegmentos, ficará mais evidente que não existe competição, mas sim complementação: uma engrenagem sistêmica e sinérgica, com capacidade de ampliar a percepção do valor do transporte, não apenas como essencial em cada nicho, mas como um eixo estratégico para políticas públicas e decisões privadas.
O transporte rodoviário sempre esteve presente na minha trajetória e moldou, desde cedo, meu olhar sobre o setor. Pelo lado paterno, o transporte de cargas; pelo lado materno, o transporte urbano de passageiros. A partir dessas raízes, meus pais fizeram uma transição e passaram a atuar no transporte de passageiros por fretamento, um subsegmento privado, mas de grande relevância pública. Isso porque o fretamento garante, todos os dias, o deslocamento de trabalhadores de diversas áreas, inclusive de setores essenciais, responsáveis por manter em funcionamento cadeias como a de alimentos, medicamentos e serviços indispensáveis à sociedade.
Existe um pano de fundo que acompanha praticamente toda a trajetória de quem vive o transporte: é um setor predominantemente masculino, em qualquer subsegmento. E, no meu caso, havia ainda dois elementos: ser mulher e ser “a filha dos chefes”. Isso, por si só, já cria, silenciosamente, cobrança, expectativa e julgamento. Por muito tempo, senti que precisaria provar mais para ser reconhecida pelo que entregava e não pelo lugar de onde eu vinha. Talvez por isso eu só tenha entrado na empresa de forma verdadeiramente ativa após a graduação em Direito. A faculdade me trouxe conhecimento e visão crítica, mas não me deu as ferramentas de que eu precisava para gerir pessoas, processos e resultados.

Carina Silva – Por muito tempo, senti que precisaria provar mais para ser reconhecida pelo que entregava e não pelo lugar de onde eu vinha
Foi aí que começou uma nova fase: busquei cursos, capacitações e especializações para preencher o que faltava. E entendi algo essencial: conhecimento teórico, sem vivência, não sustenta a realidade. A maturidade veio quando comecei a aplicar, errar, ajustar e, principalmente, não ter vergonha de recomeçar quando necessário. Com o tempo, fui planejando melhor, analisando cenários com mais clareza, me cercando de pessoas com experiências diversas e exercitando uma coragem que eu não sabia que tinha, inclusive para dizer “não” quando necessário. A liderança, então, deixou de ser expectativa e virou prática: uma escolha consciente, guiada por valores e pelo desejo genuíno de construir ambientes mais justos, colaborativos e humanos.
E foi justamente por compreender o valor estratégico de conviver com pessoas que carregam repertórios e vivências diferentes das minhas que passei a buscar, intencionalmente, espaços de troca com empresários do setor. Ouvir trajetórias, entender escolhas, identificar diferenciais de sucesso e reconhecer padrões de consistência tornou-se, para mim, uma forma concreta de ampliar visão e acelerar amadurecimento. Essa convivência fortaleceu meu repertório e ampliou minha capacidade de planejamento e leitura de cenários. Foi nesse movimento que meu envolvimento institucional se intensificou, culminando na presidência da ATURS e do SINFRETURS.
Ao assumir esses espaços, somado ao contato com o poder público, passei a enxergar o transporte sob uma perspectiva ainda mais sistêmica e estratégica. Em algum ponto dessa caminhada, deixei de ser apenas a “filha do Jaime Silva da Turis Silva” para ser reconhecida como Carina Silva: alguém que constrói liderança com consistência, responsabilidade e presença.
Amadurecer profissionalmente é aceitar que a jornada nunca termina e que a experiência passa a ser matéria-prima para escolhas mais conscientes. O setor de transporte exige visão e responsabilidade e, ao mesmo tempo, nos oferece a chance diária de evoluir com as pessoas, com os desafios e com as decisões. E, entre tantas lições que a caminhada me trouxe, uma das mais sábias que já ouvi foi a de que, no fim, “somos pessoas servindo pessoas”. Por isso, quando olho para trás e reconheço o caminho percorrido, afirmo com convicção: se eu fosse a mesma profissional de quando comecei, algo estaria errado. Que possamos seguir em movimento, aprendendo, ajustando rotas e construindo futuros melhores.
Imagens – Divulgação












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