Descarbonizar para Além da Eletrificação: o Recado do Fórum de Transição Energética do Rio

A infraestrutura de abastecimento, incluindo soluções de alta vazão e modelos dedicados para garagens, já está disponível e tecnicamente validada

Por Gabriel Kropsch, diretor e sócio-fundador da Sinergás

O *Fórum de Transição Energética no Transporte Público do Estado do Rio de Janeiro*, realizado nos dias 3 e 4 de fevereiro no Espaço Costa Hall, no centro da capital fluminense, consolidou-se como um dos principais espaços de debate sobre mobilidade sustentável no País. Com auditório lotado ao longo dos dois dias, o evento evidenciou o crescente interesse de governos, operadores e empresas por soluções concretas para a descarbonização do transporte coletivo.

A programação reuniu representantes do Governo do Estado, da Prefeitura do Rio, associações setoriais e empresas da cadeia de energia e mobilidade. Logo na abertura, que contou com a presença de autoridades estaduais e lideranças do setor, ficou claro que o debate deste ano ganhou novos contornos em relação à edição anterior.

Se, em 2025, a discussão esteve fortemente concentrada na eletrificação das frotas, em 2026 o biometano e o gás natural passaram a ocupar papel central em praticamente todos os painéis. O discurso de abertura do presidente-executivo da Semove (Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro), Armando Guerra Júnior, foi emblemático nesse sentido. Ele defendeu a necessidade de encarar a “descarbonização para além da eletrificação”, ressaltando que a transição energética deve priorizar soluções viáveis e imediatas, sobretudo diante dos desafios relacionados à infraestrutura de recarga para ônibus elétricos.

Guerra também chamou atenção para as principais demandas dos usuários do transporte público — rapidez, regularidade e modicidade tarifária — e destacou que a agenda ambiental precisa caminhar junto com a requalificação do sistema. Segundo ele, é fundamental reforçar a oferta e tornar o serviço mais atrativo para recuperar parte da demanda que migrou para aplicativos de transporte individual nos últimos anos.

O debate ganhou densidade técnica ao longo dos painéis. Representantes de diferentes elos da cadeia do biometano reforçaram que o setor está estruturado para atender tanto a demanda atual quanto uma expansão futura. Tiago Santovito, da ABiogás, apresentou dados sobre a disponibilidade de combustível 100% renovável em volumes suficientes para o mercado. Celso Bastos, da Gás Verde, detalhou os investimentos já realizados e os projetos em curso do grupo Urca Energia na produção de biometano no estado do Rio de Janeiro. Juliana Moura, da Naturgy, informou que as garagens de ônibus da capital já foram mapeadas e têm acesso à rede de gás canalizado, o que garantiria distribuição segura e confiável.

Da minha parte, tive a oportunidade de apresentar as soluções de infraestrutura de abastecimento para GNV e biometano voltadas a veículos pesados, destacando que já dispomos de tecnologia de alta vazão, modelos dedicados para garagens e sistemas capazes de garantir tempo de abastecimento competitivo, segurança operacional e confiabilidade no dia a dia das frotas. A mensagem central foi clara: a infraestrutura não é mais um gargalo técnico para a expansão do gás no transporte público.

Outro momento de forte repercussão foi a palestra de Sergio Habib, fundador do Grupo SHC e presidente da JAC Motors. Ele questionou de forma direta quem deve arcar com a diferença de custo dos ônibus elétricos, defendendo que essa conta necessariamente recai sobre o poder público ou, em última instância, sobre a sociedade. Como exemplo, citou a cidade de São Paulo, que precisa incorporar cerca de 1.500 novos ônibus por ano para substituir veículos antigos. Segundo ele, a eletrificação integral implicaria um custo adicional da ordem de R$ 3 bilhões anuais em subsídios. Habib também observou que, sob a ótica das distribuidoras de energia, os investimentos necessários para ampliar a infraestrutura de recarga não apresentam retorno financeiro claro.

Embora a eletrificação tenha sido reconhecida como solução adequada para determinados contextos urbanos, foi consenso entre diversos participantes que há limitações técnicas e econômicas, especialmente em rotas rodoviárias de média e longa distância. Questões como autonomia, tempo de recarga, necessidade de reforço de rede e até perda de capacidade de bagagem devido ao espaço ocupado por baterias foram citadas como entraves relevantes.

Ao final do fórum, a principal mensagem foi a de que a transição energética no transporte público não deve ser tratada como uma disputa tecnológica, mas como uma agenda de complementaridade. Com produção crescente de biometano, rede de distribuição estruturada e soluções de abastecimento disponíveis, o gás natural e o biometano surgem como alternativas imediatas para reduzir emissões sem comprometer a operação e a modicidade tarifária.

O evento deixou evidente que o debate amadureceu. Se antes predominava uma narrativa quase exclusiva em torno da eletrificação, agora o setor discute um portfólio mais amplo de soluções, alinhando sustentabilidade ambiental, viabilidade econômica e qualidade do serviço prestado à população.

Imagens – Divulgação/Acervo

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